Leituras Cruzadas: O ingrediente judaico
MOACYR SCLIAR
Ao contrário do que se pensa, a presença
judaica no Brasil data de longo tempo e é profundamente vinculada à história
do país. Mostra-o uma série de livros recentemente publicados e que nos
falam de uma experiência humana surpreendente, às vezes trágica, às vezes
pitoresca, mas sempre comovente.
| Fotos Arquivo
Histórico Judaico Brasileiro |
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| Loja localizada na
rua São Caetano, Bom Retiro, em São Paulo (1946) |
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Essa longa trajetória tem suas raízes mais longínquas
na dispersão judaica, um processo que se acelerou depois da conquista,
pelos romanos, da antiga Palestina (a palavra, aliás, é de origem romana).
A essa conquista, e diferentemente de outros povos, os judeus opuseram uma
feroz e desesperada resistência que acabou sendo esmagada. Levados como
escravos para Roma, os judeus espalharam-se por várias regiões do Império.
A península Ibérica foi um desses lugares. Há indícios de que os judeus
lá viviam inclusive antes do domínio romano; o termo hebraico que designa
a Espanha, Sefarad, já aparece no Antigo Testamento. Os judeus da região
passaram a ser conhecidos como sefardis, ou sefaradis, ou sefarditas.
Nos primeiros tempos do cristianismo, o tratamento dos judeus pelos monarcas
cristãos variava —períodos de perseguição alternando-se com outros de
relativa tranquilidade. E então ocorre um fato de grande importância, que
foi a invasão árabe da península (século 8º).
De maneira geral, os judeus apoiaram essa conquista, ainda que mais tarde,
nas lutas entre cristãos e muçulmanos, tenham participado de ambos os exércitos.
Na Espanha muçulmana, conheceram dias de esplendor intelectual —foi uma
"Idade de Ouro" judaica, durando do século 9º ao 13.
A cultura árabe, que representava uma ponte entre a do Oriente e a do
Ocidente, preservando inclusive a filosofia grega, influenciou muito os
judeus, até mesmo em termos de idioma: a palavra "alfama", ou
"aljama", que, na península Ibérica, designava o bairro judaico,
é árabe. A figura exponencial nesse período foi Moisés ben Maimon (ou
Musa ibn Maimon, ou Maimônides —reformas árabe e grega de seu nome).
Nascido em Córdova (1135), Maimônides era um famoso médico; um
entusiasmado poeta da corte chegou a dizer que, se cuidasse da Lua, Maimônides
"a livraria das manchas e até impediria que minguasse". Exerceu
sua profissão não na Espanha, mas no Egito, onde se radicara com sua família,
e chegou a ter entre seus clientes o sultão Saladino. Nos intervalos,
escreveu várias obras sobre filosofia da religião, que surpreendem pela
abertura e pela tolerância.
A medicina era uma das profissões a que os judeus se dedicavam na Idade Média.
Mas eles também eram comerciantes e coletores de impostos e emprestavam
dinheiro a juros, numa época em que os bancos não existiam. Essa era uma
ocupação que facilmente atraía ódios e rancores e acabou tendo implicações
religiosas: contatos entre judeus e cristãos foram proibidos, e a ordem
dominicana, criada para combater heresias, tinha também o judaísmo em sua
mira.
No final da Idade Média, surge a Inquisição, que, na Espanha, tinha como
alvo principal não as heresias, mas os judeus e os muçulmanos. A quem, após
a vitória dos reis católicos Fernando e Isabel, foi dado um ultimato:
expulsão ou conversão.
Muitos judeus optaram por esta última alternativa, que, no entanto, não
representava proteção segura. Não raro os chamados cristãos-novos eram
investigados pela Inquisição sob a acusação de práticas
"judaizantes". Essa acusação podia ser anônima; comprovada,
poderia levar à execução do réu e, claro, ao confisco de seus bens.
Em 1492, ano da descoberta da América, os judeus foram expulsos da Espanha.
Muitos dirigiram-se para Portugal, onde foram aceitos mediante o pagamento
de altas somas. Mais tarde, e sob pressão dos reis católicos, o soberano
português, dom Manuel, determinou que os judeus fossem compulsoriamente
batizados. Mas, como na Espanha, havia suspeitas em relação aos chamados
cristãos-novos.
Em 1536, foi instalado o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. A partir
daí, somente seriam aceitos para cargos públicos "homens fidalgos de
limpo sangue". Criou-se um clima de suspeição, de delação, de
intriga, que, em contrapartida, gerou na comunidade judaica a incerteza, a
necessidade da dissimulação, as expectativas messiânicas: essa é a época
dos chamados "falsos messias", que anunciavam, aos desesperados
judeus, o fim dos tempos e o advento do Messias.
O desenvolvimento do mercantilismo e a perspectiva das descobertas marítimas,
com a ascensão da burguesia, colocou em cheque o mundo feudal e, ao mesmo
tempo, abriu perspectivas para os judeus detentores do dinheiro necessário
para financiar as expedições marítimas.
Colombo recebeu o apoio de financistas judeus, recrutou cartógrafos e
navegadores judeus. Em Portugal, igualmente, judeus estavam envolvidos com
as expedições marítimas ao Novo Mundo.
As terras recém-descobertas representavam, para esse grupo de perseguidos,
oportunidade e esperança: oportunidade de progresso material, esperança de
maior liberdade. Já em 1501, um grupo de cristãos-novos, encabeçado por
Fernão de Noronha, tinha obtido da Coroa portuguesa uma concessão para a
exploração do novo território —um "contrato de risco" da época.
Os judeus podem ter sido responsáveis pela introdução da primeira cultura
brasileira, a cana-de-açúcar, e sua industrialização, com os engenhos.
Grande parte dos judeus chegaram ao Brasil na condição de degredados. Essa
é a história que Geraldo Pieroni conta em "Banidos: a Inquisição
e a Lista dos Cristãos-Novos Condenados a Viver no Brasil" (Bertrand
Brasil, 288 págs., R$ 29).
Pieroni, professor de história, fez exaustivas pesquisas no famoso arquivo
da Torre do Tombo (Lisboa), onde estão guardados os processos
inquisitoriais. Mostra que, também no Brasil, o longo braço da Inquisição
alcançou os cristãos-novos suspeitos de práticas judaizantes.
As visitações do Santo Ofício começam em 1591, inaugurando um período
de denúncias, de perseguições, de torturas e de execuções. Diz Pieroni:
"A vida cotidiana dos cristãos-novos era rigorosamente vigiada. Todos
eram suspeitos de judaísmo". E as suspeitas poderiam nascer de
detalhes; por exemplo, trocar de camisa numa sexta-feira, véspera do
"shabat" judaico.
Os processos inquisitoriais eram basicamente os mesmos, mas os condenados não
eram executados no Brasil: Antônio José, "o judeu", o primeiro
grande dramaturgo brasileiro, foi queimado na fogueira em Lisboa. Algumas
pessoas lutaram corajosamente contra esta perseguição, entre elas o padre
António Vieira. E, durante a breve ocupação holandesa do Nordeste, os
judeus puderam assumir sua identidade, construindo inclusive uma sinagoga no
Recife; sobre as ruínas desta, existe hoje um interessante museu.
Tanto em Portugal como no Brasil surgiu uma peculiar imagem dos judeus,
imagem essa que o grande mestre Luís da Câmara Cascudo analisou no clássico
"Mouros, Franceses e Judeus: três presenças no Brasil"
(Global, 110 págs., R$ 28), recentemente reeditado. A imagem traduz-se
inclusive em frases e expressões típicas: "Judeu só não engana a
morte", "Judeu surrado, mas lucrado". E a palavra
"judiaria", mesmo em nossa época de termos politicamente
corretos, continua sinônimo de malvadeza, sadismo, perversidade.
De outra parte, costumes judaicos incorporaram-se à cultura brasileira,
como é o caso de sangrar inteiramente o gado abatido, como é definido
pelas leis religiosas.
No final do século 18, a situação muda. Por iniciativa do marquês de
Pombal, autoritário mas esclarecido político, a monarquia portuguesa
decreta o fim da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos. A
Inquisição é praticamente desativada. A partir daí, diz Câmara Cascudo,
"o judeu dissolveu-se no sangue nacional, pelo casamento (...), pela
conquista social nas áreas econômicas". Uma assimilação completa,
tanto mais que os sobrenomes judeus são indistinguíveis de outros
sobrenomes portugueses.
Novos fluxos migratórios judaicos para o Brasil ocorreriam no século 19.
Com a liberal política de "abertura dos portos", um pequeno número
de judeus chegou ao Rio e a Salvador. A partir da segunda década do mesmo século,
judeus marroquinos, em maior número, dirigiram-se para a região Norte,
sobretudo para Belém e Manaus.
No fim do século 19, judeus alsacianos estabeleceram-se no Rio,
especializando-se no comércio de jóias e de artigos de luxo. Era a época
de dom Pedro 2º, monarca tão interessado em judaísmo que chegou a
aprender hebraico, idioma no qual se dirigiu a um grupo de alsacianos recém-chegados
(que, a propósito, nada entenderam da saudação: hebraico não é para
qualquer um).
O século dos 800 viu grandes movimentos migratórios do Velho Mundo para a
América. De uma Europa empobrecida, devastada por guerras e conflitos étnicos,
milhões de pessoas atravessavam o oceano, nos navios de emigrantes que
Lasar Segall tão pungentemente retratou. Vinham em busca do sonho
americano, simbolizado, no porto de Nova York, pela Estátua da Liberdade
(em cujo pedestal, aliás, estão gravados os versos da poeta judia Emma
Lazarus: "Dá-me teus exaustos, teus pobres/ tuas confusas massas que
por ar livre anseiam").
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| Loja de tecidos em
Franca (SP) |
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Na América Latina, continente então escassamente
povoado, os imigrantes eram favorecidos por uma política sintetizada na
frase do intelectual argentino Juan Alberdi: "Governar é povoar".
Colonos eram trazidos pelas companhias de imigração; no caso dos judeus,
tratava-se da Jewish Colonization Association (conhecida pela sigla JCA ou
pela ICA), criada por filantropos da Europa Ocidental.
A ICA trabalhava com os judeus da Europa Oriental (Rússia, Polônia), então
confinados em pequenas e pobres aldeias, sempre sujeitos a perseguições e
massacres. Eles eram levados para a Argentina e para o Rio Grande do Sul.
Nesse Estado, a imigração completará, em novembro de 2004, seu centenário.
Essa história, narrada por Isabel Rosa Gritti em "Imigração
Judaica no Rio Grande do Sul" (Martins Livreiro, 154 págs., R$ 14),
não pode ser considerada inteiramente bem-sucedida: os recém-chegados, em
sua maioria artesãos, não estavam familiarizados com as lides agrícolas e
não receberam da ICA o apoio que esperavam. Seguindo a tradicional tendência
do êxodo rural, breve estavam se dirigindo para as cidades da região
(Passo Fundo, Santa Maria, Erechim) e, sobretudo, para Porto Alegre.
Como mostram Henrique Veltman ("A História dos Judeus em São
Paulo", 162 págs, R$ 20, e "A História dos Judeus no Rio de
Janeiro", 180 págs., R$ 20, ambos da editora Expressão e Cultura)
e Rachel Mizrahi ("Imigrantes Judeus do Oriente Médio: São Paulo e
Rio de Janeiro", Ateliê Editorial, 330 págs., R$ 70) foi nas
grandes cidades que as comunidades judaicas mais se desenvolveram, quer se
tratassem de sefaradis vindos do Oriente Médio, quer se tratassem de
asquenazes, vindos da Europa Oriental (e que, em sua maioria, falavam o iídiche,
dialeto que mistura alemão com hebraico e palavras eslavas). A estes, mais
tarde, juntaram-se os refugiados do nazismo, entre eles intelectuais como
Stefan Zweig e o dramaturgo Fritz Oliven.
A vida dos recém-chegados era bastante dura. Em geral, procuravam viver
juntos, em bairros como o Bom Retiro (São Paulo) e o Bom Fim (Porto
Alegre). Dedicavam-se ao pequeno comércio, à venda a prestações (que
precedeu os crediários) e ao comércio ambulante de gravatas, por exemplo.
Um samba gravado por Adoniran Barbosa começa assim: "Jacó/ o senhor
me prometeu/ uma gravata e até hoje ainda não deu...".
A carência material era compensada pelo forte espírito comunitário, graças
ao qual era possível manter escolas, clubes, asilos, cemitérios. Aos
poucos, foram ascendendo na escala social, desenvolvendo atividades em ramos
como o grande comércio, a construção civil, a indústria. Os filhos iam a
universidades e tornavam-se médicos, engenheiros, advogados, jornalistas. O
que facilitou o processo de integração na sociedade brasileira.
Anti-semitismo pode existir, e existe, mas está longe de se constituir no
problema que representou em outros países. O Brasil é o legítimo
"melting pot", um caldeirão de misturas culturais. Nesse caldeirão,
o judaísmo é um ingrediente que entra em pequena quantidade, mas que nem
por isso deixa de dar ao prato um sabor especial.
Moacyr Scliar, 66,
autor de 68 livros, é membro da Academia Brasileira de Letras e colaborador
da Folha. Descendente de judeus vindos da Rússia, escapou da Inquisição,
mas levou alguns sustos à época do regime militar. Faz da experiência de
imigração um componente importante em sua literatura.
Saiba mais: Exposição "Partindo para o Brasil - Imigração
Judaica em São Paulo", no Memorial do Imigrante, até 16 de novembro;
tel. 0/xx/11/228-8769; na internet, em www.memorialdoimigrante.sp.gov.br/Realizad/Judaico.html.
Leia trecho de "Imigrantes Judeus do
Oriente Médio"
da Folha de S.Paulo
Leia abaixo o prefácio e a introdução de "Imigrantes
Judeus do Oriente Médio: São Paulo e Rio de Janeiro" (Ateliê
Editorial, 330 págs., R$ 70), de Rachel Mizrahi, livro comentado na seção
"Leituras
Cruzadas" do Sinapse de 28 de
outubro de 2003.
Prefácio
O estudo Imigrantes Judeus do Oriente Médio: São Paulo e Rio de Janeiro,
de Rachel Mizrahi, inaugura uma nova etapa na historiografia brasileira
sobre imigração judaica, aqui interpretada como um fenômeno múltiplo. Múltiplo
se avaliado segundo o fluxo de grupos culturais distintos: asquenazis,
sefaradis, orientais e outros grupos menores. Os imigrantes aqui
apresentados não formam um grupo monolítico, homogêneo, indiferenciado.
Suas trajetórias são distintas, assim como suas estratégias de sobrevivência,
ainda que vinculadas ao lugar de origem.
Este livro recupera, em especial, a memória dos imigrantes judeus oriundos
das regiões árabes e dos sefaradis que, a partir de 1492, haviam se
instalado em terras do Império Otomano. O fato de Rachel Mizrahi ser filha
de imigrantes judeus do Oriente Médio, lhe garantiu critérios de observação
participante, contato direto e pessoal com os sujeitos da história. Neste
sentido, podemos considerar que esta publicação é, antes de mais nada,
expressão do sentido de pertencimento e do compromisso da autora com
a comunidade de seus pais, matrizes de sua inspiração e protagonistas
desta história.
Como orientadora e colega de pós-graduação de Rachel Mizrahi, tive a
oportunidade de acompanhar sua trajetória de pesquisadora que, de forma
vibrante, investiu na construção da memória individual e coletiva da
comunidade judaica brasileira. Durante estes anos todos tivemos em comum o
mesmo objeto de estudo — o povo judeu na Diáspora — e a mesma escola.
Sua formação de pós-graduanda se fez, assim como a minha, enquanto discípula
de Anita Novinsky que desde a década de 1970 é responsável junto a
Universidade de São Paulo pela formação de um grupo de historiadores
dedicados a "mapear" a presença de cristãos-novos e judeus no
Brasil, em diferentes tempos históricos. Seu doutorado, então sob a minha
orientação, concentrou-se na reconstrução do processo de formação das
modernas comunidades judaicas brasileiras, priorizando a presença dos
judeus sefaradis e orientais em São Paulo e Rio de Janeiro. Neste sentido,
podemos afirmar que formamos uma "escola", distinta por gerações,
dedicada a discutir o tema da intolerância e da liberdade sob o viés da
História das Mentalidades.
Em sua dissertação de mestrado — A Inquisição no Brasil: Um Capitão-mor
Judaizante, Mizrahi reconstituiu, a partir da figura de Miguel Telles da
Costa, a pequena comunidade de cristãos-novos judaizantes radicados na
Capitania de "Nossa Senhora de Itanhaém, com sede na vila de Parati,
conhecida como o porto do ouro". A reconstrução histórica, baseada
em processos inquisitoriais, se fez em torno das relações sociais que
envolviam a comunidade cristã-nova radicada no Rio de Janeiro, Minas Gerais
e Parati na primeira metade do século XVIII1.
Continuando seus estudos sobre a história dos judeus em São Paulo e Rio de
Janeiro, Mizrahi voltou-se para a sua própria comunidade: a dos judeus
sefaradis e orientais que — assim como os cristãos-novos durante a época
moderna — deixaram sua terra de origem em busca de melhores oportunidades
de vida. Ambos os grupos, ainda que em períodos históricos distintos,
vivenciaram processos de ruptura e (re)adaptação. O sentimento de
desenraizamento emerge enquanto fenômeno que altera os sentimentos de
identidade atrelado a idéia de "perda": perda da família, de
bens, costumes etc. É aqui que a pintura e a fotografia cumprem a função
de documentos-referência, tanto para o "lado de lá" (o antigo
Império Otomano) como para o "lado de cá" (o Brasil contemporâneo).Os
depoimentos orais contribuem para recuperar experiências múltiplas
registradas sobre fatos comuns: arrumar as malas, a hora da partida, o
momento da despedida, o primeiro "olhar" sobre o Brasil, a nova
casa, o primeiro emprego, a inauguração da sinagoga, os namoros permitidos
e os casamentos proibidos.
Ao longo de seu texto, Mizrahi demonstra que a lembrança é dinâmica; que
ela vai se renovando no espaço das vidas num (re)arranjo de emoções
grupais ou familiares. Para isto basta ler as passagens em que os
protagonistas se referem ao "fantasma dos casamentos mistos" e aos
"conflituosos processos de conversão"; ou então, acompanhar as
alterações de nome da Sinagoga da Abolição enquanto preocupação da
comunidade em reafirmar sua identidade sefaradi. Fundada em 1929 como
Comunidade Sephardim de São Paulo, recebeu várias denominações: Sinagoga
Israelita Brasileira do Rito Português (década de 1940), Templo Israelita
Schaar Hashamaim (década de 50) e Templo Israelita Brasileiro OhelYaacov
(1963).
Ao constatarmos certas diversidades grupais, nos damos conta que as modernas
comunidades judaicas radicadas no Brasil têm pontos comuns em suas trajetórias,
ou seja, iniciaram-se partir de um núcleo improvisado diante da necessidade
de construir um espaço particularmente judaico onde pudesssem constituir o minian.
Assim, na história de cada uma das instituições dos judeus radicados em São
Paulo e no Rio de Janeiro, sobrevivem resquícios de diferentes lideranças
modeladas ora por valores sefaradis e asquenazis, ora por movimentos de
emancipação judaica. Tais diversidades na composição interna da
comunidade, acabaram por agrupar seus membros em diferentes associações,
escolas clubes recreativos e sinagogas. Percebemos que a imigração
judaica, ao longo do século XX, vai deixando de ser uma ação de grupos
desamparados para se transformar numa rede composta por indivíduos
mobilizados por estratégias de superação social2. No caso dos
judeus orientais, por exemplo, fica evidente como cada família procurou se
agregar em espaços fundados na procedência comum: Istambul, Sidon, Rodes,
Esmirna, Salônica,Yafo, Safed etc. A chave está na identidade destes
protagonistas que, a partir de uma rede de relações sociais e econômicas,
influenciaram o mercado de trabalho e a cultura brasileira. É neste
contexto que percebemos a duplicidade de sentimentos mesclados pelas sensações
plenas de pertencimento e de desenraizamento.
Enfim, é a história vivida (e narrada) por estes imigrantes judeus do
Oriente Médio que dá à Autora os elementos básicos para a "construção"
da memória da comunidade judaica em São Paulo e Rio de Janeiro. A memória,
neste caso, recompõe a relação passado/presente garantindo para o futuro
a sobrevivência das lembranças: o lugar da memória. Coube a
Mizrahi, enquanto membro do grupo-comunidade, fixá-las por escrito em uma
narrativa formal. É quando se configura "a memória coletiva que
envolve memórias individuais sem, entretanto, se confundir com elas" ,
como enfatizou Maurice Halbwachs em sua obra Memória Coletiva3.
Ao cruzar os registros históricos (atas, correspondências, ofícios, lista
de sócios, estatutos, imprensa e diários pessoais) com os depoimentos dos
principais representantes do núcleo sefaradi de São Paulo e Rio de
Janeiro, a Autora conseguiu recompor uma "espécie de cadeia de
pertencimento" onde todos se (re)conhecem com parte de um todo4.
Neste caso, autora e obra se prestam como reforço para o exemplo dado por
Pierre Nora, que considerou os judeus como um grupo-comunidade chamando-os
de "povo da memória" 5.
Maria Luiza Tucci Carneiro
Universidade de São Paulo
São Paulo, 2003
NOTAS
1. Miguel Telles da Costa era cristão-novo e filho de penitenciados
pelo Santo Ofício, estigma que não o impediu de ser designado como capitão-mor
de Parati, posto que ocupou entre 1702 até 1705, quando recebeu ordem de
prisão pelo Santo Ofício. Rachel Mizrahi Bromberg, A Inquisição no
Brasil: Um Capitão-mor Judaizante. São Paulo, Centro de Estudos
Judaicos/FFLCH,USP, 1984. Dissertação de Mestrado em História Social,
orientada pela Profa. Dra. Anita Novinsky.
2. María Bjerg y Hernán Otero (org.), Inmigración y Redes Sociales
en la Argentina Moderna, Buenos Aires, Centro de Estudios Migratorios
Latinoamericanos, Instituto de Estudios Sociales, 1995.
3. Maurice Halbwachs, Memória Coletiva, São Paulo, Vértice,
Editora Revista dos Tribunais, 1990, p. 53.
4. Márcia Mansor D'Aléssio, "Memória: Leituras de M.
Halbwachs e P. Nora", Revista Brasileira de História, São Paulo,
vol.13, n. 25/26, set. 92/ago.1993, p. 97.
5. Pierre Nora, "Entre Mémoire et Histoire", Les Lieux de
Mémoire, Paris, Gallimard, 1984, p. XIX.
Introdução
Esta narrativa nasce da tentativa de reconstruir o passado das comunidades
judaicas do Oriente Médio em São Paulo e no Rio de Janeiro. O interesse em
pesquisar imigrantes judeus — sefaradis e os judeu-orientais — do
Oriente Médio foi despertado por dois motivos: um, de ordem acadêmica e o
outro, pessoal. Desde o início de minhas investigações no campo da História
Social senti-me atraída pelos temas que resgatassem o passado de grupos
minoritários. A análise dos processos inquisitoriais que permitiu recompor
a trajetória de vida de um capitão cristão-novo na Capitania de Nossa
Senhora da Conceição de Itanhaém, sob a orientação da Profa. Dra. Anita
Novinsky, constituiu-se em um estímulo gratificante para que transformasse
a pesquisa do doutorado em livro. Os cristãos-novos, como os judeus do
Oriente Médio, foram obrigados a abandonar a terra de origem e buscar
alternativas de vida em outras regiões. Embora vivendo em tempos históricos
diferentes, os dois grupos passaram por processos de ruptura demarcados por
traumas e esperanças por dias melhores, o recomeço. Assim, os judeus
sefaradis de fala ladina, expulsos das terras ibéricas a partir de 1492 e
instalados nas regiões do Mediterrâneo e Oriente Médio, dominadas pelos
turcos otomanos, retornaram ao Ocidente após cinco séculos.
O segundo motivo foi de ordem pessoal. Pelo fato de ser filha de imigrantes
judeus do Oriente Médio, tendo nascido e vivido na Mooca, sensibilizei-me
com o pouco conhecimento de líderes comunitários a respeito do grupo que,
em pouco tempo, completará cem anos de presença no Brasil. Ao ouvir a
declaração de um antigo presidente comunitário, que "as lembranças...
são nosso único patrimônio", decidi iniciar investigação sistemática
sobre a trajetória desses imigrantes em São Paulo.
Para compreender e melhor situar esses imigrantes, e as comunidades por eles
organizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, foi necessário buscar suas
matrizes culturais no Oriente Médio. Não dominando o hebraico, tive
limitado o acesso a estudos específicos, publicados por israelenses. Os
historiadores Issachar Ben Ami, Margalit Bejarano e Nehemias Levetzion, da
Universidade Hebraica de Jerusalém, pessoalmente, foram contatados e
indicaram aspectos que poderiam ainda ser explorados na pesquisa para,
assim, conhecer como e em que sentido a cultura dos judeu-orientais
diferenciava-se dos sefaradis, além de detectar quais os traços da cultura
sefaradi foram assimilados pelos judeus que os acolheram e, se possível,
construir um modelo da fusão cultural, resultante do encontro de judeus
exilados e locais. As dificuldades das pesquisas adicionais fizeram com que
estes questionamentos ficassem em aberto.
Outro estímulo adicional à pesquisa resultou de um encontro, em minha
residência, com amigos de infância da comunidade da Mooca. Betty Nigri
Efraim, Gabriel Zitune, Teresa Nigri e eu sentimos necessidade de resgatar
as histórias de nossas famílias, na luta pela sobrevivência, suas vivências,
dificuldades de adaptação, alegrias, tristezas e desalentos. Ao recordar a
infância na Mooca, bairro da zona leste de São Paulo, notamos que nossas
histórias complementavam-se.
Transcrevendo alguns relatos, pude perceber a complexidade cultural desses
imigrantes, naturais de milenar civilização do Oriente Médio.
Em 1995, ao iniciar a pesquisa, o foco direcionado à pequena comunidade da
Mooca ampliou-se. Observei que não havia possibilidade de compreendê-la se
não inserisse os sefaradis da Abolição. Depois, os estreitos contatos
intercomunitários conduziram a pesquisa ao Rio de Janeiro, culminando com o
estabelecimento de imigrantes judeus em São Paulo, refugiados das guerras
do Oriente Médio, a partir de 1948. Envolvendo vários grupos de imigrantes
em locais e momentos diferentes, acredito que posicionamos os judeus do
Oriente Médio nos estudos sobre a imigração judaica brasileira.
A identidade cultural, as relações de parentesco e de amizade com os
primeiros imigrantes do Oriente Médio permitiram a quebra das barreiras de
resgate das lembranças dos depoentes idosos. Não habituados ao registro de
memória, as fontes disponíveis para a (re)construção da história das
primeiras comunidades vieram do estudo das poucas atas e dos estatutos das
sinagogas, sociedades beneficentes, relatórios, discursos e um jornal do Grêmio
Sinai. Embora se constituam provas evidentes do fato histórico, estes
documentos foram, em si, insuficientes para recompor a história das
comunidades em processo de vida e reformulação de valores. Em decorrência
da limitação das fontes documentais, busquei a técnica da história oral.
Esta metodologia, adotada por cientistas sociais para a construção da memória
de pequenas comunidades, foi adequada e pertinente à minha proposta.
Apreender a "História do Presente" não é tarefa fácil,
esbarrar no subjetivismo é comum, especialmente, porque adotamos
metodologia não convencional rejeitada por acadêmicos conservadores. Com
auxílio de recursos técnicos como o gravador/vídeo,
"documentos" foram produzidos e registrados.
A família foi eleita como núcleo de interesse; assim, foram entrevistados
imigrantes idosos, seus filhos, representantes de outros segmentos sociais,
como líderes comunitários, rabinos e profissionais da comunidade, cujas
narrativas ajudaram a reconstituir o cotidiano dos imigrantes. Demos atenção
às tradições, religião, costumes, comportamentos e atitudes diante da
vida e da morte. Os registros demonstraram representações de um universo
complexo, delineado por conflitos e utopias, avanços e recuos.
A maioria dos entrevistados apresentava como "trajetórias de
vida" momentos de grandes mudanças; às vezes, polêmicos. O
cruzamento das histórias pessoais contribuiu para a construção dos ciclos
de vida e de morte, das sociedades comerciais, dos negócios, das tensões
familiares, das facilidades e dificuldades características do processo de
acomodação, adaptação e conflitos de um imigrante recém-chegado a um
mundo estranho a seus costumes.
Ao relembrar o passado, os entrevistados lidaram com muitos de seus
problemas pessoais, explicações para o difícil contato com imigrantes de
outras origens, até mesmo, para justificar os interesses implícitos nas
alianças familiares de casamentos e negócios. Na realidade, as lembranças
de suas reais necessidades e dificuldades incomodavam como expressão de
fracasso e incapacidade para "recomeçar". Estas informações,
ausentes dos documentos escritos, puderam ser reconstituídas pelas novas
entrevistas, algumas marcadas por silêncios e desalentos que me
sensibilizaram, tornando-me cúmplice de revelações contidas, agora livres
de censuras, que só o tempo torna possível. O emprego da técnica de história
oral permite a apreensão da realidade que nenhum outro documento consegue
revelar. As informações registradas foram "legitimadas" pela
freqüência das mesmas, pela avaliação comparativa das distintas versões
e por alguns documentos de arquivos pessoais e comunitários. A
"realidade histórica" emergiu de forma completa como somatória
de diversas fontes. A multiplicidade dos relatos, o tempo limitado e o
desinteresse de alguns criaram empecilho para o envolvimento de mais famílias,
o que foi somente compensado pelas informações já obtidas e imagens
fotográficas, belas e antigas, colocadas à disposição da pesquisadora.
No Rio de Janeiro, a leitura dos documentos diplomáticos do Arquivo do
Itamaraty permitiu conhecer a política imigratória adotada pelo governo
brasileiro com relação aos primeiros imigrantes vindos do Oriente Médio.
As contendas nacionalistas desse período fizeram com que o governo se
mostrasse inseguro; assim, nomeavam com diplomacia, representantes no
exterior ou designavam escritórios de representação diplomática no
Oriente Médio com o objetivo de regularizar e controlar a imigração que,
a partir dos anos 1920, intensificou-se. A documentação trocada entre os
representantes, como a concessão de vistos de judeus para o Brasil é de
grande valia e permitiu compreender os critérios de seleção adotados por
diplomatas, induzidos por uma mentalidade anti-semita, por tradição. No
Museu da Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo, foram localizadas informações
adicionais e complementares ao processo imigratório. Pela lista nominal dos
grupos, pela identificação das embarcações e pelas datas de chegada ao
porto de Santos foi possível recompor as listas dos imigrantes judeus do
Oriente Médio e provenientes dos portos intermediários no Mediterrâneo.
Com o objetivo de reconstituir as relações familiares das comunidades em
questão, utilizei-me de estudos genealógicos, graficamente visualizados e
do acervo fotográfico colocado à disposição pelas famílias. Documentos,
mapas, tabelas e gráficos estatísticos foram usados para explicação mais
abrangente. Muito embora, no texto encontrem-se elucidações sobre a
terminologia em hebraico, no final, há um glossário onde conceitos gerais
e, cerimônias judaicas são descritas com maior detalhe.