O dia 14 de maio de 1948, pelo calendário gregoriano, os judeus voltavam a ter, na antiga Palestina, um governo próprio e um lar nacional após quase 2 mil anos de dispersão pelo mundo.

Hoje, meio século depois, o Estado dedica este caderno à comemorações iniciada dia 29 de abril (pelo calendário hebraico), com reportagens e artigos especiais sobre os diversos aspectos e implicações da existência, no Oriente Médio, de um país que em poucas décadas se tornou um dos primeiros do mundo em tecnologia, pesquisa, educação e nível de vida.

Entre os colaboradores desta edição estão o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, o historiador britânico Paul Johnson, o empresário e escritor José Mindlin, e o economista Michael Michaely.

O correspondente Issa Goraieb, de Beirute, comenta o tema do ponto de vista árabe, enquanto Gilles Lapouge, de Paris, analisa o sentimento de culpa da Europa em relação aos judeus.

 

Israel: 50 anos de um milagre
PAUL JOHNSON
 
No último meio século, surgiram mais de cem novos Estados independentes. Israel é o único de cuja criação pode dizer-se simplesmente que foi um milagre. Acompanhei o drama de 1948-49 na segurança de uma antiga faculdade de Oxford, às vésperas da formatura.
Na época, a opinião dos acadêmicos era, em termos, favorável ao novo Sião: muitos dignitários haviam sido criados segundo a tradição filossemita de Daniel Deronda, romance lançado por George Eliot em 1876 sobre um jovem que descobre sua identidade de judeu e se dedica à causa sionista; e eles aceitaram Israel como uma obra intelectual e moral.
Mas também havia a opinião virtualmente unânime de que o Estado podia ser esmagado. Esta era decididamente a opinião da maioria dos governos e do pessoal militar; a noção de um judeu transformado em soldado ainda não conquistara o imaginário ocidental.
Em 1948, a força de defesa israelense, a Haganá, tinha 21 mil homens, ante um exército profissional árabe invasor de 10 mil egípcios, 4.500 na Legião Árabe da Jordânia, 7 mil sírios, 3 mil iraquianos e 3 mil libaneses - mais o "Exército Árabe de Libertação" dos palestinos.
Em matéria de equipamento, inclusive veículos blindados e força aérea, as desvantagens de Israel eram igualmente enormes. Historiadores revisionistas (inclusive israelenses) agora descrevem a Guerra da Independência como uma deliberada conquista sionista de terras. Eles ignoram o fato básico de que os líderes sionistas não queriam guerra, antes a temiam, julgando-a um risco a ser assumido apenas quando não houvesse alternativa.
Eis por que em 1947 os líderes sionistas haviam aceitado o plano das Nações Unidas (ONU) sobre a partilha, que teria concedido ao Estado nascente apenas 8.800 quilômetros quadrados, principalmente no Deserto de Negev, e teria criado uma entidade inviável de 538 mil judeus e 397 mil árabes. A rejeição do plano, pelos árabes, foi um gesto de suprema tolice.
Claro que os judeus combateram bravamente e realizaram prodígios de improvisação. Tinham de fazê-lo - a alternativa seria o extermínio. Também combateram selvagemente, sem dúvida, de vez em quando, e cometeram atos que poderiam emprestar certa veracidade ao argumento dos revisionistas.
Mas, como um todo, esse argumento é historicamente falso. Foram os líderes árabes, com sua obstinação e recurso à força, os responsáveis pelo Israel um tanto mais expandido que surgiu após o armistício; e a mesma obstinação viria a criar o Israel ainda mais expandido que surgiu após a Guerra dos Seis Dias, de 1967.
Noutro paradoxo da História, as fronteiras do Estado, hoje existentes, foram obra tanto dos árabes quanto dos judeus.
Outro aspecto paradoxal do milagre sionista é que entre os pais da pátria de Israel figurou Joseph Stalin. Este não gostava de judeus; ao contrário, matou-os sempre que isto atendia aos seus objetivos. Além do mais, Stalin, na condição de imperialista da Grande Rússia e marxista, se opôs ao sionismo até sua morte em 1953. Mas, durante os anos cruciais de 1947-48, ele foi norteado pelo que considerava ameaça do imperialismo britânico.
 
Destino israelense é a construção de um país de vanguarda

PAUL JOHNSON

Em sua ignorância, Stálin supôs que para solapar a posição britânica no Oriente Médio era preciso apoiar os judeus, não os árabes, e ele apoiou o sionismo para romper o "firme controle exercido pelos britânicos". Ele não só deu reconhecimento diplomático a Israel como também, para intensificar os combates e o caos subseqüente, instruiu o governo checo para que lhe vendesse armas. Depois, em meados de agosto de 1948, Stalin concluiu que cometera um erro enorme. Mas a essa altura a guerra já estava ganha.
O Estado incipiente também teve sorte em relação aos Estados Unidos. O presidente Harry Truman era pró-sionismo e precisava dos votos dos eleitores judeus na eleição de 1948. Foi sua a decisão de conseguir a aprovação do plano de partilha na ONU em 1947 e de reconhecer o novo Estado israelense (de facto, não de jure) quando de sua declaração, em maio de 1948. Mas a pressão contrária que ele teve de enfrentar, de seus secretários de Estado e da Defesa, foi enorme. Se a crise tivesse ocorrido daí a um ano, depois que a guerra fria começou a dominar o pensamento do Ocidente, excluindo quase tudo mais, é provável que as forças anti-sionistas se revelassem resistentes demais para Truman. No pé em que estavam as coisas, o apoio dos EUA a Israel em 1947-48 foi o último gesto de luxo idealista que os americanos se permitiram antes que sobreviessem as verdades do confronto global.
Portanto, em termos de política soviética e americana, Israel passou a existir quando atravessou uma janela que se abriu por um breve momento e também de súbito se fechou. Mais uma vez, o momento certo, ou, se alguém preferir, a providência, foi decisiva.
Se foi necessário meio século para transformar a idéia do sionismo em realidade, a realidade em si tem agora meio século. Ao longo dos últimos 50 anos, surgiram diferentes opiniões sobre Sião. Uma imagem foi a de Sião como renascimento refulgente, uma nova Cidade de Davi. Houve primeiro a visão do judeu piedoso para quem Sião era um evento religioso e a criação de um lar nacional materialista, quanto mais de um Estado secular soberano, era no mínimo irrelevante. Tais judeus voltaram para a Palestina, e para Israel, a fim de rezar e cumprir as leis religiosas e incentivar (e, quando possível, compelir) outros a também fazê-lo.
Depois houve a visão dos verdadeiros pioneiros que foram redimir e trabalhar a terra e fazer com que as áreas desérticas florescessem, como agricultores independentes ou, mais freqüentemente, como membros de um kibutz ou de uma cooperativa. Eles eram colonizadores, mas também, em sua maior parte, democratas, igualitários e socialistas.
Os judeus asquenazitas, procedentes principalmente do Leste Europeu, foram colonizadores contra a própria vontade. Pegavam terras que nunca tinham sido cultivadas antes ou eram mal cultivadas.
O Estado, pequeno mas complexo, cuja fundação David Ben Gurion proclamara no dia 14 de maio de 1948, tinha um sistema original de taxação e um número medonho de regulamentos. Ninguém ficou rico, legalmente pelo menos. Os empresários situavam-se nos baixos escalões da sociedade.
Ben Gurion teria sido socialista? Ele era sem dúvida um idealista à sua moda. Mas foi também um mestre da realpolitik e um improvisador de gênio. Mas certamente se julgava socialista. Seu Israel era socialista? Historiadores revisionistas desmentem pesarosamente a afirmação, descrevendo o país como uma empreitada pseudo-socialista na qual as exigências predominantes do nacionalismo tinham precedência sobre os valores humanitários.
Israel parecia de certa forma diferente. Visitar o país era receber não um bafejo, mas um largo hausto de socialismo concretizado em seu melhor estilo - e do modo mais exaustivo. Qualquer que fosse a forma política do jovem Estado, uma coisa ele não era nem podia ser: um exemplo para seus vizinhos mais próximos. A guerra de 1948-49 terminou não em paz, mas num armistício, ao qual se seguiram décadas numa corrida armamentista desesperada, boicote econômico dos árabes, terríveis atos de violência e a guerra total.
Não quer dizer que o antigo sonho da reconciliação tivesse tombado à margem do caminho. Algumas figuras públicas israelenses até gostavam de argumentar que o ódio dos árabes a Israel era um caso de identidade falha: os árabes viam erroneamente o Estado judeu como potência colonizadora, um ponto de apoio do imperialismo ocidental ou uma versão moderna do reino medieval dos cruzados. Para corrigir essa imagem inadequada, Israel precisaria "naturalizar-se", tornando-se um autêntico Estado do Oriente Médio.
A coalizão do Partido Trabalhista, no governo, flertou durante muitos anos com uma política baseada nessa idéia. Mas a concepção era impraticável. Em primeiro lugar, Israel não podia dispensar suas viscerais relações militares e financeiras com os EUA, a fons et origo (fonte e origem) do "imperialismo ocidental". Em segundo lugar, Israel não era nem conseguiria tornar-se um Estado do Oriente Médio como os outros Estados do Oriente Médio, nem seu povo poderia pretender ser árabe e judeu.
A ironia nesse ponto é que havia de fato muitos judeus do Oriente Médio em Israel (erroneamente chamados sefarditas). Tendo sofrido nas mãos de árabes, eles não alimentavam a sonhadora boa vontade de alguns fundadores asquenazitas e de seus sucessores. Ao contrário, os sefarditas consideravam os interesses árabes e israelenses claramente distintos e incompatíveis.
Com o passar do tempo, esses judeus do Oriente Médio tiveram papel fundamental na política israelense, contribuindo decisivamente para derrubar o governo trabalhista e encerrar a primeira fase da existência de Israel: a fase dos ideais e ilusões socialistas, das grandes esperanças adiadas e das sublimes visões não concretizadas.
Já a partir de 1977 começou a segunda fase - a fase do realismo resignado - que continua, duas décadas depois.
Após muitos anos de obstinação como líder da oposição parlamentar, Menachem Beguin chegou ao poder em 1977, chefiando a coalizão Likud. Begin não foi, na história israelense, tão importante quanto Ben Gurion, mas conseguiu um segundo lugar bem perto dele, e os dois homens de aço tinham muito em comum. Ambos eram obstinados, tinham opiniões próprias, e, até onde pude perceber, eram totalmente destemidos. Mas Beguin, que passara os anos iniciais da 2ª Guerra Mundial no Leste Europeu, era também amargo, de um jeito alheio a Ben Gurion. Tinha um bom motivo: a maior parte de sua família fora morta no Holocausto.
Antes de finalmente chegar a primeiro-ministro, Beguin havia perdido, segundo calculo, mais eleições gerais do que qualquer outro líder partidário em toda a história dos regimes democráticos. Portanto aprendera naturalmente a ter paciência. Mas, no poder, sabia agir resolutamente. Dois dos mais salutares episódios da história israelense são puro mérito seu: a paz com o Egito e a destruição do reator nuclear iraquiano em Osirak.
A paz com o Egito fez toda diferença para a segurança de Israel. Receei muitas vezes pelo país nos anos 50 e 60 e mesmo após sua vitória na Guerra do Yom Kippur, em 1973. Mas, quando o presidente egípcio Anuar Sadat, homem sério e perspicaz, assinou os acordos de Camp David, respirei aliviado. Conforme pensei, Israel estava seguro até onde era possível enxergar no futuro. Graças à política realista de Israel, às vezes ultra-realista e necessária, tornara-se possível um processo de conciliação com seus vizinhos. Esse processo vem avançando desde os tempos de Beguin.
O colapso do comunismo soviético foi quase tão auspicioso quanto a paz com o Egito. A volta da Rússia às fileiras das grandes potências convencionais retirou a última esperança séria dos extremistas árabes de que, se esperassem e combatessem por um tempo suficiente, conseguiriam a solução apocalíptica que desejavam para o "problema" de Israel. A Rússia continuará sendo sem dúvida importante elemento no Oriente Médio e às vezes vai causar transtornos ali - principalmente à medida que o país formular políticas menos confusas que as atuais.
Na verdade, alguns inimigos de Israel continuam intratáveis, ao passo que outros esperam para ver o que o tempo e a oportunidade lhes reservam. Haverá muitas etapas angustiantes a negociar para que o país possa respirar aliviado. Eis por que, na minha opinião, é especialmente auspicioso o fato de Binyamin Netanyahu ser hoje primeiro-ministro. A exemplo de Ben Gurion e Beguin, seus grandes antecessores, ele é figura que motiva críticas ferozes e até ódio. Embora ideologicamente parecido com Begin em seu misto de insensibilidade abrandada pelo idealismo, ele na verdade lembra mais Ben Gurion. Sua abordagem geopolítica também se assemelha à de Ben Gurion, embora, tendo sido diplomata, ele também saiba ser maleável, ao passo que Ben Gurion era muito mais duro.
Netanyahu difere de Ben Gurion porque está decidido a reordenar a estrutura coletivista que ficou da fase inicial do Estado. Eis algo muito bom: Para Israel já está na hora - já passou da hora - de adotar a thatcherização e a privatização. Mas, por causa de sua economia renitente e sob certos aspectos esclerosada, a tarefa é enorme.
Esse é, de qualquer forma, o caminho a seguir. A economia global requer pessoas instruídas e motivadas e, sob este aspecto, Israel leva evidente vantagem. A maior tarefa, para cuja execução Netanyahu está bem preparado, é criar uma sociedade na qual - em condições de paz - os hábeis filhos de Israel queiram permanecer e onde possam confiar que prosperarão.
Israel é uma nação de elite; na minha opinião, é isso o que ele deve ser, sem pejo, incentivando e preparando seu povo para ficar na vanguarda da atividade mundial na agricultura e indústria, na tecnologia, nas artes, no ensino e na administração, na conquista e preservação da natureza. Israel precisa ter seu lugar no concerto das nações (só para tomar de empréstimo o título de um livro de seu primeiro-ministro). Mas não é uma nação como as outras nações. Querendo ou não, ele é e continuará sendo sui generis, com seu povo moldado pelos terríveis acontecimentos de nosso século e marcado pelo destino.
Paul Johnson é autor de A History of the Jews (HarperCollins, em brochura, 1988) e, mais recentemente, de A History of the American People (HarperCollins, (PE)1998).

 

Esperança e temor dividem a população

MOACIR AMÂNCIO

 

JERUSALÉM - "Estamos um pouco mais velhos." É a única frase, acompanhada de um sorriso quase imperceptível para suavizar a gravidade do tema, que Benjamin Roisman, Jimico, veterano de Bror Hail, o "kibutz brasileiro", profere ao comentar o cinqüentenário do Estado de Israel. Para um povo que sofre do excesso de história, meio século é mesmo muito pouco. Enfim, pelo calendário judaico estamos em 5758 da criação do universo.
Nesses 50 anos, porém, ocorreu o fato que supera os quase 2 mil anos posteriores à destruição do Segundo Templo, com o início da dispersão judaica e o desajuste das dezenas de comunidades nos mundos cristão e muçulmano. Houve, claro, momentos de glória, como a criação do Talmude Babilônico, série de tratados jurídicos, religiosos e filosóficos que definem, ainda na Antiguidade, um modo específico de ser judeu. Houve também o esplendor cultural tanto religioso quanto laico na Península Ibérica medieval. Mas os séculos da Inquisição, os pogroms e o genocídio perpetrado pelos nazistas dão o tom à questão judaica do desenraizamento. A resposta possível está nesse período durante o qual surgiu um país moderno, com vocação de Primeiro Mundo, mas fatalmente encravado no Terceiro.
O Produto Nacional Bruto (PNB) per capita chega a US$ 18 mil anuais. Os gastos com a defesa são brutais (cerca de 8% do PIB de US$ 100 bilhões em 1997) e há o esforço para a absorção de novos imigrantes, que chegam em grandes ondas intermitentes a Israel: nos anos 50 foram os iemenitas e os marroquinos e ultimamente são os etíopes e os russos (estes, perto de 800 mil em sete anos).
Apesar de encravado no Oriente Médio, entre o Líbano, a Síria, a Jordânia e o Egito, Israel participa ativamente do mundo globalizado: no interior, um garoto ganhou notoriedade ao quebrar os sistemas de segurança dos computadores do Pentágono e nas ruas discute-se a liberação de moeda estrangeira para a população, que assim poderá preparar-se para a chegada do Euro, a moeda única européia.
Entre outras peculiaridades israelenses está o índice de desemprego de 8% (em janeiro) ao lado de 250 mil trabalhadores estrangeiros (latino-americanos, romenos, filipinos, africanos), que substituíram os árabes da Cisjordânia (medidas de segurança) no trabalho braçal e constituem uma nova questão social do país. O ministro das Finanças, Iacov Neeman, tem um plano que inclui a redução do número de estrangeiros e investimento em infra-estrutura. Em março, houve salto de 6,5% no desemprego, atingindo 163,4 mil pessoas. Ao mesmo tempo, um tailandês é acusado de violentar e estuprar uma moça. Mais um tema de debate para os israelenses.
Israel talvez seja o país que mais discute seus problemas no mundo. Na televisão, no rádio, na universidade, na rua: cada um tem sua opinião e não sente o menor receio nem inibição em defendê-la, num reflexo saudável da tradição dialética do Talmude. Essa pujança também se manifesta na prática. Saídas são procuradas obsessivamente.
O jeito de morar do israelense está mudando, por exemplo, com as vistosas construções de um bairro como Mevasseret, nas cercanias de Jerusalém, uma bonita idéia para a urbanização das colinas: casas mais amplas, muito diferentes dos pequenos apartamentos populares, construídas na forma de degraus, mimetizando as terraças naturais, de pedra, abundantes na região. Ao mesmo tempo, cientistas e técnicos anunciam ter conseguido produzir melancia e pimentão sem sementes, além do mais divertido, que pode ser visto como uma metáfora para o futuro: o figo-da-índia sem aqueles incômodos espinhos na casca. Em hebraico essa fruta sechama sabra, denominação dada aos judeus nascidos em Israel, porque, no projeto sionista, eles seriam ásperos por fora e doces por dentro.
Gente preparada para a autodefesa, contrapondo-se ao homem "fraco"da Diáspora européia devastada pelos genocidas. Mas, enquanto não houver espaço para o afloramento dessa doçura interna, os israelenses continuarão a viver a dicotomia desses 50 anos, divididos entre a criatividade social, científica, literária e artística e o conflito com os árabes, que assume novas feições, depois da Guerra do Golfo.
A invenção arquitetônica e a expansão urbana adquirem um sentido sombrio quando se observa que já não é dada tanta atenção à construção de bunkers por causa da ameaça das armas químicas. O antigo refúgio para o caso de ataques aéreos talvez seja até aposentado, dando lugar a novos projetos nos quais as casas ganham portas capazes de vedar a entrada de gases venenosos - uma preocupação constante fortalecida pelas denúncias de arsenais químicos no Iraque.
Israel, que aprendeu a dividir seus períodos históricos pelas guerras, vive um tempo estranho, posterior ao assassinato de Rabin e a uma guerra que não houve. Cena característica durante o suspense estabelecido pela pressão norte-americana para a inspeção de locais suspeitos de estocar armas químicas no Iraque e a resistência do ditador Saddam Hussein: turistas podiam comprar, por cerca de US$ 70, máscaras de gás numa loja de Tel Aviv. Israelenses se ressentiram porque os visitantes não precisavam enfrentar fila para obter sua máscara.
Pois bem, dessa vez não houve a segunda Guerra do Golfo, mas o horizonte continua nublado, porque até agora Israel não conseguiu realizar a paz com os árabes. Ido Recanati é um rapaz de 24 anos. Ele estuda estilismo em Tel-Aviv. Na sexta-feira, viaja para Jerusalém, onde vivem os pais. Em vez do ônibus, escolhe o serviço de lotação entre as duas cidades. Prefere ser cauteloso e, assim, evitar um atentado como outros que já ocorreram nas linhas regulares de Israel. No interior da perua ele observa, com ironia, a existência de oito árabes que também utilizam o serviço de lotação para evitar constrangimentos, como revistas repentinas na rodoviária. Na perua, apertados nos bancos, viajam árabes e judeus tentando proteger-se, cada qual com seus motivos. Um fugindo do outro para o mesmo local. Quando os árabes descem, uma mulher de Gana, trabalhadora estrangeira, chama aquele que esquecera a pasta embaixo do banco e pergunta irritada, em inglês: "Ei, isso não é seu?" Ela não teve tempo de aprender hebraico, mas já entendeu muito bem o que significa o aviso constante em placas pedindo atenção para objetos suspeitos.
Recanati acha que o clima não é adequado para festejar os 50 anos, porque não há "felicidade". A propósito, conta que a namorada, colega de estudo, fez um projeto carregado de originalidade local e muito humor negro. Trata-se de um vestido para mulher gorda, inspirado na explosão do ônibus número 5, em 94. O vestido, todo preto, tem furos para permitir que a gordura da hipotética modelo apareça em bolhas e assim, no contraste, sugira o horror. Ele viveu quatro anos na Itália e pensou em trabalhar como segurança no Brasil - "o dinheiro é bom." De qualquer forma, o Brasil não saiu de seus planos. Talvez faça um estágio como designer em São Paulo ou no Rio.
Deixar o país pelo menos por certo tempo é uma necessidade para os jovens israelenses. Antes, depois do Exército, como exercício de conhecimento do mundo e rompimento das barreiras que cercam o país, entre o mundo árabe inimigo ou apenas meio inimigo e o Pacífico. Sair definitivamente é um ato carregado de negatividade. A palavra hebraica para imigração é aliá, que significa tanto ida como subida. Pela lógica, portanto, quem abandona Israel faz a ieridá, a descida, baixa na escala moral sionista. O contraste torna-se mais forte num momento em que Canaã é buscada pela gente do Terceiro Mundo como tábua de salvação econômica. Mercedes Ramirez, filipina de 38 anos, deixou o marido e dois filhos para defender os seus shekels. Veio com uma família israelense, toma conta da casa e trabalha como faxineira "para fora" ganhando 20 shekels por hora (US$ 1 - 3,5 shekels). Ela pretende retornar ao seu país em dois anos. O marido de uma colombiana foi preso e deportado por não ter licença de trabalho. A mulher ficou com a filha, pequena.
Esses detalhes e problemas, no entanto, provam para Meir Cohen, vice-diretor de Projetos no Centro de Cooperação Internacional do Ministério do Exterior, nascido em Jerusalém, que ele tem um país. "Os problemas são normais, equivalentes a problemas comuns em outras partes do mundo. "Ninguém gosta do conflito com os árabes", observa, "mas é o que há, não tenho outro país, qual a alternativa?" Dois dias antes seu filho de 18 anos fora para o Exército. "Como eu já fui." Para Cohen, de 51 anos, o importante é que ninguém poderá dizer que esta terra não é dele. Termina com uma expressão corriqueira em Israel: "Ma laassot?" Fazer o quê? David Blorian, de 55 anos, merceeiro no bairro Moshavá Guermanit, também evoca a tese de que Israel é o lar natural dos judeus. Nascido no Irã, perto da Turquia e do Iraque, Blorian declara-se iraniano e só confessou ser curdo depois de ouvir elogios à cultura dessa comunidade, vítima de preconceito. Quando criança, falava aramaico (os judeus curdos são uma das poucas comunidades no mundo que ainda usam esse idioma, antiga língua franca do atual Oriente Médio). Ele evoca o perigo xiita para justificar sua saída do Irã e a permanência em Israel. E lembra uma história da terra das mil e uma noites. Segundo Blorian, o xá Reza Pahlevi era realmente amigo dos judeus e, durante a derrocada, batia na porta da casa de cada um deles perguntando: "Quanto você tem?" Depois, acrescentava alguma quantia sobre aquele dinheiro seguida pelo conselho de que a família deveria deixar o país. "Ele sabia, o perigo xiita prossegue aqui." Muitas histórias pessoais em Israel representam em micro o épico da construção do Estado.
Guideon Ambaiê veio da Etiópia na Operação Moisés e estuda medicina chinesa. É casado com uma asquenazita e tem uma filha. Reclama do "preconceito de certos rabinos" que não vêem os etíopes como judeus plenos. "É preciso acabar com isso e unir o povo, depois de tanto sofrimento, é preciso construir em conjunto", afirma, rememorando antigas palavras de ordem israelenses. Lembra também que o termo "falasha" usado na Etiópia para designar os judeus é pejorativo, significa "povo sem raiz". Admite, apesar disso, sentir alguma saudade da juventude no país de origem, onde a língua também é semítica -- há palavras que são idênticas às usadas em hebraico, como tsadik, justo -, mas não tem dúvida quanto ao seu futuro israelense. "Aqui é o lar judaico." Só tem dúvida quanto ao atual rumo da política.
Essa também é a dúvida de Ruth Siboni, dona de um café e sorveteria no centro de Jerusalém, cidade onde as tensões israelenses se manifestam com mais intensidade - cerca de 130 mil árabes vivem na Cidade Velha e perto de 500 mil, maioria judia, fora e na parte ocidental da área. Para ela, o governo não está levando o país para a paz. "E, se a direção não é a paz, o que resta é a guerra", afirma essa moça que passou um tempo na Itália, onde aprendeu o ofício, enquanto reclama da ineficiência dos serviços da prefeitura, que cobra impostos absurdos e não consegue manter o pavimento da rua em ordem. Também critica a pressão religiosa - outra coisa particularmente intensa em Jerusalém, onde o comércio fecha e o transporte público não funciona aos sábados, ao contrário de Tel -Aviv e Haifa. Para ela, não há democracia em Israel. "Democracia só haverá com a separação efetiva de Estado e religião." Mas depois responde, com olhar desafiador, enquanto prepara café capuccino para o jovem, alegre casal de religiosos numa das mesas: "Sabe por que estou aqui? Porque sou judia e israelense." Blorian, Ambaiê e Siboni sinalizam para questões fundamentais, que persistem com necessárias implicações políticas: e atrito no convívio das diferentes comunidades, originárias de 80 países, com tipos e culturas diferentes e o empurra-empurra entre "religiosos" e laicos. São as questões internas de Israel, geralmente disfarçadas ou deixadas de lado por causa da urgência árabe.
Existem aqui expressões óbvias sobre a comunidade de David Blorian: "cabeça de curdo" e "trabalho curdo". Há pessoas que não querem etíopes na vizinhança, temendo doenças e a pele negra. Judeus de origem sefardita (hispano-portuguesa) e orientais, identificados todos como sefarditas porque muitos desles vieram após um estágio secular em países do Levante. Eles ainda se queixam de discriminação por parte dos asquenazitas, ou de origem "alemã", que falavam o íidiche, idioma de base germânica.
Só um terço da população é religiosa na concepção corrente em Israel, mas Ido Recanati e outros jovens precisam dar um jeito para freqüentar uma discoteca nas noites de sexta-feira, porque os ultra-religiosos são contra isso, baseados nos textos judaicos. Rapazes e moças podem dormir naturalmente juntos na casa dos pais, mas têm de procurar discotecas isoladas nos bairros operários para outra diversão, enquanto os demais viajam ou procuram um cinema quase secreto ou vão a alguma localidade árabe comprar cigarros.
Há pouco, passou no Parlamento uma lei proibindo a importação de carne suína. Casamentos oficiais, só religiosos, em qualquer religião. Um judeu da casta sacerdotal (cohen) não pode casar-se com uma divorciada ou viúva, pela lei judaica. A solução é procurar um advogado e fazer um contrato, ir para Chipre ou usar os serviços da embaixada paraguaia. Acontece que os "religiosos", os "haredim (tementes), os ortodoxos (há diversas ortodoxias, às vezes extremamente rivais) sabem usar o sistema. O partido Shas (o nome é uma sigla para os Seis Tratados do Talmude, mensagem um tanto clara), representante dos ortodoxos sefárdico-orientais, tem dez cadeiras no Parlamento, o que lhe dá amplo poder de manobra e negociação, num plenário dividido, sem contar o ministro da Justiça, pertencente às suas fileiras: Tzachi Hanegbi. E mais, o partido pretende apressar a obtenção de títulos universitários para seus membros que assim poderão conseguir cargos mais elevados no funcionalismo, ampliando a presença na máquina estatal. Há quem veja em um de seus líderes, o habilíssimo político e rabino Arieh Dery, um provável candidato a primeiro-ministro no futuro.
Até onde isso pode levar, ninguém sabe. O escritor Yoram Kaniuk, que já comparou o país a um misto de piquenique e loucura, escreveu um artigo propondo a volta da antiga separação entre Israel e Judá. Israel seria de Tel-Aviv para cima, Judá, Jerusalém e arredores. Com isso, teríamos dois universos diferentes, judeus laicos em Israel e religiosos em Judá. Evidente, trata-se de um artigo humorístico, porém esclarecedor. A sugestão de Kaniuk revela a contradição estrutural do Estado.
Ella Belfer, da Universidade Bar Ilan, observa que na fase de criação do Estado Judeu, a maioria era laica, porém o caráter judaico de Israel seria dado pela religião, pontuada pelas grandes festas, como o Pessah (Páscoa), Rosh-Hashaná (Ano Novo) e Yom Kippur (Dia do Perdão), alinhavadas pelo descanso sabático. Isso com base no fato de que os religiosos eram minoria, e uma minoria dividida em três: religiosos, religiosos sionistas, poucos, e os tradicionalistas das comunidades orientais que jamais tinham sido laicos profissionais, mas também jamais tinham sido fundamentalistas. Para eles não havia problema em ir à sinagoga pela manhã, aos sábados, e depois jogar futebol.
"O ctuv (texto bíblico, literalidade) é fenômeno asquenazita", assinala. E havia ainda os haredim, anti-sionistas, mas que, como vemos, participam ativamente e disputam lugares na sociedade civil de Israel, apesar da sua negação teológica do Estado Judeu, por contrariar profecias sobre a vinda do Messias. Isso, além de um pequeno grupo que sonhava com a criação de um Estado liberal, ocidental, laico. Enquanto a maioria pensava num Estado democrático e judaico. "O que aconteceu? Os dois extremos ganharam: o sonho laico de se criar um Estado como os demais teve sucesso (imprensa livre, parlamento, etc.) Mas o segundo lado também teve êxito. Os religiosos se multiplicaram, a cultura deles é muito bem-sucedida. Os dois extremos tiveram êxito, tanto os laicos extremistas como os religiosos extremistas. Existe uma área de erosão entre eles. A síntese, o judaísmo democrático, precisa explicar o que é. Ben Gurion pensava que o judaísmo haredi tinha passado, ele errou. O rabino Kuk (líder religioso do início do século) pensava que o laicismo desapareceria, também errou. É muito difícil, mas fascinante. Um francês não se pergunta todo dia o que ele é, como fazemos, pois ainda não resolvemos a questão, ainda não completamos a revolução sionista." A questão das conversões passa por tudo isso. Os ortodoxos lutam para manter conservadores e reformistas (ambos menos ou mais liberais) fora do sistema, embora eles representem a maior parte dos judeus fora daqui.
Essa é uma das discussões mais fortes no país, porque exige uma resposta pora esta pergunta: como viver? O ator, cantor, humorista e escritor Iossi Banai, espécie de unanimidade nacional, detentor da mais prestigiosa homenagem cultural do país, o Prêmio Israel, recorda a infância na área do mercado de Mahanê Iehudá, em Jerusalém, para justificar sua indignação com a situação atual. Descendente de judeus iranianos, de Shiraz, pessoas "espontaneamente" religiosas, mas sem nenhum fanatismo. Hoje, reside em Tel-Aviv e não reconhece a atmosfera da cidade natal. Para ele, a fé e a religiosidade são importantes e belas, mas critica a fusão de política com todo tipo de "interesses" e religião. E traz de volta a questão das comunidades ao lembrar que o Shas surgiu à parte de outra agremiação política religiosa, o Agudat Israel, asquenazita.
O ponto implicaria negação do propósito sionista original, que era criar uma sociedade homogênea, tendo o "novo judeu" por meta. A tentativa de homogeneizar os "novos imigrantes" do momento provou ser um equívoco, a diversidade tornou-se índice de pluralismo cultural. Existe um prato em Israel, de acordo com a lenda criado para atender jornalistas do Jerusalém Post que deixavam o trabalho no fim da noite. Reza a lenda que alguém teve a idéia de servir refeições rápidas, feitas na chapa: miúdos e fiapos de carne de galinha, etc., tempero à base de cominho, acompanhando pimenta, etc. Ao comer, é possível sentir o gosto de cada ingrediente sob o domínio harmonizador do cominho, de aroma imponente. É o "Meorav Ierushalmi", "Misto de Jerusalém", possível ponto de partida para quem quiser conhecer a sociedade israelense. Ou de chegada.
Pois a culinária é indicador seguro da variedade social em Israel, uma paleta de tons fortes e nuances entre o ouro dos assados marroquinos, as gradações do verde das azeitonas, que também são pretas como os olhos da cantora Ofra Haza, ao vermelho dos molhos e temperos surpreendentes.
Do famoso "Meorav", passa-se ao popular kebab, espécie de hambúrguer levantino com diversos tipos de acompanhamento, ao húmus, ao falafel, às azeitonas temperadas de várias maneiras, ao ossobuco, ao espaguete com pesto, à pizza, ao churrasco à moda argentina, ao filé com fritas estilo americano e, graças à onda dos trabalhadores estrangeiros, pode-se comer alguma coisa da Tailândia. Sem falar na possibilidade sushi-sashimi. É a parte colorida.
 
Judeus orientais querem conquistar posições

O processo social pode ser doloroso. Nos anos 50 já havia orientação contra imposição de valores culturais aos "novos imigrantes" procedentes dos países árabes, a não que estes quisessem. Moshê Lissak, da Universidade Hebraica de Jerusalém, diz que os recém-chegados sentiam que os asquenazitas dominantes controlavam a situação e davam as ordens. "Em grande medida com razão", acrescenta. Os médicos e enfermerias irritavam-se pois suas orientações sobre higiene e cuidados com as crianças eram rejeitadas, o que simplesmente provocou a morte de muitos bebês. "Mas em quase todos os setores eles sentiam que a intromissão nas suas vidas era muito grande."

"A sociedade israelense ainda paga o preço dos anos 50, pois todo o tempo culpam os asquenazitas de patronagem, de tentar organizar a vida deles, por aí." Ao mesmo tempo, surgiam estereótipos, como aqueles sobre os curdos e os tchah-tchahim - referência pejorativa ao sotaque marroquino, sinônimo de ralé.
O que corre é que os russos são bêbados, ladrões, mafiosos, drogados, malandros e, as russas, procidentais, fora o alt? ?,?dobrou o número de médicos no país, qu ao dos etíopes, que saíram de outro século para o atual, ou dos marroquinos, à época. O problema dos russos foi exatamente o nível cultural elevado, embora nem sempre conforme os padrões ocidentais, fora o alto índice de pobreza. "Com a imigração russa dobrou o número de médicos no país, que era de 12 mil", diz Lissak. Se o índice de médicos per capita já era um dos mais altos do mundo em Israel, já não havia o que fazer com os recém-chegados. Foi difícil, muitos deles foram desempenhar funções importantes, mas que dispensam diploma, como varrer a rua, vigiar supermercados."Não havia saída." De repente sobravam músicos e professores de piano. No entanto, segundo Lissak, 70% foram bem absorvidos, até porque a chegada rápida de tantos imigrantes também provocou aumento na atividade econômica, com a necessidade da maior produção de bens de consumo. Sinal do rápido sucesso dos russos em Israel é que, além da presença crescente no mercado de trabalho, eles já têm partido próprio, Israel beAliá (Israel em Ascensão/Imigração), com cacife suficiente para conquistar o Ministério da Indústria e do Comércio, entregue ao histórico Natan Sharanski.
Para que se tenha uma idéia do peso das comunidades na política israelense basta observar que os russos se situam à direita. Caso estivessem à esquerda, Shimon Peres seria o primeiro-ministro, e não Biniamin Netaniahu. Os etíopes contam com um deputado, integrado ao movimento trabalhista. Os marroquinos e outros grupos sefárdico-orientais têm o Shas, mas espalham-se pelos outros partidos e contam com diversos políticos no primeiro plano israelense, como David Levy. No entanto, a representação étnica ainda e para não variar, continua em debate - o ressentimento e problemas reais servem de combustível: há marroquinos que se apresentam como franceses.
Nos anos 60, o descontentamento de marroquinos teve expressão nos Panteras Negras, "um grito", como define Meir Buzaglo, de 39 anos, professor de filosofia. Buzaglo nasceu em Casablanca. "Nós admiramos os Panteras", diz, mas o momento é outro. Ele está unido a um grupo de universitários que criou o movimento Keshet Misrahit Democratit (Arco Oriental Democrático - o arco tem duplo sentido, pode ser tanto o arco-íris da esperança e do amanhecer pós-diluviano, como o disparador da flecha). Ainda não existe uma caracterização partidária no movimento. O importante para eles é criar canais que permitam a melhoria das condições de vida dos "orientais". Mas, como bons intelectuais, estão atentos também para a revalorização das culturas levantinas que, aliás, se fazem muito presentes sobretudo na música popular.
"Depois de todo o milagre, depois da absorção de todas as imigrações, da vinda de pessoas de todos os continentes, depois da realização do sonho, nós despertamos", diz Buzaglo. E a realidade já pertence a um "país normal". Segundo Buzaglo, com exceção do Shas, para os haredim, os orientais (mizrahiim), parte importante da população, não tinha quem a representasse. "Eram usados, mas não representados", diz. Segundo ele, os asquenazitas, o kibutz, já não têm o que dizer. Os orientais, na sua opinião, ainda são uma resposta ao negativismo sionista inicial, que pregava o esquecimento do passado. A coexistência de diversas culturas, algo que tem aspectos positivos óbvios, também pode ser perigosa, na opinião do crítico literário Nissim Calderón, sefardita de origem búlgara. "Por exemplo, o que a sociedade israelense compreendeu após o assassinato de Rabin é que o crime foi cometido por caua do processo de paz, mas por baixo disso revela-se a inimizade entre as várias culturas no país", diz referindo-se ao fato de que o assassino tem origem iemenita, é "oriental". Na verdade, há uma tensão muito forte em toda a sociedade, segundo ele. "As pessoas lêem jornais e pensam que somos um bloco diante dos árabes, mas não é assim, não há o israelense, mas os israelenses diante dos árabes, com muitas culturas diferentes. Além disso, se os judeus brigam entre si, ocidentais e orientais, não conseguem se dedicar realmente às questões com os árabes."
Calderón não esquece a riqueza da pluralidade , mas faz questão de assinalar que ela tem um "lado mórbido, a agressividade. Para Ella Belfer, os judeus ainda não conseguiram apreender o sentido da convivência plural, um dos grandes desafios da hora. (M.A.)
 
 
 
 
Sionismo é ideologia com novas opções

MOACIR AMÂNCIO

 

JERUSALÉM - O patriarca dos escritores israelenses, Izhar Smilansky, que assina S. Izhar, tem 82 anos. É filho da primeira aliá, ou imigração. Sobrinho de outro escritor, Moshê Smilansky, que escreveu histórias sobre personagens árabes, com quem convivia. Seu estilo é poético. Vive em Meishar, perto de Rehovot, onde nasceu. Foi jornalista e ainda ensina literatura na universidade, uma vez por semana. O mais, é o cenário dos pomares de toranja (termo português para grapefruit) e laranja. Smilansky é testemunha da história de Israel anterior à criação do Estado e viveu o ressurgimento do hebraico que, como diz, deixou de ser um idioma dos olhos para se tornar um idioma da boca. Um gigante, física e intelectualmente, que avalia a dimensão da formação do Estado na perspectiva da história judaica e ocidental para dizer em tom decidido: "Tudo isso está em perigo." Para ele, uma trajetória suicida começou com o assassinato de Itzhak Rabin, no dia 4 de novembro de 1995, em Tel Aviv, por um estudante fanatizado. O grande sonho estava muito perto. Com Rabin, "eu acho que haveria paz agora, paz com a Síria, paz com os palestina, eu acho que Israel teria agora boas relações com todos os países árabes ao redor". A subida de Binyamin Netaniahu ao poder foi catastrófica, na sua opinião. "Eles não querem paz, eles não querem pagar nada, eles querem manter tudo e que os árabes nos dêem a paz." Smilansky cita a Bíblia para dizer que a região sempre foi habitada por dois povos, que a receberam por dádiva divina. Sem paz, ele não vê como será possível viver em Israel: "Os Estados Unidos e a Europa já começaram a tomar atitudes contra este país, sem o comércio com o Ocidente Israel está morto." Além disso, observa que os países árabes hoje são militarmente fortes. Já não se pensa em campo de batalha tradicional, mas em mísseis.
Essa ameaça, que espreita no céu, tem contraponto no rés-do-chão, no presente. Para Iossi Banai, uma das cordas vibráteis da alma israelense, a existência em Israel é uma tragédia. "Nós já estamos acostumados, mas não há dia em que não matam um soldado no Líbano, não há dia em que alguém não é morto em algum lugar, o terror, as bombas, o Hamás, esta é a vida." Banai não quer dizer que outros países estejam livres de problemas. Pode haver um atentado na Inglaterra, na França, "mas nós vivemos em cima de um barril de pólvora". A sensação, acrescenta, é de que não existem líderes sábios em Israel. "Um estadista, na minha opinião, como Shimon Peres, está fora, riem dele." Israel foi criado porque os judeus não tinham para onde ir, observa o romancista Yoram Kaniuk. "No começo, 300, 400 mil judeus chegaram aqui, dos países europeus, ninguém os queria, Brasil, Argentina, Estados Unidos, Inglaterra, ninguém." Foi preciso fundar um país, "à custa dos árabes, pois esta era a terra deles, o que é injusto, mas foi assim, não tínhamos para onde ir". Nos 30 anos posteriores à criação do Estado foram realizadas coisas grandiosas, com todos os erros, mas foi recebido um número três vezes superior de pessoas ao que havia aqui, construíram a economia, a tecnologia, a cultura, não havia nada aqui. Participei do resgate de refugiados da Europa e da Guerra da Independência, extremamente violenta, na minha divisão, de 1,2 mil soldados, 400 foram mortos. Influenciou muito a vida no país. Depois vieram os sobreviventes do Genocídio, é muito difícil criar um país normal com isso, mas mesmo assim conseguiram fazer algo." Também para Kaniuk, o problema está na direção do governo. Ele volta ao perigo assinalado por Smilansky: a perspectiva de nova guerra.
Iehudit Hendel, pioneira das autoras israelenses, publicou seu primeiro livro no início dos anos 50 e foi uma nota discordante na literatura heróica praticada até então pelos seus colegas. Numa de suas histórias, por exemplo, conta como um pai vai até o cemitério de soldados, onde estão os restos do filho. Começa a chover, o pai tira o casaco e o coloca sobre o túmulo. "Quase não há família que não tenha um morto, meu cunhado morreu na guerra, desde que me lembre sempre houve guerra aqui, acho que as pessoas estão muito cansadas de guerras." No outro lado da moeda (ou será o mesmo?) está o taxista de Haifa R. S., de 35 anos. Ele ostenta uma formidável cicatriz na garganta, causada por uma granada no Líbano. Aí ele viu três amigos morrendo a tiros "por causa de um erro militar estúpido". Podia estar isento do serviço militar anual, mas apresenta-se todo ano. "Você não pode pensar que o árabe é fraco, que os garotos na Cisjordânia são fracos, caso contrário estará perdido." Espera continuar assim até a chegada da paz. E, enquanto a paz não chega, prepara-se para se divertir em Paris, com a mulher (ela gosta de cassinos), onde verá a Copa do Mundo - para ele, a seleção brasileira é a melhor.
Natan Zach, entre os primeiros poetas israelenses, não nasceu aqui. Veio da Alemanha em 1937 e, no meio tempo, viveu 11 anos na Inglaterra, onde obteve o douturado. Ele diz, no seu apartamento de Tel-Aviv, a poucos metros do local onde Rabin foi alvejado, que se tivesse 25 anos, talvez deixasse Israel: "É difícil viver aqui, sob todos os aspectos. Sob o aspecto econômico, sou professor universitário, os salários aqui são ridículos, sob o aspecto da tensão, das guerras, que não param. E a grande decepção, lógico, após o período em que, achávamos, havia perspectiva, com Rabin e Peres, eu e meus amigos árabes, poetas árabes, num fórum, nós esperávamos que haveria alguma mudança. Agora, parece-me que nos próximos 30, 40 anos não haverá paz aqui. Judeus podem viver em qualquer lugar. Há o mito sionista, claro, por causa do Genocídio, mas acho que um judeu pode viver na Inglaterra, na França, na Itália, no Brasil e viver muito bem. O caminho da política israelense está fechado, estamos no mesmo pântano em que vivemos há 50 anos. Não tenho filhos. A vida aqui sempre foi tão complicada que talvez eu tivesse essa idéia de que para um mundo como este não é preciso trazer crianças." Banai não é tão pessimista. "O humor me segura, betah" (lógico, claro, batata). Ele espera algum tipo de mudança. Há pouco a presença militar no Líbano era questão fechada, agora já falam em retirada unilateral, comenta perplexo. Ao mesmo tempo, porém, ele se espanta e pergunta, o que é isso? Em outras palavras: os mortos e os feridos teriam sido realmente necessários? Há alguns anos, quem falasse com Arafat era preso. Agora, todos falam com Arafat. Ele, que frisa não ser da esquerda, está convicto de que haverá um Estado palestino (com segurança; apesar da realidade dos foguetes, fronteira aqui não é nenhuma abstração), o que implicaria uma alteração no quadro político israelense. Smilansky pede atos. Para o escritor, os judeus não podem permanecer em Hebron nem em Gaza. "Sou contra esses assentamentos, uma ação de colonialismo cujo tempo já passou." A questão da terra, que sustenta o conflito com os árabes, também divide os israelenses. Para a "esquerda", a "direita" ameaça o futuro do país com sua intransigência e obsessão de "segurança". A "direita", por sua vez, acredita que a "esquerda" colocaria o país em risco ao entregar territórios em troca de uma paz ilusória. Enquanto isso, temos essa espécie de guerra a prestação dos atentados. Em episódio recente, um carro-bomba explodiu em Ramala, antes de chegar ao seu destino e um terrorista foi encontrado morto. O alvo, segundo a polícia, seria o centro de Jerusalém. K.S. disse ao repórter: "Há 15 dias roubaram o Fiat da minha irmã. Pode ser que seja o mesmo carro e minha irmã trabalha no centro da cidade, como imaginar tudo isso?" E há o conhecido Shalom Ahshav. Amiram Goldblum, de 50 anos, é encarregado pelo movimento da questão dos "colonizadores" judeus nos territórios. Conta que, no total, passou dois anos nas guerras. Tem um filho que, ferido, ficou com um problema na perna. Ele acha que a situação hoje está melhor do que nos tempos de Itzhak Shamir, quando não havia perspectiva. Mas diz: "Sem o fim da colonização, tudo pode fracassar."
Ex-diretor do Comitê das Comunidades em Judá, Samaria e Gaza, Israel Harel, ideólogo da colonização, religioso, está convicto de que, pelo contrário, os colonos tornarão possível a paz, porque sem eles o país não teria, provavelmente, o que negociar com os árabes. "Veja, a colonização tem dois significados, no tempo dos 50 anos, não é só o significado físico do estabelecimento na área para evitar a entrega da terra que faz parte de Israel a outro povo, ao inimigo, há um alcance espiritual muito maior, pelo desprendimento dos colonos.
"Estamos no momento do individualismo pós-moderno. Mas o símbolo da colonização é que ainda há pioneirismo, ainda há pessoas dispostas a fazer coisas não só para si próprias, mas também para os outros, sem nenhum vínculo com a política." Para Harel, trata-se de uma retomada do Sionismo. Segundo ele, Arafat só assinou o Acordo de Oslo porque temia a ação dos colonizadores, que não lhe deixaria espaço, fechando as opções.
Harel espera que o atual primeiro-ministro não permita a criação do Estado palestino, mas se isso vier a ocorrer, os colonos vão defender suas posições politicamente, nada mais do que isso. Na verdade, ele não confia totalmente em Netaniahu, um "pragmático", que age conforme a pressão e, dependendo dela, ele seria capaz de fazer o que Peres e Rabin fizeram, embora tenha "instinto nacionalista".
Uma novidade em matéria de sionismo vem do grande empresário israelense Stef Wertheimer, que também é publicista. Fundador do Grupo Tefen, criador de três parques industriais, Wertheimer defende em artigos entusiasmados uma nova mentalidade para o país, que se sobreponha aos clichês ideológicos e à rotina do carisma em Israel. Sua solução para a crise provocada pelo projeto da construção de moradias para judeus em Har Homá, Jerusalém: em vez disso, por que não um instituto científico, benefíciaria árabes e judeus. Para garantir a paz: parques industriais nas fronteiras - quem se ocupa de produção e exportação não pensa em guerras. Por que não fazer de Israel uma Suíça?
Acontece que, além de acertar a vida com os vizinhos, Israel precisa ainda entender-se com a parte da própria população que não vai festejar o 30 de abril. Quase um milhão de árabes estão de luto pelo que chamam o "Dia da Nakba", da Calamidade Por causa dele, cerca de 700 mil pessoas deixaram Israel e se tornaram refugiadas. Os que ficaram têm formalmente direitos iguais aos dos judeus, mas as reivindicações que fazem são no setor sanitário, de educação e moradia. Instalou-se há pouco uma discussão sobre a possibilidade que uma família árabe teria de comprar uma casa em área destinada a uso judaico. Um dos deputados árabes, Abdulmalik Dehamshe, do Movimento Islâmico, lembra sua condição nacional e a cidadania para repetir que não pode ver a data como algo normal. "Nós, neste ano, os árabes israelenses , que somos 20% da população, vemos a data como a data da desgraça." Dehamshe afirma que os árabes israelenses são vítimas de racismo pesado. "De um lado podemos eleger e ser eleitos para o Parlamento, mas de outro, em todos os níveis da vida no dia a dia nós sofremos por causa dos orçamentos para as nossas localidades, nas relações jurídicas, a questão das terras, etc. Este ano tivemos o 22.º Dia da Terra, 30 de março. Em 1976 a população árabe saiu em intifada (levante). No mesmo dia mataram seis dos nossos, um deles em Kfar Kana, que a propósito é o lugar onde nasci, ao lado de Nazaré. Nós dissemos assim: não pode ser que nos 50 anos do Estado nos vejam como cidadãos diferentes, como inimigos a quem não dão nenhuma igualdade. Quando foi fundado o Estado, tínhamos 6,5 milhões de dunans de terra. Dos 6,5 milhões resta apenas meio milhão. Eu me envergonho do termo racismo, mas trata-se de tirar terra de árabes para os judeus e, quando a realidade é essa, devemos defini-la de modo correto. Neste país existe democracia, mas não para nós. Eu posso eleger e ser eleito, isso é positivo, mas precisamos de igualdade mesmo. "
O escritor Anton Shammas, árabe da Galiléia que se tornou grande autor israelense escrevendo em hebraico riquíssimo o livro Arabescot (Arabescos), instaurando um fantástico fenômeno cultural no país, que revelaria afinal a face pluralista de Israel, negou-se a falar ao Estado porque não quer participar de nada que lembre o jubileu israelense, ou, para ele, a Nakba: "Eu estou tão irado com o que Israel vem fazendo em todas as frentes que realmente acho que devo manter silêncio; minhas palavras não serviriam para ser impressas." (M.A.)

 

Eles são conhecidos como "brasileiros puros"

MOACIR AMÂNCIO

 

Diversos brasileiros participam da construção do Estado de Israel praticamente desde o início. Eles trouxeram forte carga ideológica sionista. O cineasta David Perlov, por exemplo, homenageado dia 30 de abril (no calendário hebraico, correspondeu à data da Proclamação da Independência) com a apresentação, via TV, dos seus diários cinematográficos entre os cinco melhores filmes israelenses, participou de movimentos judaicos juvenis, como sua mulher, Mira. Perlov passou primeiro seis anos na França, onde aprendeu cinema com Langlois, entre outros. Veio em 1958, para o Kibutz Bror Hail onde ficou dois anos com Mira. Depois, Tel Aviv. Aí desenvolveu seu trabalho de professor e cineasta. Certa vez, disse ao escritor francês André Schwarzbart que gostaria de fazer algo proibido em cinema, mas que era amplamente franqueado aos literatos: um diário. A partir daí, esse descendente do fundador do Hassidismo, o Baal Shem Tov, de uma rabina e do mágico Moisoto começou a fazer o impossível, filmando cenas corriqueiras até formar um painel da vida israelense flagrada em sua intimidade. O filme já foi apresentado em diversos países. Hoje, Perlov trabalha numa nova parte dos diários, nos quais o Brasil entrou graças às viagens mais ou menos freqüentes que o cineasta faz, para ver amigos, o irmão Arão, jornalista em São Paulo, e matar saudades. Confessa descontentamento com o governo, mas "governos mudam", comenta, antes de dizer que acredita na "solução israelense para os "judeus".
Sua mulher, Mira, tem uma história especialmente complicada. Ela nasceu na Polônia, onde viveu até os 6 anos e chegou a usar a estrela amarela discriminatória do nazismo. A família fugiu. O pai acabou no Japão, onde conseguiu visto para o Brasil e a mãe com três filhas permaneceu um tempo na Europa. Na Espanha, as quatro conseguiram visto para o Paraguai. Puderam ver o pai num barco, em Santos, porém só mais tarde a família reuniu-se em São Paulo. A sensação de "não pertencer" vem da infância.
Primeiro a Polônia, depois o Paraguai, onde ela aprendeu que Solano Lopez era um herói, em seguida o Brasil, onde o herói se tornaria vilão. O contato com as desigualdades brasileiras inspiraram nela o entusiasmo socialista. Em Israel exerceu diversas atividades, inclusive a de tradutora cinematográfica. Sempre sensível às questões sociais, conta que fica indignada todas as vezes que algum árabe é humilhado. E, marca pessoal: o sentimento da ausência de uma "pátria" persiste. No kibutz, teve uma crise quando houve uma verba para substitução dos colchões de palha por colchões de mola. Para Mira, era mais importante comprar uma vitrola com a verba. Poderia continuar dormindo em colchão de palha, mas isso não foi aprovado coletivamente. O choque indivíduo-coletividade é um dos temas da literatura israelense.
O diretor da Faculdade de Filosofia da Universidade de Tel Aviv, Marcelo Dascal, também é brasileiro. Veio em 64, após ter recebido bolsa de estudos na França. Também participante de movimentos juvenis, Dascal trocou um futuro garantido no Brasil pelo risco israelense. Já sabia o idioma ao chegar, mas é preciso vencer a distância que separa entre o conhecimento de uma língua e a vivência dessa língua como realidade escrita, pensada e falada. Para Dascal, era importante a participação no destino israelense, uma opção para o materialismo e o imediatismo da sociedade brasileira, o vazio da praia. Para ele, sentir que de alguma forma estava influenciando a história era fundamental. Na universidade, estimula o diálogo entre judeus e árabes. A troca de país compensou, afirma.
O fervor sionista motivou o bem sucedido casal de advogados Marcos e Lúcia Wasserman, também de Tel Aviv. Ele, que além de advogado dirige o Centro Cultural Brasil-Israel, faz críticas duras sobretudo à "pressão religiosa". Defende o casamento civil e outros valores que considera básicos para uma sociedade moderna. Tanto Marcos como Lúcia (Algranti) não se arrependem da escolha. Os vínculos com o Brasil são mantidos via família e pelo centro, que funciona como ponto de difusão da cultura brasileira, com a publicação de obras literárias e cursos de português. Por causa do centro, vale avisar que brasileiros desprevenidos devem tomar cuidado com o que dizem nas ruas israelenses. De repente, o comentário indiscreto ou o palavrão pode ser entendido pelo rapaz ou pela moça ao lado.
Os brasileiros não formaram partido, preferiram integrar-se aos já existentes. A principal referência para eles é o Kibutz Bror Hail, perto de Ashkelon e Gaza. Fundado por judeus egípcios em 1948, o kibutz logo em seguida passaria a receber brasileiros. Os "brasileiros puros", como o professor Aharon Thalemberg (autor de um estudo especializadíssimo sobre a cabala dos seguidores do falso messias Shabtai Tsvi e que de vez em quando profere conferências na USP), Tsvi Hazan, que foi cônsul em São Paulo, e Benjamin Roisman, o Jimico, continuam a dar o tom ao kibutz, onde o português é língua oficial. Como toda a sociedade israelense, a instituição kibutz também passa por um processo de transformação. A privatização está em marcha: serviços são executados por terceiros, na mudança do "coletivismo ao máximo" para o "coletivismo necessário". Educação e saúde ficarão sob controle do kibutz, que constrói um "templo" para expor o rol da sessão da ONU que aprovou a partilha da Palestina e o martelo de madeira usado por Oswaldo Aranha, presidente da sessão. Na agropecuária serão produzidas este ano 3 toneladas de batata e 3,5 milhões de litros de leite. Ponto de honra de Bror Hail são os serviços de informática que presta. O kibutz é pioneiro no uso da informática em agricultura, o que é feito pela Anat-Keshev Lt. É a maior empresa do gênero em Israel. Aí trabalha a pernambucana Sandra Hirsch. Casada, tem duas filhas. Está há cerca de dez anos no kibutz e o golpe mais violento que recebeu foi o assassinato de Rabin, que por sinal tinha Dov Tsamir, do Bror Hail, como seu assessor. Mas, para Sandra, o futuro está em Israel e o kibutz ainda permanece como resposta para a vida, embora esteja perdendo a aura igualitária inicial: primeiro foram os árabes, agora são tailandeses e outros os trabalhadores externos contratados, ao mesmo tempo em que esse símbolo do país já não tem a força representativa inicial.
O arquiteto David Reznik, primeiro brasileiro a receber o Prêmio Israel, está no país há quase 50 anos. Discípulo de Niemayer,Reznik conta, entre suas obras, o prédio da Universidade Hebraica de Jerusalém, no Monte Scopus, uma brilhante e influente solução. Agora, que seu escritório anda sozinho, ele dedica boa parte do tempo a uma espécie de retorno simbólico ao Brasil: preside o Instituto Cultural Ibero-Americano, voltado para as relações com a América do Sul: "As relações com os povos latino-americanos estavam um pouco de lado, porque a preocupação era mais Europa e principalmente América do Norte. Como sul-americano e brasileiro acho muito importante a relação com a região. Faço isso dentro do espírito de pioneirismo. Israel tem necessidade de ser amado, como o povo judeu tem necessidade de ser amado."
 
Hebraico trouxe a tradição para a modernidade

RIFKA BEREZIN

O hebraico é a língua oficial do Estado de Israel, desde 1948, mas já era falado na região pelos pioneiros sionistas desde o final do século passado. O hebraico moderno ou israelense, como também é denominado, foi renovado após um lapso de 1.700 anos de língua escrita e está fundamentado na concepção da unidade da língua hebraica e continuidade dos seus diferentes períodos literários e históricos. Ele não é resultado de uma evolução orgânica, onde o velho é substituído pelo novo, como é usual no desenvolvimento natural das línguas faladas. No hebraico moderno, os diferentes estratos históricos dessa língua encontram-se lado a lado.
O falante israelense pode empregar numa mesma oração vocábulos renovados, assim como os provenientes do hebraico bíblico, do talmúdico (segunda fase depois da Bíblia) e medieval com a maior naturalidade: há uma organização sincrônica de todo o vocabulário existente em todas as fontes judaicas escritas. Também é pouco comum nos estudos lingüísticos a transformação de uma língua escrita para uma língua oral, como é o caso do hebraico.
O hebraico é uma língua antiga e pertence ao ramo das línguas semíticas. Desenvolveu-se na região do Oriente Médio durante a metade do segundo milênio a.C., na Terra de Canaã. Essa língua também foi chamada na Bíblia de Yehudit (2º Livro dos Reis 18:26,28). No período helenístico, os escritores referiam-se a ela pelo termo grego Hebraios (Flávio Josefo) e, sob o império romano, era conhecida como ivrit (hebraico).
Quanto à sua estrutura, o hebraico é basicamente triconsonantal, isto é, a maior parte de seus radicais e raízes é composta por três consoantes. O seu alfabeto é de 22 consoantes, escritas da direita para a esquerda. Originalmente, não tinha vogais, mas algumas letras funcionavam como auxiliares da leitura, as matres lectionis ou, em hebraico, as amot keriá, indicando as vogais I, O e U. As demais vogais não tinham representação e a falta da vocalização dificultava muito a leitura dos textos hebraicos.
Foi na segunda metade do primeiro milênio da nossa era que se deu a invenção de vários sistemas de vocalização, sendo o Tiberiano, atribuído a Ben Ascher, da Escola de Gramáticos de Tiberíades, o utilizado até hoje. Foi a invenção dos signos vocálicos que tornou cada judeu apto para ler o texto bíblico.
O hebraico persistiu como língua escrita por mais de 3 mil anos. Como língua falada, sobreviveu em muitas situações diferentes, seguindo o complicado curso histórico do povo judeu. O hebraico foi falado em Israel até a destruição do Segundo Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C. e há comprovações (as cartas de Bar Cokhbá, no Museu de Israel), de que, mesmo após o grande exílio, as comunidades judaicas que permaneceram em várias regiões da Terra de Israel continuaram a utilizar o hebraico, tanto na comunicação oral como na escrita, até o ano 200 de nossa era.
Após a grande dispersão, o povo judeu passou a viver em diversos países e a falar diferentes idiomas, mas o hebraico era continuamente utilizado nas práticas religiosas e na criação literária, poética, litúrgica e religiosa. Durante a Idade Média, essa língua servia de comunicação entre os rabinos de diferentes países, que trocavam correspondência sobre questões religiosas, constituindo a vasta literatura de Perguntas e Respostas denominada de Responsa.
Nessa literatura, comparece a primeira consulta das Américas, da comunidade judaica de Pernambuco, no ano de 1637, sobre uma questão litúrgica. Os brasileiros perguntavam se podiam transferir as orações pela chuva, de outubro (Sukot), período da colheita em Pernambuco, para outra data. O rabino de Salônica opinou pela suspensão dessas orações, já que essas visam a trazer bênçãos e não danos, como seria o caso.
O ideal da transformação da velha língua hebraica numa língua para uso corrente e atual surgiu com os iniciadores do movimento iluminista judaico ? a Haskalá, no século 18, quando teve início a pesquisa no sentido de um aproveitamento do patrimônio vocabular de todas as épocas e adaptações de formas arcaicas às novas necessidades. Foi o escritor satírico Mendele Mokher Sefarim (Schalom Yaakov Abramovitch, 1853-1917) quem conseguiu chegar a uma síntese e lançou as bases para um estilo do hebraico moderno.
Por outro lado, o renascimento da fala popular deve-se em grande parte a Eliezer ben Yehudá (1858-1922), que provou ser possível empregar o hebraico em todos os setores da vida prática, desde que usado com persistência e coerência. Mas o maior papel na divulgação e na transformação do hebraico numa fala popular foi o dos professores que, desde o início do século, impuseram o hebraico como língua de ensino de todas as disciplinas nas escolas de Israel.
Paralelamente, iniciou-se, no Comitê de Língua Hebraica, fundado em Israel, em 1890, um trabalho de organizado de renovação e ampliação do léxico, criando novos vocábulos, incorporados pelos falantes do hebraico daquele tempo. Foi também esse comitê que decidiu pela adoção da pronúncia sefardita de hebraico, porque a achavam mais bela, mais suave e que lembraria melhor a fala oriental e, talvez, a fala dos antigos hebreus.
Concluindo, o hebraico antigo transformou-se numa língua moderna, corrente e natural, mantendo, entretanto, as características da linguagem bíblica e de língua semítica. O hebraico, língua clássica, altamente poética, e que serviu durante 17 séculos somente à comunicação escrita e às práticas religiosas, expressa plenamente as necessidades de uma sociedade moderna. Foi concluído o processo de "renascimento" da língua e está em curso o processo de "desenvolvimento" natural do hebraico israelense, tanto na fala popular como na criação da nova literatura hebraica no Estado de Israel.
Rifka Berezin é professora titular de Língua e Literatura Hebraica da USP, autora do Dicionário Hebraico-Português, Edusp, 1995.
 
Palestinos consideram 50 anos uma "catástrofe"

ISSA GORAYEB

É com uma mescla de revolta indignada e de resignação impotente que os palestinos comemoraram o 50.º aniversário da "Nakba", palavra árabe que significa "catástrofe" e que nos manuais de história de todos os países árabes designa precisamente o nascimento, em 1948, do Estado de Israel em 1948 numa larga porção da Palestina. Meio século mais tarde, os palestinos, em sua esmagadora maioria, têm sempre o sentimento de serem, década após década, as vítimas de uma obscura conspiração colonial que tem por objetivo privá-los de suas possessões e cujos episódios continuam se desenrolando. Foram necessárias várias guerras (todas elas vencidas por Israel), com seus cortejos de morte, destruições e êxodos, para levá-los a admitir, há alguns anos, a existência do Estado judeu, muito embora relutem ainda freqüentemente em lhe reconhecer a legitimidade. Mas, por uma cruel ironia da Hist ória, este realismo novo, que se seguiu a uma longa era de intransigência e de política do "tudo ou nada", não resultou inteiramente satisfatório: as esperanças suscitadas pelo acordo de Oslo se desvanecem dia após dia, enquanto a intransigência muda de campo com a chegada ao poder de Binyamin Netanyahu em Israel.
Esse complexo de perseguição que atormenta o povo palestino encontra sua explicação em alguns dados muitos impressionantes - principalmente geográficos e demográficos - do antigo conflito da Palestina, embora, incontestavelmente, esse povo tenha sofrido também por causa da imprevidência, da miopia e do espírito demagógico de seus chefes e da maioria dos governos árabes: mais de uma oportunidade de paz fracassou desta forma e com freqüência os árabes acabaram exigindo insistentemente o que ainda na véspera haviam rejeitado com horror. Foi, por exemplo, o caso do plano de partilha da Palestina, votado em novembro de 1947 pela ONU e que foi rejeitado em massa pelos árabes. Com certeza, hoje é fácil decretar o que foi então um erro imperdoável. Mas uma breve evocação de dados da época ajuda a compreender melhor as motivações desse "não", que os palestinos ainda não terminaram de expiar.
Há um século, isto é, no momento em que nasceu o sionismo, apenas 24 mil judeus viviam em meio a cerca de meio milhão de árabes na província otomana (turca) da Palestina. Em 1914, eles era 60 mil e seu número iria aumentar regularmente daí por diante sob o controle da Grã-Bretanha que, pouco depois do fim da Primeira Guerra Mundial e da dissolução do Império Otomano, recebera um mandato para administrar a Palestina. Em 1921 explodem entre árabes e judeus os primeiros conflitos, que não cessarão de se ampliar nos anos 30. A imigração de judeus provenientes da Europa acelera-se depois da 2.ª Guerra Mundial, muito embora os árabes continuassem majoritários. Com a divisão em dois Estados, votada pela ONU, os árabes palestinos conhecem a primeira etapa de uma dramática reversão de sua situação quanto à propriedade da terra e dos meios de existência que dela extraem: em 1947, os árabes possuíam -- sob forma privada ou pública - não menos do que 93% do país, ficando os 7% restantes para a comunidade judaica. Apesar disso, 55% do território é atribuído aos judeus, uma porção em que eles próprios ainda continuam ligeiramente minoritários e onde não possuem senão 14% das terras.
No ano seguinte, é proclamado o Estado de Israel, apesar da rejeição palestina ao plano de partilha e a guerra irá permitir aos judeus a conquista de 22% de superfície complementar, provocando ao mesmo tempo o deslocamento de dois terços da população palestina - ou seja, de 900 mil pessoas - para fora de seus lares: um êxodo encorajado principalmetne pelo massacre de Deir Yassin, do qual foram vítimas 250 habitantes dessa pequena cidade, inclusive muitas mulheres e crianças. Mas o Estado árabe, previsto pela ONU, não veio à luz: por ocasião do armistício de 1949, apenas a Cisjordânia e a Faixa de Gaza escaparam ao controle israelense: a primeira foi anexada pelo Emirato da Transjordânia, então rebatizado como Reino da Jordânia, e a administração de Gaza foi confiada ao Egito.
Menos de 20 anos mais tarde e graças à guerra relâmpago (dos seis dias) de junho de 1967, Israel se apossa desses territórios e aí começa a segunda etapa histórica da expoliação palestina. De fato, não contente em catalogar como "terras de Estado" as zonas não cultivadas (onde sistematicamente são assentadas colônias judaicas), Israel confiscou uma proporção considerável de terras privadas árabes, principalmente no setor Leste de Jerusalem e no Vale do Jordão. O acordo de Oslo, assinado em 1993 com os trabalhistas, reavivou por um momento as esperanças dos palestinos de recuperar pelo menos uma modesta porção de sua antiga pátria, mas o governo liderado pelo bloco Likud imediatamente se propôs aniquilar as esperanças relançando a colonização judaica e procurando impor uma espécie de partição destes 23% da Palestina que até agora haviam escapado à anexação israelense. A cada dia que passa, parece efetivamente mais claro que o projeto de Netanyahu consiste em deixar aos palestinos as cidades e vilas da Cisjordânia que abrigam a grande maioria da população árabe, mas manter o controle do restante desse território por razões de segurança: aliás Israel já começou a construir uma rede de rodovias que permite contornar as aglomerações palestinas.
 
Economia está em fase de liberalização

MICHAEL MICHAELY

 

O desempenho e o progresso econômicos de Israel são, é claro, multifacetados, e só poderiam ser adequadamente descritos e analisados numa série de livros. Nesta breve apresentação terei de ser, é óbvio, extremamente conciso. Dessa forma, vou abster-me de tratar dos aspectos históricos da economia israelense e concentrar-me em alguns de seus principais atributos, a saber: o papel da imigração, o crescimento econômico, a importância da importação de capital, o desempenho do comércio exterior, os gastos com defesa, a inflação e a estabilização da moeda e, finalmente, a mudança do papel do Estado.
Imigração - Israel tem sido, e ainda é, um país de imigrantes, predominantemente de judeus reunidos da Diáspora. Principalmente por conta da imigração, a população de Israel multiplicou-se por sete durante seus 50 anos de existência, passando de menos de 800 mil pessoas, em maio de 1948, para os 5,8 milhões de hoje.
O fluxo imigratório tem sido constante, mas na maioria dos anos não assumiu grandes proporções. A imigração, porém, teve dois momentos de destaque. Primeiro, assumiu contornos dramáticos no período imediatamente posterior ao estabelecimento do Estado de Israel em 1948: de meados de 1948 até o fim de 1951, portanto num período inferior a quatro anos, a imigração fez com que a população dobrasse. Foi durante essa fase que a maioria dos judeus dispersos pela Europa após os trágicos episódios da 2.ª Guerra Mundial, bem como os residentes nos países árabes, chegou a Israel.
A outra onda migratória teve importância menor, mas significativa em termos comparativos internacionais. Ocorreu em 1990 e 1991, assumindo um ritmo mais lento nos anos seguintes, que perdura até hoje, quando o desmantelamento da União Soviética levou para Israel cerca de meio milhão de judeus.
Essas duas ondas migratórias diferiram não apenas em suas dimensões, mas também numa série de características. A primeira, e mais importante, consistia de pessoas que chegavam ao país com pouco capital, em termos físicos, financeiros e humanos, por causa das circunstâncias do período e de seus países de origem. Assim, por exemplo, a despeito da existência de um sistema educacional universal e de alto nível desde o início, foi necessária mais de uma década para elevar o nível médio educacional da população aos existentes na época da criação de Israel. Por outro lado, os imigrantes de 1990, embora não dotados de capital físico, dispunham de enorme valor em termos de capital humano. Na média, sua educação formal estava no mesmo patamar do da população pré-existente. Por causa dessas diferenças, a absorção dos imigrantes foi um processo mais demorado e doloroso no início dos anos 50 do que na recente onda de 1990.
Expansão econômica - Dado o enorme crescimento da população, um aumento substancial da produção e renda do país era de se esperar. Mas a expansão econômica foi bem mais longe. Um grande fluxo de investimento, parcialmente financiado, como veremos mais tarde, pelo aporte de capital do exterior, produziu um enorme aumento do capital humano e físico, não apenas no geral, mas também per capita. Além disso, houve um crescimento de produtividade contínuo. Como resultado, a renda per capita aumentou extraordinariamente.
Em 1997, o Produto Interno Bruto per capita estava em torno dos US$ 18 mil, cerca de 40 vezes maior que seus níveis na época da criação do Estado de Israel. Obviamente, parte desse crescimento é apenas nominal, mas, mesmo em termos reais, a renda per capita praticamente decuplicou durante os 50 anos da existência do país. Nesse período, Israel deixou de ser um país de renda média para ingressar no clube fechado dos mais ricos do mundo.
Capital - Um aporte significativo de capital sempre caracterizou a economia israelense, bem como a da Palestina antes do estabelecimento do Estado de Israel. Nos anos que antecederam a criação do país, a entrada de capital era resultado da chegada de imigrantes, que geralmente levavam consigo alguns recursos, mas essa fonte desapareceu quando, mais tarde, os que chegavam a Israel não dispunham de capital físico ou financeiro. A entrada de capital foi, basicamente, resultado de contribuições e empréstimos de judeus da Diáspora, em graus que variaram ao longo dos anos; empréstimos e ajuda dos Estados Unidos e pagamentos feitos pelo governo alemão a título de indenização e restituições pessoais. Nos anos mais recentes, os investimentos externos também assumiram proporções consideráveis, assumindo a liderança na entrada de capital.
A importância do capital externo foi particularmente grande nos primeiros anos da existência do país e reduziu-se substancialmente mais tarde. No período entre 1950 e 1953, esse capital externo totalizou um terço do total de recursos movimentados pela economia, isto é, do valor do Produto Interno Bruto da economia mais o capital externo. Essa proporção caiu para 20% entre 1954 e 1958. Nas últimas quatro décadas, de 1959 em diante, essa relação, ainda mais baixa que antes, flutuou sem respeitar tendências; em média, ficou em torno dos 12%, ainda alta em termos comparativos internacionais, mas dramaticamente inferior aos altos níveis registrados durante os primeiros dez anos de existência do Estado.
O capital externo sempre foi importante para financiar o alto nível de investimento na economia. Nos primeiros anos, seu nível era tão alto quanto o do investimento, o que significa que, em termos líquidos, o investimento era financiado do exterior e não pela poupança israelense. Os recursos externos foram essenciais para possibilitar o crescimento econômico a despeito dos consideráveis gastos em defesa.
Comércio Externo - A grande dependência do capital externo nos primeiros anos de existência do Estado de Israel implicava também que as importações superavam em muito as exportações - na época as importações eram dez vezes maiores que as exportações. O valor das importações sempre foi alto, como seria de se esperar num país pequeno e praticamente desprovido de recursos naturais, quase o oposto do Brasil. Mas o fenômeno realmente interessante foi o enorme crescimento das exportações (no que, temo, também seja bem diferente do que ocorre no Brasil). Em termos nominais, as exportações israelenses cresceram de US$ 50 milhões anuais nos anos 50 para mais de US$ 22 bilhões em 1997, 450 vezes maior! Parte disso é resultado do aumento dos preços internacionais; mas, mesmo abstraindo-se esse fator, o aumento ainda seria um múltiplo de 100. Em relação ao PIB (que também cresceu outro tanto), as exportações multiplicaram-se por cinco no período que vai do início da década de 50 até meados dos anos 90, atingindo os 30%. E, em relação às importações, passaram de 15% para 70%. Em termos de longo prazo, Israel encabeça a lista de países exportadores, comparando-se aos mais destacados tigres asiáticos. Além do crescimento agregado, a estrutura das exportações israelenses mudou tanto que hoje não guarda nenhuma semelhança com o perfil de seus primeiros anos. De início, as exportações de frutas cítricas constituíam mais da metade do total, com o restante cabendo à lapidação de diamantes. Hoje, as exportações de produtos industrializados, e altamente diversificados, constituem a maioria das exportações. As de produtos de alta tecnologia assumiram posição de destaque nos últimos anos.
Gastos com a defesa - O nascimento de Israel como país independente foi conseqüência de uma guerra cara, que durou do fim de 1947 até o início de 1949, em termos de vidas e gastos. Desde então, o país vive em permanente estado de guerra com seus vizinhos, primeiro com todos eles e, mais tarde, depois do acordo de paz com o Egito, de 1977, e com a Jordânia, em 1996, com apenas alguns deles. Em alguns períodos essa situação evoluiu para conflitos reais. Assim, os gastos com a defesa sempre foram altos, disparando ainda mais com a deflagração de conflitos. Em média, os gastos com a defesa consomem 15% do PIB israelense, uma proporção três vezes maior do que na maioria dos países. Essa média, porém, mascara grandes flutuações. Os primeiros 15 anos de existência de Israel foram, em termos relativos, os mais pacíficos, quando os gastos militares somavam apenas 6% do PIB. Um aumento considerável com o setor militar ocorreu após a Guerra dos Seis Dias, de junho de 1967, e entre 1967 e 1972 os gastos com defesa triplicaram em relação ao PIB, totalizando 18%. Então, com a Guerra do Yom Kippur, de outubro de 1973, houve outro aumento significativo, com essa proporção subindo para 30% no período de 1973 a 1984. A partir de 1985, registrou-se uma redução, com os gastos militares representando 17% do PIB entre 1985 e 1990 e apenas 10% entre 1991 e 1996. Não é por acaso que o período de 1973 a 1984, com gastos militares extremamente elevados, coincide com uma época de crescimento econômico praticamente zero, constituindo uma clara exceção à normalmente robusta expansão econômica israelense. O período também foi marcado pela rápida aceleração da inflação.
Inflação e estabilização - A inflação foi um atributo constante da economia de Israel, com índices toleráveis, à exceção de períodos em que foi notável. A inflação foi alta, pelo menos para os padrões da época, logo no começo: de 1951 a 1953, os preços subiram em média 33% ao ano. Seguiu-se um período de estabilidade: de 1954 a 1972, a inflação anual ficou em torno dos 6%. Entre 1973 e 1978, ficou por volta de 36% ao ano e, entre 1979 e 1985, chegou a 180% anuais. Seguiu-se uma queda acentuada para ficar em 24% no período de 1986 a 1991 e 10% desde então.
O papel do governo - Finalmente, é necessário ressaltar o que talvez seja o mais importante, a mudança do papel do Estado na condução da economia. Os fundadores de Israel eram em sua maioria socialistas. A economia, mesmo nos primeiros anos da criação do Estado de Israel, jamais foi socialista ou de planejamento centralizado, mas a intervenção governamental era universal e penetrante. Nos primeiros anos, era um princípio largamente aceito que nada poderia ser feito corretamente sem a ação direta do governo ou sua regulamentação. A inflação alta do início dos anos 50 foi um choque brutal para essa crença: em 1952, o governo (e o Partido Trabalhista, que estava no poder) percebeu que a inflação não pode ser reduzida por decretos e as forças de mercado finalmente passaram a determinar o desempenho econômico. A política de estabilização citada anteriormente constituiu um passo decisivo para a liberalização, que prosseguiu com apenas uns poucos recuos. Ela foi marcada pela liberalização do comércio, pela remoção dos controles e regulamentações internos, pela passagem do mercado de capitais para o setor privado, pela redução dos subsídios, pela privatização e pela contração da máquina governamental em relação à economia como um todo. Mas é preciso ressaltar uma diferença fundamental entre Israel e a maioria dos outros países. Na maior parte da América Latina, por exemplo, a liberalização e a redução da presença do Estado na economia foram resultados de medidas drásticas, com uma diminuição radical da participação estatal na economia. Em Israel, porém, este foi um processo lento e contínuo, que ainda está em andamento. Depois de 45 anos de reforma e liberalização, ainda hoje, o envolvimento do governo na vida econômica do país é, provavelmente, mais significativo em Israel do que na maioria dos países com economia de mercado.
Michael Michaeli é ex-diretor do Departamento de Economia da Universidade de Haifa e ex-economista-chefe do Bird para o Brasil
 
O anti-semitismo e a má consciência européia

GILLES LAPOUGE

 

Raros são os Estados cuja história foi tão agitada quanto Israel. Disperso, negado, massacrado durante 2 mil anos, Israel renasce em 1948. Depois, de guerra em guerra, a história contemporânea de Israel é apenas uma longa tragédia, à semelhança, embora também diferente, do que foi outrora a história dos judeus, desde o exílio de Babilônia, as destruições do Templo, a ocupação romana ou a morte do Cristo. Uma das singularidades da "diáspora" judaica, como do Estado de Israel depois de 1948, é que seu destino está entrelaçado com o destino e as vicissitudes de outros países, embora se mantendo autônomo. Todo judeu de ontem, todo israelense de hoje, possui duas histórias, dois calendários: por uma parte, a cronologia própria e exclusiva do povo judaico - embora essa cronologia "judaica" varie de uma comunidade para outra: o "tempo" dos judeus franceses é medido pelo chamado "Affaire Dreyfus" (o Caso Dreyfus), o escândalo do Panamá ou as leis antijudaicas do Marechal Pétain em 1940, enquanto o "tempo" dos judeus poloneses é o dos "pogroms", das expulsões, das sinagogas hassídicas da Europa Central.
Se analisarmos o período contemporâneo (a partir de 1948), encontramos a mesma mistura do tempo de Israel e do tempo universal: país criado sob a pressão da Diáspora, mas com o consentimento das nações, o Estado de Israel foi um façanha arriscada na época da Guerra Fria e depois nas relações entre o Ocidente e os árabes.
É preciso acrescentar que a demografia de Israel (antes ou depois de 1948) é controlada desde o exterior: depende ao mesmo tempo do ventre das mulheres israelenses e dos grandes fluxos mundiais: os primeiros "sionistas", a começar pelo húngaro Theodor Herzl, depois pelos pioneiros, (os David Ben Gurion, os Menahen Beguin...) vêm da esfera russa e da Mitteleuropa (Europa Central) e também da Alemanha, portanto, "ashkenazim" (asquenazitas) e "sepharadim" (sefarditas).
Finalmente, com a dissolução da União Soviética, chegou uma segunda onda de emigrantes russos - não mais antigos súditos do Czar, mas ex-súditos de Stálin. Ora, cada um desses fragmentos da Diáspora tinha suas tradições, sua cultura, seus cantos, sua cozinha, sua língua. Podemos portanto calcular como a história de Israel é singular, sem precedentes.
Um relance sobre a formação do Sionismo confirmará isso (a idéia sionista foi lançada por Herzl, então correspondente do jornal austríaco Die Neue Freie Presse em Paris. Herzl publicou em 1896 o livro Der Judenstaat (O Estado Judeu), antes de reunir, no ano seguinte, o Congresso de Basiléia). A idéia sionista impressionou muitos judeus da Europa, mas os judeus franceses continuaram céticos.
Entretanto, o "caso Dreyfus" - esse oficial judeu acusado em 1894 de ter traído a França em favor da Alemanha - mostrou a virulência do anti-semitismo francês. Contudo, esse mesmo "caso Dreyfus" dilacerou a França, dividindo-a em duas e fez surgir, diante do campo dos anti-semitas, o campo da tolerância.
E, além disso, os judeus franceses davam grande valor à "memória a longo prazo". Certamente, ali como em outras partes, houve "pogroms" e infâmias na Idade Média, mas a época moderna tinha a infâmia da "integração". Os judeus da França, como os Rothschild, os Camondo, os Perreire... sentiam-se herdeiros do Iluminismo do século 18 , dos "direitos do homem", de Racine e de Voltaire...
"Feliz como um judeu na França", rezava o provérbio. Por isso, quando Herzl imaginou o "lar judeu" lá embaixo, perto do deserto e sonhou em misturar os burgueses parisienses com os hassidim sujos e místicos da Polônia, o Sionismo sofreu na França um fracasso total.
Trata-se de um fato pouco conhecido: na própria França, houve judeus tradicionais que tentaram limitar a vinda de imigrantes judeus oriundos do Leste, temerosos de que a distinta comunidade francesa ficasse emporcalhada com camponeses lituanos.
Houve a mesma reação diante de Herzl: ninguém tinha o desejo de ir para Sião. Na realidade - e aqui está o paradoxo - o sionismo não foi aprovado na França a não ser pelos anti-semitas, que acolheram a idéia com entusiasmo: o jornal de Drummont, La libre parole, propagador de ignomínias contra os judeus, aprovou Herzl. Eis a solução: amontoar todos os judeus em navios cargueiros e despachá-los para a Palestina. Assim nos livramos deles!
O desprezo dos judeus franceses em relação ao sionismo se reproduziu nas altas esferas: o Quai d'Orsay (Ministério das Relações Exteriores francês) não entendeu nada do sonho sionista. Somente a Guerra de 1939 irá mover os diplomatas parisienses em favor do sionismo. Os sionistas por sua vez devolvem à França a sua frieza: Herzl dá preferência à Alemanha e mais ainda à Inglaterra.
Na Inglaterra, o caminho é diferente. A partir de 1918, os ingleses inclinam-se com amor sobre a Palestina. Era lógico. O Império Otomano desaparecera e vastas províncias otomanas ficaram deserdadas. É uma coisa boa, pensaram os ingleses. E começaram a infiltrar-se em toda a parte: o coronel Lawrence da Arábia apóia então os árabes contra seus senhores turcos. Londres lança também olhares ternos sobre a Palestina.
No dia 2 de novembro de 1917 foi publicada a "Declaração de Balfour": "O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de uma pátria nacional para o povo judeu e envidará todos os esforços para facilitar este objetivo, contanto que não se faça nada que possa prejudicar os direitos das comunidades não-judaicas na Palestina, bem como os direitos de que gozam os judeus em todos os outros países".
Três anos depois, a Sociedade das Nações assume a Declaração e concede à Grã-Bretanha um mandato sobre a Palestina. Por isso, as simpatias de Herzl pela Grã-Bretanha parecem justificadas.
Entretanto, o que depois acontece irá frustrar suas esperanças. Não vamos entrar no labirinto dos anos que se seguiram. A potência britânica, detentora do mandato, é mal aceita pela sociedade judaica da Palestina. A princípio, a Inglaterra quer manter o equilíbrio entre os judeus e os árabes. Depois, Londres endurece o tom em relação aos judeus. E publica, em 1939, um "documento oficial", proibindo a compra de terras pelos judeus e limitando a imigração.
Explode a guerra de 1939. A declaração do futuro primeiro-ministro israelense, David Ben Gurion, é um testemunho da lucidez e da audácia dos judeus. Para Ben Gurion, duas palavras de ordem: os judeus farão guerra contra a Alemanha. Os judeus também farão guerra contra o "documento" de Londres.
A partir de 1942, desenvolve-se o terrorismo na Palestina, sob o impulso de grupos como o Etzel (dirigido por Menahem Begin, futuro primeiro-ministro) ou o terrível "grupo Stern". E esse terrorismo judaico tem dois alvos: os árabes e os ingleses.
Explode então a guerra no Oriente Médio - um acontecimento decisivo para o nascimento do jovem Estado. O nazismo já tinha redistribuído as cartas. Foi depois da Noite das Longas Facas, em 1938, quando se desencadeou a infâmia nazista, que os refugiados começaram a chegar aos países livres, Pouco depois da vitória das divisões de tanques nazistas - as Panzerdivisionnen - instala-se na França o governo do marechal Pétain: libera-se então o antisemitismo contido da França "bien pensante": finalmente, um governo-honestidade, que manda embora os judeus, que os prende em acampamentos, os interna. Milagre!
O fim do nazismo faz com que o fiel da balança se incline uma vez mais para o outro lado: a partir de 1944, o mundo descobre o horror dos "Campos da Morte", os seis milhões de judeus queimados nas câmaras de gás, essa ignomínia conhecida por poucos até 1944. Desenvolve-se um sentimento de simpatia pelos judeus e, ao mesmo tempo, uma "culpabilidade" formidável e inteiramente legítima. Envergonhada de seu passado recente, a Europa sente seu coração comover-se em relação aos judeus e portanto a Israel.
O Holocauso, a maior abjeção da história, é um grande ator do pós-Guerra. Os fundadores do Estado judeu não se enganaram: a declaração de independência, preparada por Ben Gurion no dia 14 de maio de 1948, faz referência aos dois pilares do novo Estado: o vínculo histórico do povo judeu com o povo de Israel e o Holocausto.
A culpabilidade irá durar muitos anos e acompanhará os primeiros passos do jovem Estado. Se os Estados Unidos apóiam Jerusalém, em contrapartida, os ingleses, preocupados em não desagradar aos árabes, continuam inflexíveis. A história de Israel será marcada, por um lado, por guerras fulminantes contra os árabes e, por outro, pelas "mudanças de posição" das grandes potências, segundo seus interesses. Os soviéticos, que haviam sido favoráveis à criação de Israel, tornam-se cada vez mais hostis.
Os americanos continuam ao lado de Israel. A França é um dos países que tomaram parte na perversidade antijudaica. Mas, à medida que nós vamos nos afastando da "vergonha", do ano de 1944, vemos renascer o anti-semitismo e o antijudaísmo. O partido fascista de Jean-Marie le Pen, que recolhe 15% dos votos nas eleições, é racista e os judeus ocupam, na demência racista, lugar especial.
É na França (e também na Áustria e um pouco nos Estados Unidos) que prospera o "negacionismo" - esta doutrina segundo a qual os campos da morte nazistas jamais teriam existido. Quanto ao resto, há 50 anos a França navega com dificuldade entre dois desejos: agradar aos árabes por um lado, reparar por outro os sofrimentos inauditos suportados pelo povo judeu na época do Holocausto.
 
Uma síntese da identidade judaica e brasileira

JOSÉ MINDLIN

 

O 50º aniversário do Estado de Israel dá margem a muitas e variadas reflexões. Sua criação, seguindo-se à tragédia do Holocausto, deu novo alento aos sobreviventes das perseguições, que destruíram milhões de vidas de judeus. Com o apoio de judeus e não judeus do resto do mundo, o país se consolidou, e, através de uma imigração de alta qualificação intelectual e científica (embora paralela a outra, do norte da África, que ainda não tinha atingido qualificação alguma de ordem prática), transformou-se em anos numa extraordinária concentração de cérebros. Foi pois, sob esses aspectos, um fato histórico altamente positivo.
As coisas não são tão simples, no entanto, e a decisão das Nações Unidas criou problemas que até hoje persistem, e de solução problemática. As populações árabes que não se integraram ao Estado de Israel perderam seu domicílio e seus bens, passando a viver, durante décadas, em condições lamentáveis, o que originou conflitos sangrentos, um ambiente de hostilidade recíproca, e um estado de guerra permanente. A busca de uma solução para o conflito tem sido objeto de negociações intermináveis, e de intensos esforços diplomáticos internos e externos, sem que se tenha chegado até agora a resolver a situação dos palestinos, e a conseguir uma aproximação duradoura entre árabes e judeus. Para isso, no entanto, teria sido necessáro, e continua a ser, que houvesse um real propósito de um procurar compreender o ponto de vista do outro, em vez de cada um se colocar intransigentemente em sua própria posição. Diálogo e tolerância em vez de confronto e hostilidade são pressupostos indispensáveis de qualquer acordo, pois a pressão militar pode resolver temporariamente um problema, mas dificilmente será uma solução duradoura. Goethe já dizia, e eu vivo repetindo isso, que o conflito mais difícil de resolver não é entre o certo e o errado, e sim entre o certo e o certo.
Trata-se, no entanto, como adiante veremos, de um fenômeno local, pois o resto do mundo, e certamente no Brasil, árabes e judeus vivem em grande harmonia.
Não é, no entanto, o Estado de Israel que pretendo analisar, pois certamente existirão outros colaboradores desta edição que melhor do que eu, e com mais conhecimento de causa, provavelmente abordarão o assunto.
As reflexões que me ocorrem visam ao problema da identidade judaica, e a posição dos judeus no Brasil nestes últimos cem anos.
Marranos e cristãos-novos são também um tema que deixo a comentadores especialistas.
Historicamente, sempre se falou dos judeus como o povo de Israel - e essa é uma história já algumas vezes milenar - mas quando se busca definir o que significa essa expressão de "povo de Israel", e com que atributos se caracterizam os judeus e o judaísmo, aí é que começam os problemas. O mesmo se pode dizer quando se fala de "povo eleito", tradicionalmente significando eleito por Deus. Terá sido mesmo? E se for, eleito para quê? A história dos judeus não é uma história de favorecimento...
Israel foi a pátria dos judeus antes de Cristo, mas depois disso, com a Diáspora, que os dispersou pelo mundo, passaram a ser, na realidade, um povo sem pátria, se se admitir que os judeus continuaram a ser, através dos séculos da Diáspora, um povo só. O que eu diria é que o judaísmo continuou, mas os judeus se dividiram, e passaram a adotar, como Pátria, os países onde se refugiaram.
Na Península Ibérica, por exemplo, desde a Ídade Média até a expulsão, tornaram-se espanhóis e portugueses, e o mesmo aconteceu nos outros países onde passaram a viver. De uma só nacionalidade, se se pode assim qualificar (apesar da dominação romana) o status político dos judeus na Palestina até a Diáspora, passaram os judeus a ter diversas nacionalidades, conforme os países em que se tivessem radicado.
O judaísmo, no entanto, se manteve uno, e defini-lo é uma das grandes dificuldades com que se defrontam os judeus. A idéia mais generalizada é que o judaísmo é uma religião, mas as coisas não são tão claras. Seria muito simples, se essa definição tivesse abrangência plena, mas como explicar, já que essa abrangência plena não existe, que muitos judeus como tais se consideram, mesmo sem ter nenhuma religião, ou mesmo sem acreditar na existência de Deus? Seria o judaísmo, como definição alternativa, um patrimônio cultural, e um conjunto de valores morais, independentemente de religião? Poderia ser uma definição aceitável, se a religião judaica não existisse. Mas ela existe, e para muitos representa a essência de sua identidade. Como explicar, então, que um judeu, de qualquer nacionalidade, e sem qualquer prática ou sentimento religioso, se considere judeu? E que assim se considere, mesmo sem falar o hebraico, o íiddisch, ou o ladino, e às vezes sem conhecer sequer a história dos judeus?
Não creio que exista uma definição que explique cabalmente o judaísmo de forma a incluir o que hoje é um fenômeno de numerosas vertentes. Isso não quer dizer, no entanto, que judaísmo seja uma ficção, pois ele é positivamente uma realidade.
Um caminho possível, na falta de outro melhor, seria pensar em judaísmo como uma tradição milenar, formando uma corrente indefinível, mas que poucos judeus se disporiam a romper. Essa tradição, para passar de uma geração a outra, através de séculos precisaria, é claro, de um fio condutor, sem o qual a corrente fatalmente se romperia. Pois bem, esse fio condutor creio que existe, ou pelo menos existiu até agora: é a família.
Durante quase 2 mil anos de Diáspora, o judaísmo subsistiu sem território, e sem nenhum organismo ou autoridade central que o mantivesse unido, ao contrário de outras religiões, que mantiveram a centralização de mando. O laço fundamental que manteve a união, foi a família, e com ela a tradição familiar.
Dir-se-ia que a família é, no mundo de hoje, uma instituição periclitante, e assim, seja pelo enfraquecimento da união familiar, seja pelo ecumenismo que passou a admitir de forma mais ampla os casamentos mistos (com que outras religiões inevitavelmente se introduzem nas famílias judias), o fio condutor também estaria correndo o risco de se romper. Pode até ser verdade, mas ainda não chegamos lá, pois esse fio se conservou sólido até os nossos dias não só através da família. Existe um outro elemento de aglutinação: a solidariedade aos perseguidos, que é para os judeus livres de perseguição uma questão de dignidade pessoal. Essa solidariedade manteve e vem mantendo unidos tanto os judeus vítimas do anti-semitismo, como os que tiveram a felicidade de viver imunes a qualquer perseguição.
Não há como, a meu ver, prever com segurança o futuro. Visto o problema "sub specie eternitatis", tudo pode acontecer: assim como no passado povos e civilizações desapareceram, pode o judaísmo perecer em algum nebuloso futuro. Mas não parece provável, pois continuam a existir em nosso tempo, e tudo indica que continuarão a existir por muito tempo, forças contrárias e poderosas, sempre prontas a se digladiar, e a cultivar o anti-semitismo, o que continuará a manter vivo o sentimento e a obrigação moral de se manter judeu por solidariedade.
Vejamos agora o que aconteceu no Brasil. Em fins do século 19, começaram a chegar judeus da Europa Central e da Rússia, mas também da Alsácia e da França, onde, provavelmente por efeito do caso Dreyfus, o anti-semitismo lavrava em terreno fértil. De um modo geral, com exceção da maioria dos alsacianos e franceses, eram pessoas modestas, sem qualificação profissional, provindas, em boa parte, de pequenas cidades, onde a religião imperava. Alguns procuraram o Norte e o Nordeste, principalmente a Amazônia, onde se radicaram, mas a maioria veio para São Paulo e o Rio de Janeiro. Não eram muito numerosos, e o mesmo aconteceu com sírios e libaneses, também de origem modesta. Muitos deles começaram a vida no Brasil percorrendo o interior como mascates, até amealharem economias que lhes permitissem estabelecer-se como comerciantes. E foi como comerciantes que cresceram e prosperaram.
Já os alsacianos e franceses, vindos com recursos, se estabeleceram em São Paulo e se tornaram conhecidos como grandes comerciantes, de tecidos, jóias e outras atividades comerciais.
Nas primeiras décadas deste século, no entanto, com a intensificação do anti-semitismo no caso dos judeus, começaram a chegar levas bem maiores, geralmente com parcos recursos. Aqui em São Paulo muitos judeus se concentraram no bairro do Bom Retiro, predominantemente em atividades comerciais, e o bairro passou a ser visto como "bairro judeu". Hoje é coreano... Da Rússia vieram imigrantes em número menor, mas muitos profissionais liberais, artistas e intelectuais. Estes também dispunham de poucos recursos, mas rapidamente se integraram ao meio brasileiro. Foi o caso, por exemplo, de meus pais, que se conheciam na Rússia, deixaram Odessa em 1905, tomando caminhos diferentes, e se perdendo de vista, mas se encontraram em Nova York em 1910, ali se casando e vindo para o Brasil.
Pois bem, meu pai, que nos Estados Unidos trabalhava como dentista prático (não havia lá a exigência de diploma), aqui teve de cursar a Faculdade de Farmácia e Odontologia de São Paulo. Fez o vestibular poucos meses depois de chegar ao Brasil, e tornou-se um dos dentistas mais conceituados em nosso meio. Mas só foi dentista por necessidade de trabalho, pois, na realidade, do que ele gostava era de arte, e com isso rapidamente passou a fazer parte do meio artístico e intelectual de São Paulo - basta dizer que foi um dos primeiros sócios da Sociedade de Cultura Artística, quando foi fundada, em 1912. Pelas voltas que o mundo dá, hoje estou eu na Presidência da Sociedade! Pois bem, meus pais tiveram a sabedoria de que o português fosse a língua usada em casa, o que fez com que meus três irmãos e eu crescêssemos absolutamente como brasileiros, sem nenhum laço com a Rússia. Depois aprendem o francês, que ficou sendo nossa segunda língua, e só quando eu tinha 8 anos, pelo acaso de virem da Rússia para São Paulo primos nossos, foi que aprendemos o russo. Não tivemos também nenhuma educação religiosa, vagamente ouvíamos que éramos judeus, mas não freqüentávamos nenhum culto. Minto: na Escola Americana, tínhamos de assistir ao culto protestante... O judaísmo só entrou mesmo em casa nos anos 30, quando começou a perseguição nazista - foi a solidariedade de que falei, e quelevou meus pais, e a nós, os filhos, a participar mais ativamente das atividades judaicas, especialmente na parte assistencial e de ajuda aos refugiados.
Falo do caso pessoal porque ele é um bom exemplo do que aconteceu com numerosas outras famílias, que formavam uma coletividade, mas não um gueto, pois a maioria de nossos amigos era brasileira e católica.
A coletividade israelita cresceu e diversificou-se. A partir dos anos 30, começaram a chegar refugiados da Alemanha e da Itália, alguns com fortuna, outros com poucos recursos, mas quase todos empresários, técnicos, profissionais liberais, ou professores universitários nos seus países de origem. Foi logo após a crise de 29, começava a industrialização, e foi fundada a Universidade de São Paulo. Os refugiados da Alemanha e da Itália integraram-se rapidamente ao processo de modernização e desenvolvimento econômico e cultural então em marcha em São Paulo.
Fenômeno parecido ocorreu com a imigração sírio-libanesa, que seguiu um processo paralelo de integração ao país, e o relacionamento entre as duas comunidades sempre foi amistoso e cordial, assim se mantendo até agora, sem que as dissensões do Oriente Médio perturbassem essa relação. É verdade que essa imigração foi predominantemente cristã, e não muçulmana. Não houve influência fundamentalista, o que permitiu o bom entendimento.
Não se pode dizer, no entanto, que nunca existiu anti-semitismo no Brasil. A década de 30 marcou o início do integralismo, que seguia os ditames do nazi-fascismo, e que conquistou adeptos em altas posições no governo e na sociedade brasileira. Não foi uma posição generalizada, pois a maior parte dos brasileiros ignorava o que fossem os judeus, mas essa ignorância favoreceu o surgimento do anti-semitismo. Como também na mesma época já haviam surgido mais movimentos de esquerda, a década de 30 marcou o que eu consideraria o início de uma radicalização política, até então inexistente. Com a 2.ª Guerra Mundial, embora a opinião pública fosse favorável aos aliados, houve setores do governo onde se infiltrou o nazismo, e, como conseqüência, surgiram posições anti-semitas. Lembro-me que quando procurei, como advogado (mas sem cobrar honorários) obter vistos de entrada para refugiados ju deus alemães, tive meu pedido recusado, por escrito, pelo Itamaraty, "por estar vedada a entrada em território nacional de indivíduos de origem étnica israelita". Ainda tenho essa carta. Felizmente tudo isso passou.
As perseguições na Europa continuaram, no entanto, e a imigração continuou a crescer. Na década de 50 intensificou-se o anti-semitismo no Egito e o contingente de judeus egípcios que buscou o Brasil foi apreciável, em sua grande parte de classe média, com bom preparo profissional técnico, industrial e comercial. Mais tarde houve o acordo de Camp David, que marcou o fim das hostilidades entre Egito e Israel, o que demonstra que um acordo é possível quando ambas as partes verdadeiramente o desejam.
A imigração de judeus da Síria e do Líbano, iniciada nos anos 40, não se interrompeu, e formou a comunidade Sefardita (originária dos judeus expulsos da Espanha e Portugal nos séculos 15 e 16), que exerce um papel importante no campo financeiro, empresarial, cultural e assistencial.
O mesmo ocorre com os judeus asquenazitas, originários da Europa, e que têm tido uma atuação semelhante aos seus correliginários
Sefardita - Os ritos têm diferenças, mas a fidelidade às origens é a mesma. Com a mesma origem asquenazita pode ser lembrada ainda uma imigração de certo porte dirigida para o Rio Grande do Sul. 6Hoje, os brasileiros de origem judaica formam um setor importante do grande melting pot que é São Paulo. Não saberia dizer quantos são, mas certamente um número próximo a 75 mil.
É uma população muito ativa, integrada, com muita criatividade e realizações significativas nos mais variados campos - arte, cultura, indústria, comércio, finanças, esporte, ação social ou profissões liberais. A partir dos anos 30, mas principalmente depois da Guerra, começaram os judeus brasileiros e ingressar na política, e aí, deve ser destacado, também não houve qualquer discriminação. Mais recentemente, vem ganhando corpo um movimento de integração ecumênica, entre cristãos e judeus, que vem progredindo através de um esforço de esclarecimento dos adeptos de uma e outra religião, o que certamente representa um importante fator de eliminação de preconceitos.
Pequenos grupos, como a TFP, ou os neo-nazistas, tentam reproduzir as ideologias que levaram à 2.ª Guerra Mundial e ao Holocausto. Não creio que tenham grande significação, mas a História nos ensina que é um erro subestimar a nocividade desses movimentos, pois o fanatismo é sempre perigoso. E eu me lembro que, em 1932, Hitler era alvo de chacota, mas em 33 assumiu o poder.
E agora, para terminar, gostaria de voltar ao problema de identidade, de que falei de início. Antes de existir o Estado de Israel, os judeus não tinham qualquer problema em relação ao seu status político - os brasileiros natos ou naturalizados eram pura e simplesmente brasileiros; e os estrangeiros deviam lealdade aos países de que eram nacionais. Quando Israel foi fundado como nação, houve quem pensasse em filiação de judeus brasileiros ao Estado de Israel, ou pelo menos na criação de uma dupla nacionalidade. A reação aqui foi categórica - nada podia mudar. Podemos ser favoráveis à existência do Estado de Israel, contribuindo moral e materialmente para o seu desenvolvimento (e eu também sou favorável), mas isso apenas como simpatizantes, em caráter estritamente voluntário, sem nenhuma imposição ou vínculo de lealdade política. O contrário seria impensável, pois todos nos orgulhamos de ser brasileiros.
José Mindlin é empresário e escritor
 
Como foi o 14 de maio de 1948 em Tel-Aviv

JACQUES SCHOP

 

Cinqüenta anos separam Fiszel Czeresnia 1948, quando David Ben Gurion leu, no salão do Museu de Tel-Aviv, a declaração de independência do Estado de Israel. Esse senhor de 75 anos, nascido polonês de Stopnica e naturalizado brasileiro de São Paulo, inicia uma viagem de volta pelo tempo. Precisamente para o dia 31 de janeiro de 1948, quando a aventura do grupo de dez jovens brasileiros, do qual ele fazia parte, a caminho do Oriente Médio começara. Por alguns instantes, ele parece retornar ao cais do Porto de Santos de onde o navio Santa Cruz zarpou, fez uma escala no Rio de Janeiro e seguiu viagem com destino a Gênova. "Muitas pessoas vieram de São Paulo para se despedir do grupo." O objetivo era participar de um curso para líderes de comunidades judaicas fora da Palestina, promovido pela Organização Sionista Mundial (OSM). Do programa, participariam jovens ativistas judeus de todo o hemisfério sul. No entanto, pela situação tensa no Oriente Médio, os participantes dos outros países haviam cancelado sua viagem, provocando o adiamento do curso. Sem saber das desistências, os brasileiros embarcaram. Em sua jornada pelo tempo, Fizsel avança mais algumas semanas. Agora já está na Itália. A chegada à Palestina ocorreu em 13 de março de 1948. "Foi num sábado" diz Fizsel. A disposição dos brasileiros de atravessar o oceano para ir a uma região prestes a entrar em conflito impressionou os dirigentes judeus. Tanto assim que uma delegação liderada por Yossef Almog, chefe da todo-poderosa Federação Geral dos Trabalhadores (Histadrut), foi receber o grupo.
O percurso até o lugarejo próximo a Haifa onde se hospedariam inicialmente foi feito em um ônibus blindado. No primeiro passeio, perceberam o clima: que tomava conta da região. "Perto da parte árabe, as pessoas comprimiam-se todas de um lado da calçada, enquanto o outro permanecia vazio", conta Fiszel. "Depois ficamos sabendo que as pessoas preferiam se apertar a ser alvo de franco-atiradores." Outra surpresa, ainda em Haifa, aconteceu na primeira noite, quando os brasileiros foram a um salão de baile. "Estávamos dançando, quando a orquestra começou a tocar Tico-Tico no Fubá", conta. "Foi maravilhoso, porque nunca pensamos que pudéssemos ouvir uma música tão familiar em um lugar tão distante." De Haifa, o grupo foi transferido para Tel-Aviv, de novo, em ônibus blindados. A rota do norte para a região central da Palestina, era entremeada por dezenas de vilarejos árabes e as emboscadas a comboios judeus eram freqüentes desde novembro de 1947. Perto de Tel-Aviv o comboio foi desmantelado e os estudantes brasileiros seguiram para a cidade em transportes comuns. A programação inicial era ficar por lá por mais três dias e, então, ir para Jerusalém, onde fariam o curso.
Uma pequena pausa e Fiszel começa a contar como os brasileiros foram envolvidos pelo conflito entre árabes e judeus na Palestina sem sequer ter disparado um único tiro. Um dia antes do embarque para Jerusalém, as bagagens do grupo foram despachadas junto com um comboio que levava suprimentos para a parte judaica daquela cidade. Horas mais tarde, os brasileiros souberam que a caravana de carros blindados da Haganá (a força paramilitar precursora do Exército israelense) fora atacada próxima ao acesso de Jerusalém. Esse fora o último comboio que conseguiria ultrapassar o bloqueio imposto pelo Exército Voluntário Árabe, que, se utilizando das aldeias que controlavam a única rota para Jerusalém, interrompera a estrada. "Se eles decidissem atrasar algumas horas o início do bloqueio, provavelmente teríamos sido envolvidos nos combates." Mesmo tendo sido poupados de um ataque direto, os brasileiros sofreram prejuízos. Dois baús de roupas pertencentes a membros do grupo foram queimados durante o ataque. "E os que não foram atingidos não nos serviram para muita coisa, pois Jerusalém estava isolada e eles não tinham como mandar de volta nossas coisas." Resultado: os estudantes tiveram de montar um guarda-roupa provisório. Fizeram uma "vaquinha" e compraram algumas peças de roupas. As bagagens só voltariam três meses depois, quando tropas israelenses liberaram o acesso.
Com Jerusalém debaixo de cerco, a OSM improvisou o curso no campo de estudos de Guivat HaShloshá, próximo a Tel-Aviv. Lá já eram centralizados os cursos para professoras que ensinariam nos ginásios judeus espalhados pelo país. "Enquanto estivemos no seminário víamos um grupo de garotas", recorda. "O mais curioso é que recentemente vim a saber que nessa turma de professoras de 1948, que dividiam o seminário conosco, estava Léa, que seria Rabin." O curso de liderança começou no fim de março e foi até agosto.
Mas é o mês de maio que está bem guardado na memória de Fiszel. A tensão entre colonizadores ingleses, árabes e judeus chegava ao auge, com o fim do mandato britânico estipulado para o dia 15. Por um lado havia a insinuação de algumas potências na ONU, entre elas os EUA, de que a partilha da Palestina deveria ser postergada por causa da iminência de um conflito na região. De outro, os países árabes, que não aceitavam a resolução das Nações Unidas, e prometiam invadir a Palestina assim que os britânicos saíssem.
Entre a população judaica, os rumores nas ruas eram de que a proclamação do Estado seria adiada. A liderança sionista resolveu agir. Fizsel lembra da excitação com que a informação de que a independência seria proclamada no dia 14, 24 horas antes de expirar o prazo da retirada britânica, fora recebida em Guivat HaShloshá. "Era um clima de agora ou nunca; uma espera que já durava quase 2 mil anos." No dia marcado, o monitor responsável pelo grupo decidira levá-los a Tel-Aviv na esperança de encontrar o local onde a cerimônia seria realizada. "Temendo uma onda de violência, os ingleses haviam declarado toque de recolher e proibiram aglomerações em todas as cidades da Palestina", diz. "Mesmo assim decidimos ir em grupo. Por volta das 16 horas, estávamos caminhando pela Rua Rotschild quando escutamos, pelo rádio de uma das casas, a voz de David Ben Gurion. Pedimos para entrar e escutamos toda a cerimônia." No fim da transmissão o grupo estremeceu. "Quando ele disse estar falando direto do Museu de Tel-Aviv, percebemos que estávamos na mesma rua, a menos de um quilômetro do local." As poucas pessoas que estavam na rua naquela hora devem ter estranhado a correria de um bando de jovens pela rua Rotschild. Chegaram ao museu na hora em que os principais líderes saíam, aplaudidos por uma pequena multidão. "David Ben Gurion passou a alguns metros de mim. Lembro-me de um judeu de barba branca que se aproximou dele e disse: "Davizinho, fique firme." À noite, não dormiu, lembra lacrimejando: "Tive a oportunidade de presenciar o renascimento de todo um povo, o momento mais importante da vida judaica contemporânea. Você sabe o que é isso?"
 
Telefones para Ben Gurion e Golda

RENAN ANTUNES

 

NOVA YORK - Akiva Kohane é um dos fundadores do Estado de Israel - não importa que seu nome não esteja registrado com destaque nos livros de história. Sua participação consegue ser banal e essencial: ele instalava telefones, usados depois por notáveis como David Ben Gurion e Golda Meir.
"Trabalhar com eletrônica era o sonho da minha vida, fazê-lo num momento decisivo de Israel é mais do que eu podia esperar, estou realizado", diz Kohane, de 69 anos, engenheiro eletrônico aposentado.
Hoje, nosso homem leva uma vida confortável em Manhattan, onde mora com a mulher, Paulette, e dois filhos adultos. Para que ninguém pense que foi fácil, ele e a mulher, judia francesa, têm gravados a fogo, nos braços, os números infames dos campos de concentração.
Menino judeu na Polônia ocupada pelos nazistas, Kohane gostava muito de estudar - só que judeus não podiam ir à escola. Ele foi educado em casa pelos pais. Devorava qualquer coisa que lhe caísse nas mãos, manuais de eletrônica, revistas velhas, bulas de remédio.
Kohane "interrompeu" os estudos à força na adolescência - foi internado em Auschwitz, onde perdeu a família. Libertado pelos americanos, Kohane foi mandado para um campo de refugiados na Itália: "No meu primeiro prato de espaguete e uma ópera depois, voltei a dar valor à raça humana", diz.
Em 1946, o jovem Kohane queria mais, queria tudo que lhe tinha sido negado. Ele embarcou num navio cargueiro, com lugar para apenas 300 pessoas, onde estavam socados outros 2 mil judeus, para a viagem de uma geração: construir o Estado de Israel na Palestina.
Logo, mais guerra, agora contra os árabes, pelo território. Kohane vira soldado. Apesar da figura frágil, carregava um radio-transmissor de 18 quilos, nas mãos uma pistola, na cabeça uma determinação: "Sair vivo da luta, construir Israel, era tudo o que a gente queria".
Os judeus começaram a acumular vitórias militares e uma diplomática: o reconhecimento de Israel pela ONU. "Ouvimos cada voto pelo rádio, sim, não, aquela agonia, até a vitória. Aí, comemoramos feito loucos, pela madrugada."
Foram anos e anos de trabalho duro, jornadas de 12, 16 horas, na companhia telefônica. "Eu não era mais soldado, era um engenheiro, mas pegava no pesado como qualquer operário, naquele tempo era necessário."
É desse tempo de paz que Kohane mais se orgulha: "Levantar do nada uma telefônica, com todas as suas linhas, permitindo que as pessoas pudessem comunicar-se, foi minha contribuição", conta, exibindo fotos, onde aparece pendurado numa escada. "Que sorte a minha poder ter ajudado Israel", comenta, acariciando a foto.
Aos 27 anos, Kohane descobre que um parente escapou ao Holocausto. Um tio estava vivo, na América. Ele desembarca em Nova York, com US$ 128, para uma reunião emocionante. "Vivos, eu e ele vivos, nos abraçando."
Logo, Kohane arruma emprego. Poucos anos depois, funda um estúdio de som em Hollywood, a fábrica de sonhos. Mas o homem continua com os pés no chão: ajuda associações de refugiados, ajuda sobreviventes do Holocausto.
Kohane vendeu a firma. Hoje, mora sem ostentação num dos lugares mais caros do mundo. Paredes são forradas de livros. A maioria é sobre eletrônica. Singelamente, diz: "São algumas coisinhas que eu ainda tenho de estudar."
 

Em Nova York, sonhando com Haifa

NOVA YORK - As janelas do apartamento de dona Efrat Abrams, na Quinta Avenida, abrem-se generosamente para o Central Park. Mas essa mulher rica e elegante não escolheu o lugar por causa do parque. Às vezes, ela nem olha para baixo, só para o céu: "Vejo as nuvens, as formações de cúmulus, cirrus, nimbus, é tudo como em Israel", diz, com uma pontinha de nostalgia da juventude. Dona Efrat adora sua vida de grande dama da parte que conta da sociedade nova-iorquina - a elite judia -, mas fala com mais orgulho dos tempos na Força Aérea de Israel.
Seus avós participaram dos movimentos europeus pela criação de Israel, no século passado. O pai, um construtor polonês, e a mãe, artista e professora ucraniana, foram para a Palestina em busca do sonho, nos anos 30. A menina nasceu em Jerusalém, tendo o sagrado Muro das Lamentações como quintal de casa.
A coisa mais difícil de se arrancar de dona Efrat são memórias ruins, mesmo ela tendo nascido numa das regiões mais duras do século. "Ela teve uma infância feliz, uma adolescência feliz e vive feliz até hoje", conta o marido, Floyd Abrams, judeu americano.
Sem dúvida, dona Efrat é do time dos felizes e sortudos. Seus momentos de maior ansiedade eram quando o pai saía de casa, para atuar nas milícias judias clandestinas. Houve ocasiões em que ela até ouviu tiros "lá pelo setor árabe da cidade". Dona Efrat atravessou incólume todas as confusões, sempre com um sorriso no rosto, bonita até em uniforme militar. "As ruas de Haifa (onde cresceu) eram calmas, os vizinhos ajudavam-se uns aos outros, a fraternidade estava no ar", conta.
Em Haifa, a menina de 13 anos passou a ajudar seu povo numa missão nobre: lecionar hebreu para os recém-chegados. Aos 18, nos anos 50, Efrat foi para a Força Aérea. Nada de grandes aventuras. "Era abrir a janela e reportar tempo bom, temperatura estável, foi onde acabei pegando minha paixão pelas nuvens."
Mister Floyd interrompe: "Ela é toda romântica, poética, apaixonada pelas nuvens." Dona Efrat corta o marido, com graça, e desce das nuvens: "Não havia nada engraçado no nosso posto", conta, notando que estava no Deserto do Sinai. "Pensa que era fácil? Eu e uma amiga éramos as únicas meninas."
"Conta aquela do shortinho", estimula o marido. "Fazia mais de 40 graus, fomos tomar banho no mar, mas uma patrulha nos encontrou e nos obrigou a voltar", desconversa. No quartel, tomou um pito do comandante - ninguém menos do que Itzhak Rabin, mais tarde primeiro-ministro.
Um dia, quis mudar de ares. Escolheu Nova York. "Eu só moraria aqui, ou em Israel." Logo, entrou com tudo no circuito de festas dos ricos e elegantes - numa dessas, em Connecticut, conheceu o futuro marido. "Ela era uma mulher de difícil manutenção", brinca mister Abrams, "além de usar shorts muito curtos para a época" (nos EUA).
"Meu jeito de ser era o de uma garota de Israel, emancipada, muito mais culta do que vocês americanos", rebate, sempre com charme. "Aquilo que eu vivi naqueles anos são as coisas que eu mais valorizo. Mesmo em guerra, a gente dançava, cantava, era feliz."
Dona Efrat tira do álbum uma fotografia e entrega ao repórter. É ela, em uniforme, olhando para o lado, com ar sonhador e desafiante. Ajeita o elegante terno de lã e se despede: ela e o marido vão a uma festa. (R.A.)
 
O cinqüentenário do Estado de Israel

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

 

Uma série de circunstâncias históricas faz com que o Brasil se sinta ligado de forma muito especial às comemorações dos cinqüenta anos do Estado de Israel: a excelência das relações bilaterais ao longo desses anos, a extensão e papel positivo da comunidade judaica no Brasil e, ainda, a importância que atribuímos ao êxito do processo de paz no Oriente Médio. Recorde-se que coube ao brasileiro Osvaldo Aranha dirigir a histórica sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas que determinou o estabelecimento de Estado judeu na Palestina e que seria seguida, após alguns meses, da proclamação da criação do Estado de Israel.
Para nós brasileiros, a contribuição inicial para que se tornasse realidade a aspiração de retorno do povo judeu a seu lar nacional deve ser motivo de orgulho. Mas celebrar o Estado de Israel é, também, uma forma de demonstrar nosso apreço à comunidade judaica brasileira. Com sua dedicação ao trabalho, seu profundo sentido de solidariedade e suas notáveis contribuições à cultura e ao pensamento, essa comunidade traz um aporte significativo aos esforços de construção de um País melhor.
Esse insubstituível elemento humano - a integração à sociedade brasileira de importante comunidade de origem judaica - é fator essencial da relação histórica e mutuamente benéfica de amizade e cooperação que o Brasil mantém com Israel. Nestas cinco décadas, nossas relações se ampliaram e intensificaram, atingindo hoje diversas áreas e um excepcional estágio de amadurecimento.
Apesar de todos os esforços mundiais, a paz no Oriente Médio é um objetivo que se tem provado esquivo. O Brasil, que mantém relações amistosas com todos os países da área, sempre acompanhou de perto a situação, procurando contribuir na medida de suas possibilidades para uma solução justa, duradoura e abrangente. O atual processo de paz é possivelmente a melhor chance que tem a região, e é por isso que vemos com preocupação os obstáculos que têm impedido que chegue a bom termo.
A história do Estado de Israel, embora ainda breve, apresenta uma intensidade e uma sucessão de eventos dramáticos que encontra poucos parelelos em nossa era. Apesar das dificuldades, há muitas realizações nestes cinqüenta anos das quais o povo israelense se pode orgulhar. Israel se desenvolveu, conta com a maior economia da região e atingiu níveis de excelência em setores de alta tecnologia e na formação de recursos humanos. Em especial, soube manter-se fiel aos princípios da democracia e perseverar no caminho do desenvolvimento com progresso social.
Na celebração deste cinqüentenário, nossos votos são de que o futuro do Estado de Israel seja marcado pela crescente prosperidade de seu povo e pela tão ansiada paz, que sabemos só é possível e duradoura com tolerância, pluralismo e respeito mútuo.
 
Governo de Israel propõe mais negócios aos países do Mercosul

MONICA YANAKIEW

 
BRASÍLIA - Foi a martelada, dada pelo brasileiro Osvaldo Aranha há meio século, que anunciou o nascimento de Israel. Na época, ele presidia a II Sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas, que aprovou a resolução 181, determinando a partilha da Palestina em dois estados: um para judeus e outro para árabes. Mas, apesar dessa participação num evento, que até hoje está moldando a história do Oriente Médio, nenhum presidente do Brasil jamais visitou o país, criado há exatos 50 anos.
Fernando Henrique Cardoso teria sido o primeiro, se não tivesse cancelado, de última hora, a visita programada para fevereiro passado. A viagem - além de marcar a aproximação do Brasil a um país com dinheiro e planos para investir em projetos de alta tecnologia - tinha um significado político. Demonstraria que o governo brasileiro, já menos dependente do petróleo árabe, mudaria os rumos de sua política externa no Oriente Médio.
"Ainda não foi descartada uma visita de Fernando Henrique em 1998", assegurou uma fonte do Palácio do Planalto. O problema será conciliar datas num ano de campanha eleitoral no Brasil, de comemorações do cinqüentenário de Israel e de delicadas negociações para a paz, entre árabes e judeus.
Para evitar qualquer deslize diplomático, o presidente só poderá viajar para Israel se for também aos territórios palestinos ocupados, cuja autonomia vem sendo discutida desde 1991. Na visita de fevereiro passado, estavam previstos encontros de Fernando Henrique com o primeiro-ministro isralense, Binyamin Netanyahu, e o Presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat ? ambos eleitos em 1995. Mas os compromissos tiveram de ser adiados.
A explicação oficial é que FHC precisava ficar em Brasília, para acompanhar de perto a votação de importantes reformas no Congresso. Coincidência ou não, sua visita ao Oriente Médio foi desmarcada no momento em que o futuro do processo de paz estava em jogo.
"Além de estarmos diante de uma situação delicada, em termos de política externa, é preciso levar em consideração também os problemas de política interna", disse a fonte do Planalto. O Brasil abriga algumas das maiores colônias de judeus e de árabes do mundo, cujos votos não podem ser desprezados em ano eleitoral. "As duas colônias são pouco atuantes e não se organizaram como os judeus dos Estados Unidos, mas ambas mantêm laços com parentes no Oriente Médio", disse a fonte.
Petróleo - Apesar de o governo brasileiro ter sido um dos primeiros a reconhecer Israel, suas relações com o país, neste seu meio século de existência, foram marcadas pela distância. Primeiro, havia um problema de ordem prática. O conflito armado entre israelenses e árabes estourou em 1948, transformando o Oriente Médio numa região instável, mas de importância estratégica para os principais atores da Guerra Fria.
Depois, apareceu o problema econômico: em 1973, os árabes embargaram o fornecimento de petróleo aos EUA e à Europa Ocidental. A medida - tomada em represália ao apoio dos americanos e europeus a Israel, na Guerra doYom Kippur - desencadeou uma crise mundial. O preço do petróleo quadruplicou, desequilibrando as contas externas de todos os países industrializados e em desenvolvimento, que dependiam das importações desse produto.
No Brasil, a crise estourou no ano em que os militares anunciavam os resultados de seu "milagre econômico": um crescimento de 14% do Produto Interno Bruto (PIB) e de 15,8% do setor industrial. Como o governo dependia de petróleo e de investimentos em petrodólares, para continuar seus projetos de modernização, optou por uma política de aproximação dos países árabes, que ofereciam outra vantagem: eram um mercado maior para os manufaturados brasileiros, do que o pequeno Israel.
A partir de 1973, o governo brasileiro dedicou-se a abrir uma embaixada na Arábia Saudita; designar encarregados de negócios na Líbia e no Kuwait; e estabelecer relações diplomáticas com Catar, Omã e os Emirados Árabes Unidos. Em 1975, o Brasil autorizou a instalação, em Brasília, da representação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), liderada por Yasser Arafat. A decisão foi tomada mesmo que, na época, israeleses e americanos considerassem a OLP um grupo terrorista, com o qual jamais se poderia negociar a paz no Oriente Médio.
As relações com os países árabes - especialmente os do Golfo - ficariam mais intensas depois do segundo choque de petróleo, de 1979.O Iraque transformou-se no maior fornecedor de petróleo ao Brasil e no maior importador de bens e serviços brasileiros do Oriente Médio. Em 1980, o fluxo comercial entre os dois países chegou a US$ 4,1 bilhões. Uma década depois a situação mudou.
Em 1991, uma coalizão de 29 países derrota o Iraque - cuja invasão do Kuwait, no ano anterior, poderia ter provocado um terceiro choque de petróleo. No mesmo ano, a revolução que derrubou, um por um, os regimes comunistas do Leste Europeu, culmina na dissolução da União Soviética e no fim da Guerra Fria. Simultaneamente, israelenses e árabes iniciam negociações para a paz.
Esse contexto internacional e o fato de a Argentina e a Venezuela terem substituído os países do Golfo Pérsico como principais fornecedores de petróleo ao Brasil ? levou o governo brasileiro a rever suas relações com o Oriente Médio. Em 1995, o recém-empossado presidente FHC enviou três ministros a Israel: Luiz Felipe Lampreia, das Relações Exteriores; general Zenildo Lucena, do Exército; e Dorothea Werneck, da Indústria, do Comércio e do Turismo.
Quando retribuiu a visita de Dorothea, em setembro passado, o ministro da Indústria e do Comércio de Israel, Natan Sharansky, desembarcou em Brasília disposto a recuperar o tempo perdido: propôs criar uma zona de livre comércio entre seu país e o Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai).
"Para o Mercosul, uma cooperação conosco pode ser mais vantajosa do que com os Estados Unidos ou a Europa, porque não representamos uma ameaça", disse Sharansky, na época. Ele estava referindo-se à proposta dos EUA de inaugurar uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca), abrangendo 34 países do continente americano, em 2005, e às negociações entre os 15 membros da União Européia (UE) e o Mercosul, para criar algo parecido.
Sharansky explicou que, depois de décadas de isolamento, Israel quer rapidamente integrar-se aos blocos econômicos, que estão surgindo no mundo inteiro. E, segundo ele, os isralenses têm muito a oferecer ? especialmente depois que desistiram de ser um "oásis" no deserto.
Ciência - Ao receber enormes quantidades de judeus da ex-União Soviética, nesta década, Israel duplicou o número de seus cientistas e engenheiros. Calcula-se que 5 mil cientistas e 50 mil engenheiros se incorporaram à sua força de trabalho. Os investimentos na indústria de alta tecnologia também fizeram com que o país aumentasse suas exportações de US$ 12 bilhões para US$ 20 bilhões, nos últimos anos.
"Agora queremos nos associar ao Mercosul, para fazer joint ventures e produzir tecnologia para exportar ao resto da América Latina", disse Sharansky, na época em que acertou a visita de Fernando Henrique a seu país. Em números absolutos, Israel é o segundo maior produtor mundial de inovações tecnológicas, depois dos EUA. "Mas em números relativos, estamos em primeiro lugar", disse Sharansky.
Israel investe hoje 2,9% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento. Como o número de médicos chega a 1,1% da população, o país acabou se tornando um dos líderes mundiais na produção de equipamentos de diagnóstico modernos. A indústria isralense, neste setor, tem crescido em média 25% ao ano.
Alguns dos equipamentos, desenvolvidos pelos israelenses, permitem diagnosticar osteoporose através de ultrasom e câncer de mama por meio de um exame de sangue. Ambos os sistemas são mais baratos e menos agressivos que o raio X e a mamografia.
Os israelenses também desenvolveram técnicas modernas de irrigação, para aproveitar ao máximo as escassas reservas hídricas da região: o país reaproveita 30% da água usada, o que é considerado recorde. Outras empresas se especializaram na limpeza das águas, sem uso de químicos caros e nocivos.
A Mag Noy, por exemplo, desenvolveu um método para procriar quatro peixes, originários dos grandes rios da China. As espécies servem de "filtros naturais", eliminando micro-organismos e algas, e são exportadas para a Alemanha, a Holanda e a Bélgica.
Na sua visita ao Brasil, Sharansky e o então Ministro da Indústria, do Comércio e do Turismo, Francisco Dornelles, decidiram organizar grupos de trabalho para estimular a parceria de empresas especializadas na fabricação de equipamentos médicos e de comunicação, em agroindústria, e no aproveitamento dos recursos hídricos.
"Apesar de Israel ser um país pequeno, somos um grande mercado consumidor, que importa US$ 30 bilhões", disse Sharansky. Do Brasil, os israelenses importaram em 1996 US$ 52,8 milhões ? menos que os US$ 58,6 milhões de produtos brasileiros, comprados em 1981, quando as relações entre os dois países eram mais distantes.
Se o processo de paz tiver êxito, a esperança dos israelenses é gastar menos em armas e mais em outros produtos. Eles também querem participar das privatizações no Brasil. Apesar de exportarem pouco para o mercado brasileiro, suas vendas aumentaram mais de oito vezes, de 1981 a 1996, passando de US$ 22,4 milhões para US$ 187 milhões.
O problema é que o processo de paz avança pouco. E os países árabes ainda detêm dois terços das reservas mundiais de petróleo - algo que o Brasil tem presente, na definição de suas novas relações na região. Por isso mesmo enviou, há pouco, uma missão comercial ao Golfo.