O dia 14 de maio de 1948, pelo calendário gregoriano, os judeus voltavam a
ter, na antiga Palestina, um governo próprio e um lar nacional após quase 2
mil anos de dispersão pelo mundo.
Hoje, meio século depois, o Estado dedica este caderno à comemorações
iniciada dia 29 de abril (pelo calendário hebraico), com reportagens e artigos
especiais sobre os diversos aspectos e implicações da existência, no Oriente
Médio, de um país que em poucas décadas se tornou um dos primeiros do mundo
em tecnologia, pesquisa, educação e nível de vida.
Entre os colaboradores desta edição estão o presidente da República,
Fernando Henrique Cardoso, o historiador britânico Paul Johnson, o empresário
e escritor José Mindlin, e o economista Michael Michaely.
O correspondente Issa Goraieb, de Beirute, comenta o tema do ponto de vista
árabe, enquanto Gilles Lapouge, de Paris, analisa o sentimento de culpa da
Europa em relação aos judeus.
Israel:
50 anos de um milagre
- PAUL JOHNSON
-
- No último meio século, surgiram mais de cem novos Estados independentes.
Israel é o único de cuja criação pode dizer-se simplesmente que foi um
milagre. Acompanhei o drama de 1948-49 na segurança de uma antiga faculdade
de Oxford, às vésperas da formatura.
- Na época, a opinião dos acadêmicos era, em termos, favorável ao novo
Sião: muitos dignitários haviam sido criados segundo a tradição
filossemita de Daniel Deronda, romance lançado por George Eliot em 1876
sobre um jovem que descobre sua identidade de judeu e se dedica à causa
sionista; e eles aceitaram Israel como uma obra intelectual e moral.
- Mas também havia a opinião virtualmente unânime de que o Estado podia
ser esmagado. Esta era decididamente a opinião da maioria dos governos e do
pessoal militar; a noção de um judeu transformado em soldado ainda não
conquistara o imaginário ocidental.
- Em 1948, a força de defesa israelense, a Haganá, tinha 21 mil homens,
ante um exército profissional árabe invasor de 10 mil egípcios, 4.500 na
Legião Árabe da Jordânia, 7 mil sírios, 3 mil iraquianos e 3 mil
libaneses - mais o "Exército Árabe de Libertação" dos
palestinos.
- Em matéria de equipamento, inclusive veículos blindados e força aérea,
as desvantagens de Israel eram igualmente enormes. Historiadores
revisionistas (inclusive israelenses) agora descrevem a Guerra da Independência
como uma deliberada conquista sionista de terras. Eles ignoram o fato básico
de que os líderes sionistas não queriam guerra, antes a temiam, julgando-a
um risco a ser assumido apenas quando não houvesse alternativa.
- Eis por que em 1947 os líderes sionistas haviam aceitado o plano das Nações
Unidas (ONU) sobre a partilha, que teria concedido ao Estado nascente apenas
8.800 quilômetros quadrados, principalmente no Deserto de Negev, e teria
criado uma entidade inviável de 538 mil judeus e 397 mil árabes. A rejeição
do plano, pelos árabes, foi um gesto de suprema tolice.
- Claro que os judeus combateram bravamente e realizaram prodígios de
improvisação. Tinham de fazê-lo - a alternativa seria o extermínio. Também
combateram selvagemente, sem dúvida, de vez em quando, e cometeram atos que
poderiam emprestar certa veracidade ao argumento dos revisionistas.
- Mas, como um todo, esse argumento é historicamente falso. Foram os líderes
árabes, com sua obstinação e recurso à força, os responsáveis pelo
Israel um tanto mais expandido que surgiu após o armistício; e a mesma
obstinação viria a criar o Israel ainda mais expandido que surgiu após a
Guerra dos Seis Dias, de 1967.
- Noutro paradoxo da História, as fronteiras do Estado, hoje existentes,
foram obra tanto dos árabes quanto dos judeus.
- Outro aspecto paradoxal do milagre sionista é que entre os pais da pátria
de Israel figurou Joseph Stalin. Este não gostava de judeus; ao contrário,
matou-os sempre que isto atendia aos seus objetivos. Além do mais, Stalin,
na condição de imperialista da Grande Rússia e marxista, se opôs ao
sionismo até sua morte em 1953. Mas, durante os anos cruciais de 1947-48,
ele foi norteado pelo que considerava ameaça do imperialismo britânico.
-
Destino
israelense é a construção de um país de vanguarda
PAUL JOHNSON
- Em sua ignorância, Stálin supôs que para solapar a posição britânica
no Oriente Médio era preciso apoiar os judeus, não os árabes, e ele
apoiou o sionismo para romper o "firme controle exercido pelos britânicos".
Ele não só deu reconhecimento diplomático a Israel como também, para
intensificar os combates e o caos subseqüente, instruiu o governo checo
para que lhe vendesse armas. Depois, em meados de agosto de 1948, Stalin
concluiu que cometera um erro enorme. Mas a essa altura a guerra já estava
ganha.
- O Estado incipiente também teve sorte em relação aos Estados Unidos. O
presidente Harry Truman era pró-sionismo e precisava dos votos dos
eleitores judeus na eleição de 1948. Foi sua a decisão de conseguir a
aprovação do plano de partilha na ONU em 1947 e de reconhecer o novo
Estado israelense (de facto, não de jure) quando de sua declaração, em
maio de 1948. Mas a pressão contrária que ele teve de enfrentar, de seus
secretários de Estado e da Defesa, foi enorme. Se a crise tivesse ocorrido
daí a um ano, depois que a guerra fria começou a dominar o pensamento do
Ocidente, excluindo quase tudo mais, é provável que as forças
anti-sionistas se revelassem resistentes demais para Truman. No pé em que
estavam as coisas, o apoio dos EUA a Israel em 1947-48 foi o último gesto
de luxo idealista que os americanos se permitiram antes que sobreviessem as
verdades do confronto global.
- Portanto, em termos de política soviética e americana, Israel passou a
existir quando atravessou uma janela que se abriu por um breve momento e
também de súbito se fechou. Mais uma vez, o momento certo, ou, se alguém
preferir, a providência, foi decisiva.
- Se foi necessário meio século para transformar a idéia do sionismo em
realidade, a realidade em si tem agora meio século. Ao longo dos últimos
50 anos, surgiram diferentes opiniões sobre Sião. Uma imagem foi a de Sião
como renascimento refulgente, uma nova Cidade de Davi. Houve primeiro a visão
do judeu piedoso para quem Sião era um evento religioso e a criação de um
lar nacional materialista, quanto mais de um Estado secular soberano, era no
mínimo irrelevante. Tais judeus voltaram para a Palestina, e para Israel, a
fim de rezar e cumprir as leis religiosas e incentivar (e, quando possível,
compelir) outros a também fazê-lo.
- Depois houve a visão dos verdadeiros pioneiros que foram redimir e
trabalhar a terra e fazer com que as áreas desérticas florescessem, como
agricultores independentes ou, mais freqüentemente, como membros de um
kibutz ou de uma cooperativa. Eles eram colonizadores, mas também, em sua
maior parte, democratas, igualitários e socialistas.
- Os judeus asquenazitas, procedentes principalmente do Leste Europeu, foram
colonizadores contra a própria vontade. Pegavam terras que nunca tinham
sido cultivadas antes ou eram mal cultivadas.
- O Estado, pequeno mas complexo, cuja fundação David Ben Gurion
proclamara no dia 14 de maio de 1948, tinha um sistema original de taxação
e um número medonho de regulamentos. Ninguém ficou rico, legalmente pelo
menos. Os empresários situavam-se nos baixos escalões da sociedade.
- Ben Gurion teria sido socialista? Ele era sem dúvida um idealista à sua
moda. Mas foi também um mestre da realpolitik e um improvisador de gênio.
Mas certamente se julgava socialista. Seu Israel era socialista?
Historiadores revisionistas desmentem pesarosamente a afirmação,
descrevendo o país como uma empreitada pseudo-socialista na qual as exigências
predominantes do nacionalismo tinham precedência sobre os valores humanitários.
- Israel parecia de certa forma diferente. Visitar o país era receber não
um bafejo, mas um largo hausto de socialismo concretizado em seu melhor
estilo - e do modo mais exaustivo. Qualquer que fosse a forma política do
jovem Estado, uma coisa ele não era nem podia ser: um exemplo para seus
vizinhos mais próximos. A guerra de 1948-49 terminou não em paz, mas num
armistício, ao qual se seguiram décadas numa corrida armamentista
desesperada, boicote econômico dos árabes, terríveis atos de violência e
a guerra total.
- Não quer dizer que o antigo sonho da reconciliação tivesse tombado à
margem do caminho. Algumas figuras públicas israelenses até gostavam de
argumentar que o ódio dos árabes a Israel era um caso de identidade falha:
os árabes viam erroneamente o Estado judeu como potência colonizadora, um
ponto de apoio do imperialismo ocidental ou uma versão moderna do reino
medieval dos cruzados. Para corrigir essa imagem inadequada, Israel
precisaria "naturalizar-se", tornando-se um autêntico Estado do
Oriente Médio.
- A coalizão do Partido Trabalhista, no governo, flertou durante muitos
anos com uma política baseada nessa idéia. Mas a concepção era impraticável.
Em primeiro lugar, Israel não podia dispensar suas viscerais relações
militares e financeiras com os EUA, a fons et origo (fonte e origem) do
"imperialismo ocidental". Em segundo lugar, Israel não era nem
conseguiria tornar-se um Estado do Oriente Médio como os outros Estados do
Oriente Médio, nem seu povo poderia pretender ser árabe e judeu.
- A ironia nesse ponto é que havia de fato muitos judeus do Oriente Médio
em Israel (erroneamente chamados sefarditas). Tendo sofrido nas mãos de árabes,
eles não alimentavam a sonhadora boa vontade de alguns fundadores
asquenazitas e de seus sucessores. Ao contrário, os sefarditas consideravam
os interesses árabes e israelenses claramente distintos e incompatíveis.
- Com o passar do tempo, esses judeus do Oriente Médio tiveram papel
fundamental na política israelense, contribuindo decisivamente para
derrubar o governo trabalhista e encerrar a primeira fase da existência de
Israel: a fase dos ideais e ilusões socialistas, das grandes esperanças
adiadas e das sublimes visões não concretizadas.
- Já a partir de 1977 começou a segunda fase - a fase do realismo
resignado - que continua, duas décadas depois.
- Após muitos anos de obstinação como líder da oposição parlamentar,
Menachem Beguin chegou ao poder em 1977, chefiando a coalizão Likud. Begin
não foi, na história israelense, tão importante quanto Ben Gurion, mas
conseguiu um segundo lugar bem perto dele, e os dois homens de aço tinham
muito em comum. Ambos eram obstinados, tinham opiniões próprias, e, até
onde pude perceber, eram totalmente destemidos. Mas Beguin, que passara os
anos iniciais da 2ª Guerra Mundial no Leste Europeu, era também amargo, de
um jeito alheio a Ben Gurion. Tinha um bom motivo: a maior parte de sua família
fora morta no Holocausto.
- Antes de finalmente chegar a primeiro-ministro, Beguin havia perdido,
segundo calculo, mais eleições gerais do que qualquer outro líder partidário
em toda a história dos regimes democráticos. Portanto aprendera
naturalmente a ter paciência. Mas, no poder, sabia agir resolutamente. Dois
dos mais salutares episódios da história israelense são puro mérito seu:
a paz com o Egito e a destruição do reator nuclear iraquiano em Osirak.
- A paz com o Egito fez toda diferença para a segurança de Israel. Receei
muitas vezes pelo país nos anos 50 e 60 e mesmo após sua vitória na
Guerra do Yom Kippur, em 1973. Mas, quando o presidente egípcio Anuar Sadat,
homem sério e perspicaz, assinou os acordos de Camp David, respirei
aliviado. Conforme pensei, Israel estava seguro até onde era possível
enxergar no futuro. Graças à política realista de Israel, às vezes
ultra-realista e necessária, tornara-se possível um processo de conciliação
com seus vizinhos. Esse processo vem avançando desde os tempos de Beguin.
- O colapso do comunismo soviético foi quase tão auspicioso quanto a paz
com o Egito. A volta da Rússia às fileiras das grandes potências
convencionais retirou a última esperança séria dos extremistas árabes de
que, se esperassem e combatessem por um tempo suficiente, conseguiriam a
solução apocalíptica que desejavam para o "problema" de Israel.
A Rússia continuará sendo sem dúvida importante elemento no Oriente Médio
e às vezes vai causar transtornos ali - principalmente à medida que o país
formular políticas menos confusas que as atuais.
- Na verdade, alguns inimigos de Israel continuam intratáveis, ao passo que
outros esperam para ver o que o tempo e a oportunidade lhes reservam. Haverá
muitas etapas angustiantes a negociar para que o país possa respirar
aliviado. Eis por que, na minha opinião, é especialmente auspicioso o fato
de Binyamin Netanyahu ser hoje primeiro-ministro. A exemplo de Ben Gurion e
Beguin, seus grandes antecessores, ele é figura que motiva críticas
ferozes e até ódio. Embora ideologicamente parecido com Begin em seu misto
de insensibilidade abrandada pelo idealismo, ele na verdade lembra mais Ben
Gurion. Sua abordagem geopolítica também se assemelha à de Ben Gurion,
embora, tendo sido diplomata, ele também saiba ser maleável, ao passo que
Ben Gurion era muito mais duro.
- Netanyahu difere de Ben Gurion porque está decidido a reordenar a
estrutura coletivista que ficou da fase inicial do Estado. Eis algo muito
bom: Para Israel já está na hora - já passou da hora - de adotar a
thatcherização e a privatização. Mas, por causa de sua economia
renitente e sob certos aspectos esclerosada, a tarefa é enorme.
- Esse é, de qualquer forma, o caminho a seguir. A economia global requer
pessoas instruídas e motivadas e, sob este aspecto, Israel leva evidente
vantagem. A maior tarefa, para cuja execução Netanyahu está bem
preparado, é criar uma sociedade na qual - em condições de paz - os hábeis
filhos de Israel queiram permanecer e onde possam confiar que prosperarão.
- Israel é uma nação de elite; na minha opinião, é isso o que ele deve
ser, sem pejo, incentivando e preparando seu povo para ficar na vanguarda da
atividade mundial na agricultura e indústria, na tecnologia, nas artes, no
ensino e na administração, na conquista e preservação da natureza.
Israel precisa ter seu lugar no concerto das nações (só para tomar de
empréstimo o título de um livro de seu primeiro-ministro). Mas não é uma
nação como as outras nações. Querendo ou não, ele é e continuará
sendo sui generis, com seu povo moldado pelos terríveis acontecimentos de
nosso século e marcado pelo destino.
- Paul Johnson é autor de A History of the Jews (HarperCollins, em
brochura, 1988) e, mais recentemente, de A History of the American People (HarperCollins,
(PE)1998).
Esperança
e temor dividem a população
MOACIR AMÂNCIO
JERUSALÉM - "Estamos um pouco mais
velhos." É a única frase, acompanhada de um sorriso quase imperceptível
para suavizar a gravidade do tema, que Benjamin Roisman, Jimico, veterano de
Bror Hail, o "kibutz brasileiro", profere ao comentar o cinqüentenário
do Estado de Israel. Para um povo que sofre do excesso de história, meio século
é mesmo muito pouco. Enfim, pelo calendário judaico estamos em 5758 da
criação do universo.
- Nesses 50 anos, porém, ocorreu o fato que supera os quase 2 mil anos
posteriores à destruição do Segundo Templo, com o início da dispersão
judaica e o desajuste das dezenas de comunidades nos mundos cristão e muçulmano.
Houve, claro, momentos de glória, como a criação do Talmude Babilônico,
série de tratados jurídicos, religiosos e filosóficos que definem, ainda
na Antiguidade, um modo específico de ser judeu. Houve também o esplendor
cultural tanto religioso quanto laico na Península Ibérica medieval. Mas
os séculos da Inquisição, os pogroms e o genocídio perpetrado pelos
nazistas dão o tom à questão judaica do desenraizamento. A resposta possível
está nesse período durante o qual surgiu um país moderno, com vocação
de Primeiro Mundo, mas fatalmente encravado no Terceiro.
- O Produto Nacional Bruto (PNB) per capita chega a US$ 18 mil anuais. Os
gastos com a defesa são brutais (cerca de 8% do PIB de US$ 100 bilhões em
1997) e há o esforço para a absorção de novos imigrantes, que chegam em
grandes ondas intermitentes a Israel: nos anos 50 foram os iemenitas e os
marroquinos e ultimamente são os etíopes e os russos (estes, perto de 800
mil em sete anos).
- Apesar de encravado no Oriente Médio, entre o Líbano, a Síria, a Jordânia
e o Egito, Israel participa ativamente do mundo globalizado: no interior, um
garoto ganhou notoriedade ao quebrar os sistemas de segurança dos
computadores do Pentágono e nas ruas discute-se a liberação de moeda
estrangeira para a população, que assim poderá preparar-se para a chegada
do Euro, a moeda única européia.
- Entre outras peculiaridades israelenses está o índice de desemprego de
8% (em janeiro) ao lado de 250 mil trabalhadores estrangeiros
(latino-americanos, romenos, filipinos, africanos), que substituíram os árabes
da Cisjordânia (medidas de segurança) no trabalho braçal e constituem uma
nova questão social do país. O ministro das Finanças, Iacov Neeman, tem
um plano que inclui a redução do número de estrangeiros e investimento em
infra-estrutura. Em março, houve salto de 6,5% no desemprego, atingindo
163,4 mil pessoas. Ao mesmo tempo, um tailandês é acusado de violentar e
estuprar uma moça. Mais um tema de debate para os israelenses.
- Israel talvez seja o país que mais discute seus problemas no mundo. Na
televisão, no rádio, na universidade, na rua: cada um tem sua opinião e não
sente o menor receio nem inibição em defendê-la, num reflexo saudável da
tradição dialética do Talmude. Essa pujança também se manifesta na prática.
Saídas são procuradas obsessivamente.
- O jeito de morar do israelense está mudando, por exemplo, com as vistosas
construções de um bairro como Mevasseret, nas cercanias de Jerusalém, uma
bonita idéia para a urbanização das colinas: casas mais amplas, muito
diferentes dos pequenos apartamentos populares, construídas na forma de
degraus, mimetizando as terraças naturais, de pedra, abundantes na região.
Ao mesmo tempo, cientistas e técnicos anunciam ter conseguido produzir
melancia e pimentão sem sementes, além do mais divertido, que pode ser
visto como uma metáfora para o futuro: o figo-da-índia sem aqueles incômodos
espinhos na casca. Em hebraico essa fruta sechama sabra, denominação dada
aos judeus nascidos em Israel, porque, no projeto sionista, eles seriam ásperos
por fora e doces por dentro.
- Gente preparada para a autodefesa, contrapondo-se ao homem
"fraco"da Diáspora européia devastada pelos genocidas. Mas,
enquanto não houver espaço para o afloramento dessa doçura interna, os
israelenses continuarão a viver a dicotomia desses 50 anos, divididos entre
a criatividade social, científica, literária e artística e o conflito com
os árabes, que assume novas feições, depois da Guerra do Golfo.
- A invenção arquitetônica e a expansão urbana adquirem um sentido
sombrio quando se observa que já não é dada tanta atenção à construção
de bunkers por causa da ameaça das armas químicas. O antigo refúgio para
o caso de ataques aéreos talvez seja até aposentado, dando lugar a novos
projetos nos quais as casas ganham portas capazes de vedar a entrada de
gases venenosos - uma preocupação constante fortalecida pelas denúncias
de arsenais químicos no Iraque.
- Israel, que aprendeu a dividir seus períodos históricos pelas guerras,
vive um tempo estranho, posterior ao assassinato de Rabin e a uma guerra que
não houve. Cena característica durante o suspense estabelecido pela pressão
norte-americana para a inspeção de locais suspeitos de estocar armas químicas
no Iraque e a resistência do ditador Saddam Hussein: turistas podiam
comprar, por cerca de US$ 70, máscaras de gás numa loja de Tel Aviv.
Israelenses se ressentiram porque os visitantes não precisavam enfrentar
fila para obter sua máscara.
- Pois bem, dessa vez não houve a segunda Guerra do Golfo, mas o horizonte
continua nublado, porque até agora Israel não conseguiu realizar a paz com
os árabes. Ido Recanati é um rapaz de 24 anos. Ele estuda estilismo em
Tel-Aviv. Na sexta-feira, viaja para Jerusalém, onde vivem os pais. Em vez
do ônibus, escolhe o serviço de lotação entre as duas cidades. Prefere
ser cauteloso e, assim, evitar um atentado como outros que já ocorreram nas
linhas regulares de Israel. No interior da perua ele observa, com ironia, a
existência de oito árabes que também utilizam o serviço de lotação
para evitar constrangimentos, como revistas repentinas na rodoviária. Na
perua, apertados nos bancos, viajam árabes e judeus tentando proteger-se,
cada qual com seus motivos. Um fugindo do outro para o mesmo local. Quando
os árabes descem, uma mulher de Gana, trabalhadora estrangeira, chama
aquele que esquecera a pasta embaixo do banco e pergunta irritada, em inglês:
"Ei, isso não é seu?" Ela não teve tempo de aprender hebraico,
mas já entendeu muito bem o que significa o aviso constante em placas
pedindo atenção para objetos suspeitos.
- Recanati acha que o clima não é adequado para festejar os 50 anos,
porque não há "felicidade". A propósito, conta que a namorada,
colega de estudo, fez um projeto carregado de originalidade local e muito
humor negro. Trata-se de um vestido para mulher gorda, inspirado na explosão
do ônibus número 5, em 94. O vestido, todo preto, tem furos para permitir
que a gordura da hipotética modelo apareça em bolhas e assim, no
contraste, sugira o horror. Ele viveu quatro anos na Itália e pensou em
trabalhar como segurança no Brasil - "o dinheiro é bom." De
qualquer forma, o Brasil não saiu de seus planos. Talvez faça um estágio
como designer em São Paulo ou no Rio.
- Deixar o país pelo menos por certo tempo é uma necessidade para os
jovens israelenses. Antes, depois do Exército, como exercício de
conhecimento do mundo e rompimento das barreiras que cercam o país, entre o
mundo árabe inimigo ou apenas meio inimigo e o Pacífico. Sair
definitivamente é um ato carregado de negatividade. A palavra hebraica para
imigração é aliá, que significa tanto ida como subida. Pela lógica,
portanto, quem abandona Israel faz a ieridá, a descida, baixa na escala
moral sionista. O contraste torna-se mais forte num momento em que Canaã é
buscada pela gente do Terceiro Mundo como tábua de salvação econômica.
Mercedes Ramirez, filipina de 38 anos, deixou o marido e dois filhos para
defender os seus shekels. Veio com uma família israelense, toma conta da
casa e trabalha como faxineira "para fora" ganhando 20 shekels por
hora (US$ 1 - 3,5 shekels). Ela pretende retornar ao seu país em dois anos.
O marido de uma colombiana foi preso e deportado por não ter licença de
trabalho. A mulher ficou com a filha, pequena.
- Esses detalhes e problemas, no entanto, provam para Meir Cohen,
vice-diretor de Projetos no Centro de Cooperação Internacional do Ministério
do Exterior, nascido em Jerusalém, que ele tem um país. "Os problemas
são normais, equivalentes a problemas comuns em outras partes do mundo.
"Ninguém gosta do conflito com os árabes", observa, "mas é
o que há, não tenho outro país, qual a alternativa?" Dois dias antes
seu filho de 18 anos fora para o Exército. "Como eu já fui."
Para Cohen, de 51 anos, o importante é que ninguém poderá dizer que esta
terra não é dele. Termina com uma expressão corriqueira em Israel:
"Ma laassot?" Fazer o quê? David Blorian, de 55 anos, merceeiro
no bairro Moshavá Guermanit, também evoca a tese de que Israel é o lar
natural dos judeus. Nascido no Irã, perto da Turquia e do Iraque, Blorian
declara-se iraniano e só confessou ser curdo depois de ouvir elogios à
cultura dessa comunidade, vítima de preconceito. Quando criança, falava
aramaico (os judeus curdos são uma das poucas comunidades no mundo que
ainda usam esse idioma, antiga língua franca do atual Oriente Médio). Ele
evoca o perigo xiita para justificar sua saída do Irã e a permanência em
Israel. E lembra uma história da terra das mil e uma noites. Segundo
Blorian, o xá Reza Pahlevi era realmente amigo dos judeus e, durante a
derrocada, batia na porta da casa de cada um deles perguntando: "Quanto
você tem?" Depois, acrescentava alguma quantia sobre aquele dinheiro
seguida pelo conselho de que a família deveria deixar o país. "Ele
sabia, o perigo xiita prossegue aqui." Muitas histórias pessoais em
Israel representam em micro o épico da construção do Estado.
- Guideon Ambaiê veio da Etiópia na Operação Moisés e estuda medicina
chinesa. É casado com uma asquenazita e tem uma filha. Reclama do
"preconceito de certos rabinos" que não vêem os etíopes como
judeus plenos. "É preciso acabar com isso e unir o povo, depois de
tanto sofrimento, é preciso construir em conjunto", afirma,
rememorando antigas palavras de ordem israelenses. Lembra também que o
termo "falasha" usado na Etiópia para designar os judeus é
pejorativo, significa "povo sem raiz". Admite, apesar disso,
sentir alguma saudade da juventude no país de origem, onde a língua também
é semítica -- há palavras que são idênticas às usadas em hebraico,
como tsadik, justo -, mas não tem dúvida quanto ao seu futuro israelense.
"Aqui é o lar judaico." Só tem dúvida quanto ao atual rumo da
política.
- Essa também é a dúvida de Ruth Siboni, dona de um café e sorveteria no
centro de Jerusalém, cidade onde as tensões israelenses se manifestam com
mais intensidade - cerca de 130 mil árabes vivem na Cidade Velha e perto de
500 mil, maioria judia, fora e na parte ocidental da área. Para ela, o
governo não está levando o país para a paz. "E, se a direção não
é a paz, o que resta é a guerra", afirma essa moça que passou um
tempo na Itália, onde aprendeu o ofício, enquanto reclama da ineficiência
dos serviços da prefeitura, que cobra impostos absurdos e não consegue
manter o pavimento da rua em ordem. Também critica a pressão religiosa -
outra coisa particularmente intensa em Jerusalém, onde o comércio fecha e
o transporte público não funciona aos sábados, ao contrário de Tel -Aviv
e Haifa. Para ela, não há democracia em Israel. "Democracia só haverá
com a separação efetiva de Estado e religião." Mas depois responde,
com olhar desafiador, enquanto prepara café capuccino para o jovem, alegre
casal de religiosos numa das mesas: "Sabe por que estou aqui? Porque
sou judia e israelense." Blorian, Ambaiê e Siboni sinalizam para questões
fundamentais, que persistem com necessárias implicações políticas: e
atrito no convívio das diferentes comunidades, originárias de 80 países,
com tipos e culturas diferentes e o empurra-empurra entre
"religiosos" e laicos. São as questões internas de Israel,
geralmente disfarçadas ou deixadas de lado por causa da urgência árabe.
- Existem aqui expressões óbvias sobre a comunidade de David Blorian:
"cabeça de curdo" e "trabalho curdo". Há pessoas que não
querem etíopes na vizinhança, temendo doenças e a pele negra. Judeus de
origem sefardita (hispano-portuguesa) e orientais, identificados todos como
sefarditas porque muitos desles vieram após um estágio secular em países
do Levante. Eles ainda se queixam de discriminação por parte dos
asquenazitas, ou de origem "alemã", que falavam o íidiche,
idioma de base germânica.
- Só um terço da população é religiosa na concepção corrente em
Israel, mas Ido Recanati e outros jovens precisam dar um jeito para freqüentar
uma discoteca nas noites de sexta-feira, porque os ultra-religiosos são
contra isso, baseados nos textos judaicos. Rapazes e moças podem dormir
naturalmente juntos na casa dos pais, mas têm de procurar discotecas
isoladas nos bairros operários para outra diversão, enquanto os demais
viajam ou procuram um cinema quase secreto ou vão a alguma localidade árabe
comprar cigarros.
- Há pouco, passou no Parlamento uma lei proibindo a importação de carne
suína. Casamentos oficiais, só religiosos, em qualquer religião. Um judeu
da casta sacerdotal (cohen) não pode casar-se com uma divorciada ou viúva,
pela lei judaica. A solução é procurar um advogado e fazer um contrato,
ir para Chipre ou usar os serviços da embaixada paraguaia. Acontece que os
"religiosos", os "haredim (tementes), os ortodoxos (há
diversas ortodoxias, às vezes extremamente rivais) sabem usar o sistema. O
partido Shas (o nome é uma sigla para os Seis Tratados do Talmude, mensagem
um tanto clara), representante dos ortodoxos sefárdico-orientais, tem dez
cadeiras no Parlamento, o que lhe dá amplo poder de manobra e negociação,
num plenário dividido, sem contar o ministro da Justiça, pertencente às
suas fileiras: Tzachi Hanegbi. E mais, o partido pretende apressar a obtenção
de títulos universitários para seus membros que assim poderão conseguir
cargos mais elevados no funcionalismo, ampliando a presença na máquina
estatal. Há quem veja em um de seus líderes, o habilíssimo político e
rabino Arieh Dery, um provável candidato a primeiro-ministro no futuro.
- Até onde isso pode levar, ninguém sabe. O escritor Yoram Kaniuk, que já
comparou o país a um misto de piquenique e loucura, escreveu um artigo
propondo a volta da antiga separação entre Israel e Judá. Israel seria de
Tel-Aviv para cima, Judá, Jerusalém e arredores. Com isso, teríamos dois
universos diferentes, judeus laicos em Israel e religiosos em Judá.
Evidente, trata-se de um artigo humorístico, porém esclarecedor. A sugestão
de Kaniuk revela a contradição estrutural do Estado.
- Ella Belfer, da Universidade Bar Ilan, observa que na fase de criação do
Estado Judeu, a maioria era laica, porém o caráter judaico de Israel seria
dado pela religião, pontuada pelas grandes festas, como o Pessah (Páscoa),
Rosh-Hashaná (Ano Novo) e Yom Kippur (Dia do Perdão), alinhavadas pelo
descanso sabático. Isso com base no fato de que os religiosos eram minoria,
e uma minoria dividida em três: religiosos, religiosos sionistas, poucos, e
os tradicionalistas das comunidades orientais que jamais tinham sido laicos
profissionais, mas também jamais tinham sido fundamentalistas. Para eles não
havia problema em ir à sinagoga pela manhã, aos sábados, e depois jogar
futebol.
- "O ctuv (texto bíblico, literalidade) é fenômeno asquenazita",
assinala. E havia ainda os haredim, anti-sionistas, mas que, como vemos,
participam ativamente e disputam lugares na sociedade civil de Israel,
apesar da sua negação teológica do Estado Judeu, por contrariar profecias
sobre a vinda do Messias. Isso, além de um pequeno grupo que sonhava com a
criação de um Estado liberal, ocidental, laico. Enquanto a maioria pensava
num Estado democrático e judaico. "O que aconteceu? Os dois extremos
ganharam: o sonho laico de se criar um Estado como os demais teve sucesso
(imprensa livre, parlamento, etc.) Mas o segundo lado também teve êxito.
Os religiosos se multiplicaram, a cultura deles é muito bem-sucedida. Os
dois extremos tiveram êxito, tanto os laicos extremistas como os religiosos
extremistas. Existe uma área de erosão entre eles. A síntese, o judaísmo
democrático, precisa explicar o que é. Ben Gurion pensava que o judaísmo
haredi tinha passado, ele errou. O rabino Kuk (líder religioso do início
do século) pensava que o laicismo desapareceria, também errou. É muito
difícil, mas fascinante. Um francês não se pergunta todo dia o que ele é,
como fazemos, pois ainda não resolvemos a questão, ainda não completamos
a revolução sionista." A questão das conversões passa por tudo
isso. Os ortodoxos lutam para manter conservadores e reformistas (ambos
menos ou mais liberais) fora do sistema, embora eles representem a maior
parte dos judeus fora daqui.
- Essa é uma das discussões mais fortes no país, porque exige uma
resposta pora esta pergunta: como viver? O ator, cantor, humorista e
escritor Iossi Banai, espécie de unanimidade nacional, detentor da mais
prestigiosa homenagem cultural do país, o Prêmio Israel, recorda a infância
na área do mercado de Mahanê Iehudá, em Jerusalém, para justificar sua
indignação com a situação atual. Descendente de judeus iranianos, de
Shiraz, pessoas "espontaneamente" religiosas, mas sem nenhum
fanatismo. Hoje, reside em Tel-Aviv e não reconhece a atmosfera da cidade
natal. Para ele, a fé e a religiosidade são importantes e belas, mas
critica a fusão de política com todo tipo de "interesses" e
religião. E traz de volta a questão das comunidades ao lembrar que o Shas
surgiu à parte de outra agremiação política religiosa, o Agudat Israel,
asquenazita.
- O ponto implicaria negação do propósito sionista original, que era
criar uma sociedade homogênea, tendo o "novo judeu" por meta. A
tentativa de homogeneizar os "novos imigrantes" do momento provou
ser um equívoco, a diversidade tornou-se índice de pluralismo cultural.
Existe um prato em Israel, de acordo com a lenda criado para atender
jornalistas do Jerusalém Post que deixavam o trabalho no fim da noite. Reza
a lenda que alguém teve a idéia de servir refeições rápidas, feitas na
chapa: miúdos e fiapos de carne de galinha, etc., tempero à base de
cominho, acompanhando pimenta, etc. Ao comer, é possível sentir o gosto de
cada ingrediente sob o domínio harmonizador do cominho, de aroma imponente.
É o "Meorav Ierushalmi", "Misto de Jerusalém", possível
ponto de partida para quem quiser conhecer a sociedade israelense. Ou de
chegada.
- Pois a culinária é indicador seguro da variedade social em Israel, uma
paleta de tons fortes e nuances entre o ouro dos assados marroquinos, as
gradações do verde das azeitonas, que também são pretas como os olhos da
cantora Ofra Haza, ao vermelho dos molhos e temperos surpreendentes.
- Do famoso "Meorav", passa-se ao popular kebab, espécie de hambúrguer
levantino com diversos tipos de acompanhamento, ao húmus, ao falafel, às
azeitonas temperadas de várias maneiras, ao ossobuco, ao espaguete com
pesto, à pizza, ao churrasco à moda argentina, ao filé com fritas estilo
americano e, graças à onda dos trabalhadores estrangeiros, pode-se comer
alguma coisa da Tailândia. Sem falar na possibilidade sushi-sashimi. É a
parte colorida.
-
Judeus
orientais querem conquistar posições
O processo social pode ser doloroso. Nos anos 50 já havia orientação contra
imposição de valores culturais aos "novos imigrantes" procedentes
dos países árabes, a não que estes quisessem.
Moshê Lissak, da Universidade Hebraica de Jerusalém, diz que os recém-chegados
sentiam que os asquenazitas dominantes controlavam a situação e davam as
ordens. "Em grande medida com razão", acrescenta. Os médicos e
enfermerias irritavam-se pois suas orientações sobre higiene e cuidados com as
crianças eram rejeitadas, o que simplesmente provocou a morte de muitos bebês.
"Mas em quase todos os setores eles sentiam que a intromissão nas suas
vidas era muito grande."
- "A sociedade israelense ainda paga o preço dos anos 50, pois todo o
tempo culpam os asquenazitas de patronagem, de tentar organizar a vida
deles, por aí." Ao mesmo tempo, surgiam estereótipos, como aqueles
sobre os curdos e os tchah-tchahim - referência pejorativa ao sotaque
marroquino, sinônimo de ralé.
- O que corre é que os russos são bêbados, ladrões, mafiosos, drogados,
malandros e, as russas, procidentais, fora o alt? ?,?dobrou
o número de médicos no país, qu ao dos etíopes, que saíram de outro século
para o atual, ou dos marroquinos, à época. O problema dos russos foi
exatamente o nível cultural elevado, embora nem sempre conforme os padrões
ocidentais, fora o alto índice de pobreza. "Com a imigração russa
dobrou o número de médicos no país, que era de 12 mil", diz Lissak.
Se o índice de médicos per capita já era um dos mais altos do mundo em
Israel, já não havia o que fazer com os recém-chegados. Foi difícil,
muitos deles foram desempenhar funções importantes, mas que dispensam
diploma, como varrer a rua, vigiar supermercados."Não havia saída."
De repente sobravam músicos e professores de piano. No entanto, segundo
Lissak, 70% foram bem absorvidos, até porque a chegada rápida de tantos
imigrantes também provocou aumento na atividade econômica, com a
necessidade da maior produção de bens de consumo. Sinal do rápido sucesso
dos russos em Israel é que, além da presença crescente no mercado de
trabalho, eles já têm partido próprio, Israel beAliá (Israel em Ascensão/Imigração),
com cacife suficiente para conquistar o Ministério da Indústria e do Comércio,
entregue ao histórico Natan Sharanski.
- Para que se tenha uma idéia do peso das comunidades na política
israelense basta observar que os russos se situam à direita. Caso
estivessem à esquerda, Shimon Peres seria o primeiro-ministro, e não
Biniamin Netaniahu. Os etíopes contam com um deputado, integrado ao
movimento trabalhista. Os marroquinos e outros grupos sefárdico-orientais têm
o Shas, mas espalham-se pelos outros partidos e contam com diversos políticos
no primeiro plano israelense, como David Levy. No entanto, a representação
étnica ainda e para não variar, continua em debate - o ressentimento e
problemas reais servem de combustível: há marroquinos que se apresentam
como franceses.
- Nos anos 60, o descontentamento de marroquinos teve expressão nos
Panteras Negras, "um grito", como define Meir Buzaglo, de 39 anos,
professor de filosofia. Buzaglo nasceu em Casablanca. "Nós admiramos
os Panteras", diz, mas o momento é outro. Ele está unido a um grupo
de universitários que criou o movimento Keshet Misrahit Democratit (Arco
Oriental Democrático - o arco tem duplo sentido, pode ser tanto o arco-íris
da esperança e do amanhecer pós-diluviano, como o disparador da flecha).
Ainda não existe uma caracterização partidária no movimento. O
importante para eles é criar canais que permitam a melhoria das condições
de vida dos "orientais". Mas, como bons intelectuais, estão
atentos também para a revalorização das culturas levantinas que, aliás,
se fazem muito presentes sobretudo na música popular.
- "Depois de todo o milagre, depois da absorção de todas as imigrações,
da vinda de pessoas de todos os continentes, depois da realização do
sonho, nós despertamos", diz Buzaglo. E a realidade já pertence a um
"país normal". Segundo Buzaglo, com exceção do Shas, para os
haredim, os orientais (mizrahiim), parte importante da população, não
tinha quem a representasse. "Eram usados, mas não representados",
diz. Segundo ele, os asquenazitas, o kibutz, já não têm o que dizer. Os
orientais, na sua opinião, ainda são uma resposta ao negativismo sionista
inicial, que pregava o esquecimento do passado. A coexistência de diversas
culturas, algo que tem aspectos positivos óbvios, também pode ser
perigosa, na opinião do crítico literário Nissim Calderón, sefardita de
origem búlgara. "Por exemplo, o que a sociedade israelense compreendeu
após o assassinato de Rabin é que o crime foi cometido por caua do
processo de paz, mas por baixo disso revela-se a inimizade entre as várias
culturas no país", diz referindo-se ao fato de que o assassino tem
origem iemenita, é "oriental". Na verdade, há uma tensão muito
forte em toda a sociedade, segundo ele. "As pessoas lêem jornais e
pensam que somos um bloco diante dos árabes,
mas não é assim, não há o israelense, mas os israelenses diante dos árabes,
com muitas culturas diferentes. Além disso, se os judeus brigam entre si,
ocidentais e orientais, não conseguem se dedicar realmente às questões
com os árabes."
- Calderón não esquece a riqueza da pluralidade , mas faz questão de
assinalar que ela tem um "lado mórbido, a agressividade. Para Ella
Belfer, os judeus ainda não conseguiram apreender o sentido da convivência
plural, um dos grandes desafios da hora. (M.A.)
-
-
-
-
Sionismo
é ideologia com novas opções
MOACIR AMÂNCIO
JERUSALÉM - O patriarca dos escritores
israelenses, Izhar Smilansky, que assina S. Izhar, tem 82 anos. É filho da
primeira aliá, ou imigração. Sobrinho de outro escritor, Moshê Smilansky,
que escreveu histórias sobre personagens árabes, com quem convivia. Seu
estilo é poético. Vive em Meishar, perto de Rehovot, onde nasceu. Foi
jornalista e ainda ensina literatura na universidade, uma vez por semana. O
mais, é o cenário dos pomares de toranja (termo português para grapefruit)
e laranja. Smilansky é testemunha da história de Israel anterior à criação
do Estado e viveu o ressurgimento do hebraico que, como diz, deixou de ser
um idioma dos olhos para se tornar um idioma da boca. Um gigante, física e
intelectualmente, que avalia a dimensão da formação do Estado na
perspectiva da história judaica e ocidental para dizer em tom decidido:
"Tudo isso está em perigo." Para ele, uma trajetória suicida
começou com o assassinato de Itzhak Rabin, no dia 4 de novembro de 1995, em
Tel Aviv, por um estudante fanatizado. O grande sonho estava muito perto.
Com Rabin, "eu acho que haveria paz agora, paz com a Síria, paz com os
palestina, eu acho que Israel teria agora boas relações com todos os países
árabes ao redor". A subida de Binyamin Netaniahu ao poder foi catastrófica,
na sua opinião. "Eles não querem paz, eles não querem pagar nada,
eles querem manter tudo e que os árabes nos dêem a paz." Smilansky
cita a Bíblia para dizer que a região sempre foi habitada por dois povos,
que a receberam por dádiva divina. Sem paz, ele não vê como será possível
viver em Israel: "Os Estados Unidos e a Europa já começaram a tomar
atitudes contra este país, sem o comércio com o Ocidente Israel está
morto." Além disso, observa que os países árabes hoje são
militarmente fortes. Já não se pensa em campo de batalha tradicional, mas
em mísseis.
- Essa ameaça, que espreita no céu, tem contraponto no rés-do-chão, no
presente. Para Iossi Banai, uma das cordas vibráteis da alma israelense, a
existência em Israel é uma tragédia. "Nós já estamos acostumados,
mas não há dia em que não matam um soldado no Líbano, não há dia em
que alguém não é morto em algum lugar, o terror, as bombas, o Hamás,
esta é a vida." Banai não quer dizer que outros países estejam
livres de problemas. Pode haver um atentado na Inglaterra, na França,
"mas nós vivemos em cima de um barril de pólvora". A sensação,
acrescenta, é de que não existem líderes sábios em Israel. "Um
estadista, na minha opinião, como Shimon Peres, está fora, riem
dele." Israel foi criado porque os judeus não tinham para onde ir,
observa o romancista Yoram Kaniuk. "No começo, 300, 400 mil judeus
chegaram aqui, dos países europeus, ninguém os queria, Brasil, Argentina,
Estados Unidos, Inglaterra, ninguém." Foi preciso fundar um país,
"à custa dos árabes, pois esta era a terra deles, o que é injusto,
mas foi assim, não tínhamos para onde ir". Nos 30 anos posteriores à
criação do Estado foram realizadas coisas grandiosas, com todos os erros,
mas foi recebido um número três vezes superior de pessoas ao que havia
aqui, construíram a economia, a tecnologia, a cultura, não havia nada
aqui. Participei do resgate de refugiados da Europa e da Guerra da Independência,
extremamente violenta, na minha divisão, de 1,2 mil soldados, 400 foram
mortos. Influenciou muito a vida no país. Depois vieram os sobreviventes do
Genocídio, é muito difícil criar um país normal com isso, mas mesmo
assim conseguiram fazer algo." Também para Kaniuk, o problema está na
direção do governo. Ele volta ao perigo assinalado por Smilansky: a
perspectiva de nova guerra.
- Iehudit Hendel, pioneira das autoras israelenses, publicou seu primeiro
livro no início dos anos 50 e foi uma nota discordante na literatura heróica
praticada até então pelos seus colegas. Numa de suas histórias, por
exemplo, conta como um pai vai até o cemitério de soldados, onde estão os
restos do filho. Começa a chover, o pai tira o casaco e o coloca sobre o túmulo.
"Quase não há família que não tenha um morto, meu cunhado morreu na
guerra, desde que me lembre sempre houve guerra aqui, acho que as pessoas
estão muito cansadas de guerras." No outro lado da moeda (ou será o
mesmo?) está o taxista de Haifa R. S., de 35 anos. Ele ostenta uma formidável
cicatriz na garganta, causada por uma granada no Líbano. Aí ele viu três
amigos morrendo a tiros "por causa de um erro militar estúpido".
Podia estar isento do serviço militar anual, mas apresenta-se todo ano.
"Você não pode pensar que o árabe é fraco, que os garotos na
Cisjordânia são fracos, caso contrário estará perdido." Espera
continuar assim até a chegada da paz. E, enquanto a paz não chega,
prepara-se para se divertir em Paris, com a mulher (ela gosta de cassinos),
onde verá a Copa do Mundo - para ele, a seleção brasileira é a melhor.
- Natan Zach, entre os primeiros poetas israelenses, não nasceu aqui. Veio
da Alemanha em 1937 e, no meio tempo, viveu 11 anos na Inglaterra, onde
obteve o douturado. Ele diz, no seu apartamento de Tel-Aviv, a poucos metros
do local onde Rabin foi alvejado, que se tivesse 25 anos, talvez deixasse
Israel: "É difícil viver aqui, sob todos os aspectos. Sob o aspecto
econômico, sou professor universitário, os salários aqui são ridículos,
sob o aspecto da tensão, das guerras, que não param. E a grande decepção,
lógico, após o período em que, achávamos, havia perspectiva, com Rabin e
Peres, eu e meus amigos árabes, poetas árabes, num fórum, nós esperávamos
que haveria alguma mudança. Agora, parece-me que nos próximos 30, 40 anos
não haverá paz aqui. Judeus podem viver em qualquer lugar. Há o mito
sionista, claro, por causa do Genocídio, mas acho que um judeu pode viver
na Inglaterra, na França, na Itália, no Brasil e viver muito bem. O
caminho da política israelense está fechado, estamos no mesmo pântano em
que vivemos há 50 anos. Não tenho filhos. A vida aqui sempre foi tão
complicada que talvez eu tivesse essa idéia de que para um mundo como este
não é preciso trazer crianças." Banai não é tão pessimista.
"O humor me segura, betah" (lógico, claro, batata). Ele espera
algum tipo de mudança. Há pouco a presença militar no Líbano era questão
fechada, agora já falam em retirada unilateral, comenta perplexo. Ao mesmo
tempo, porém, ele se espanta e pergunta, o que é isso? Em outras palavras:
os mortos e os feridos teriam sido realmente necessários? Há alguns anos,
quem falasse com Arafat era preso. Agora, todos falam com Arafat. Ele, que
frisa não ser da esquerda, está convicto de que haverá um Estado
palestino (com segurança; apesar da realidade dos foguetes, fronteira aqui
não é nenhuma abstração), o que implicaria uma alteração no quadro político
israelense. Smilansky pede atos. Para o escritor, os judeus não podem
permanecer em Hebron nem em Gaza. "Sou contra esses assentamentos, uma
ação de colonialismo cujo tempo já passou." A questão da terra, que
sustenta o conflito com os árabes, também divide os israelenses. Para a
"esquerda", a "direita" ameaça o futuro do país com
sua intransigência e obsessão de "segurança". A
"direita", por sua vez, acredita que a "esquerda"
colocaria o país em risco ao entregar territórios em troca de uma paz ilusória.
Enquanto isso, temos essa espécie de guerra a prestação dos
atentados. Em episódio recente, um carro-bomba explodiu em Ramala, antes de
chegar ao seu destino e um terrorista foi encontrado morto. O alvo, segundo
a polícia, seria o centro de Jerusalém. K.S. disse ao repórter: "Há
15 dias roubaram o Fiat da minha irmã. Pode ser que seja o mesmo carro e
minha irmã trabalha no centro da cidade, como imaginar tudo isso?" E há
o conhecido Shalom Ahshav. Amiram Goldblum, de 50 anos, é encarregado pelo
movimento da questão dos "colonizadores" judeus nos territórios.
Conta que, no total, passou dois anos nas guerras. Tem um filho que, ferido,
ficou com um problema na perna. Ele acha que a situação hoje está melhor
do que nos tempos de Itzhak Shamir, quando não havia perspectiva. Mas diz:
"Sem o fim da colonização, tudo pode fracassar."
- Ex-diretor do Comitê das Comunidades em Judá, Samaria e Gaza, Israel
Harel, ideólogo da colonização, religioso,
está convicto de que, pelo contrário, os colonos tornarão possível a
paz, porque sem eles o país não teria, provavelmente, o que negociar com
os árabes. "Veja, a colonização tem dois significados, no tempo dos
50 anos, não é só o significado físico do estabelecimento na área para
evitar a entrega da terra que faz parte de Israel a outro povo, ao inimigo,
há um alcance espiritual muito maior, pelo desprendimento dos colonos.
- "Estamos no momento do individualismo pós-moderno. Mas o símbolo da
colonização é que ainda há pioneirismo, ainda há pessoas dispostas a
fazer coisas não só para si próprias, mas também para os outros, sem
nenhum vínculo com a política." Para Harel, trata-se de uma retomada
do Sionismo. Segundo ele, Arafat só assinou o Acordo de Oslo porque temia a
ação dos colonizadores, que não lhe deixaria espaço, fechando as opções.
- Harel espera que o atual primeiro-ministro não permita a criação do
Estado palestino, mas se isso vier a ocorrer, os colonos vão defender suas
posições politicamente, nada mais do que isso. Na verdade, ele não confia
totalmente em Netaniahu, um "pragmático", que age conforme a
pressão e, dependendo dela, ele seria capaz de fazer o que Peres e Rabin
fizeram, embora tenha "instinto nacionalista".
- Uma novidade em matéria de sionismo vem do grande empresário israelense
Stef Wertheimer, que também é publicista. Fundador do Grupo Tefen, criador
de três parques industriais, Wertheimer defende em artigos entusiasmados
uma nova mentalidade para o país, que se sobreponha aos clichês ideológicos
e à rotina do carisma em Israel. Sua solução para a crise provocada pelo
projeto da construção de moradias para judeus em Har Homá, Jerusalém: em
vez disso, por que não um instituto científico, benefíciaria árabes e
judeus. Para garantir a paz: parques industriais nas fronteiras - quem se
ocupa de produção e exportação não pensa em guerras. Por que não fazer
de Israel uma Suíça?
- Acontece que, além de acertar a vida com os vizinhos, Israel precisa
ainda entender-se com a parte da própria população que não vai festejar
o 30 de abril. Quase um milhão de árabes estão de luto pelo que chamam o
"Dia da Nakba", da Calamidade Por causa dele, cerca de 700 mil
pessoas deixaram Israel e se tornaram refugiadas. Os que ficaram têm
formalmente direitos iguais aos dos judeus, mas as reivindicações que
fazem são no setor sanitário, de educação e moradia. Instalou-se há
pouco uma discussão sobre a possibilidade que uma família árabe teria de
comprar uma casa em área destinada a uso judaico. Um dos deputados árabes,
Abdulmalik Dehamshe, do Movimento Islâmico,
lembra sua condição nacional e a cidadania para repetir que não pode ver
a data como algo normal. "Nós, neste ano, os árabes israelenses , que
somos 20% da população, vemos a data como a data da desgraça."
Dehamshe afirma que os árabes israelenses são vítimas de racismo pesado.
"De um lado podemos eleger e ser eleitos para o Parlamento, mas de
outro, em todos os níveis da vida no dia a dia nós sofremos por causa dos
orçamentos para as nossas localidades, nas relações jurídicas, a questão
das terras, etc. Este ano tivemos o 22.º Dia da Terra, 30 de março. Em
1976 a população árabe saiu em intifada (levante). No mesmo dia mataram
seis dos nossos, um deles em Kfar Kana, que a propósito é o lugar onde
nasci, ao lado de Nazaré. Nós dissemos assim: não pode ser que nos 50
anos do Estado nos vejam como cidadãos diferentes, como inimigos a quem não
dão nenhuma igualdade. Quando foi fundado o Estado, tínhamos 6,5 milhões
de dunans de terra. Dos 6,5 milhões resta apenas meio milhão. Eu me
envergonho do termo racismo, mas trata-se de tirar terra de árabes para os
judeus e, quando a realidade é essa, devemos defini-la de modo correto.
Neste país existe democracia, mas não para nós. Eu posso eleger e ser
eleito, isso é positivo, mas precisamos de igualdade mesmo. "
- O escritor Anton Shammas, árabe da Galiléia que se tornou grande autor
israelense escrevendo em hebraico riquíssimo o livro Arabescot (Arabescos),
instaurando um fantástico fenômeno cultural no país, que revelaria afinal
a face pluralista de Israel, negou-se a falar ao Estado porque não quer
participar de nada que lembre o jubileu israelense, ou, para ele, a Nakba:
"Eu estou tão irado com o que Israel vem fazendo em todas as frentes
que realmente acho que devo manter silêncio; minhas palavras não serviriam
para ser impressas." (M.A.)
Eles são
conhecidos como "brasileiros puros"
MOACIR AMÂNCIO
Diversos brasileiros participam da
construção do Estado de Israel praticamente desde o início. Eles
trouxeram forte carga ideológica sionista. O cineasta David Perlov, por
exemplo, homenageado dia 30 de abril (no calendário hebraico, correspondeu
à data da Proclamação da Independência) com a apresentação, via TV,
dos seus diários cinematográficos entre os cinco melhores filmes
israelenses, participou de movimentos judaicos juvenis, como sua mulher,
Mira. Perlov passou primeiro seis anos na França, onde aprendeu cinema com
Langlois, entre outros. Veio em 1958, para o Kibutz Bror Hail onde ficou
dois anos com Mira. Depois, Tel Aviv. Aí desenvolveu seu trabalho de
professor e cineasta. Certa vez, disse ao escritor francês André
Schwarzbart que gostaria de fazer algo proibido em cinema, mas que era
amplamente franqueado aos literatos: um diário. A partir daí, esse
descendente do fundador do Hassidismo, o Baal Shem Tov, de uma rabina e do mágico
Moisoto começou a fazer o impossível, filmando cenas corriqueiras até
formar um painel da vida israelense flagrada em sua intimidade. O filme já
foi apresentado em diversos países. Hoje, Perlov trabalha numa nova parte
dos diários, nos quais o Brasil entrou graças às viagens mais ou menos
freqüentes que o cineasta faz, para ver amigos, o irmão Arão, jornalista
em São Paulo, e matar saudades. Confessa descontentamento com o governo,
mas "governos mudam", comenta, antes de dizer que acredita na
"solução israelense para os "judeus".
- Sua mulher, Mira, tem uma história especialmente complicada. Ela nasceu
na Polônia, onde viveu até os 6 anos e chegou a usar a estrela amarela
discriminatória do nazismo. A família fugiu. O pai acabou no Japão, onde
conseguiu visto para o Brasil e a mãe com três filhas permaneceu um tempo
na Europa. Na Espanha, as quatro conseguiram visto para o Paraguai. Puderam
ver o pai num barco, em Santos, porém só mais tarde a família reuniu-se
em São Paulo. A sensação de "não pertencer" vem da infância.
- Primeiro a Polônia, depois o Paraguai, onde ela aprendeu que Solano Lopez
era um herói, em seguida o Brasil, onde o herói se tornaria vilão. O
contato com as desigualdades brasileiras inspiraram nela o entusiasmo
socialista. Em Israel exerceu diversas atividades, inclusive a de tradutora
cinematográfica. Sempre sensível às questões sociais, conta que fica
indignada todas as vezes que algum árabe é humilhado. E, marca pessoal: o
sentimento da ausência de uma "pátria" persiste. No kibutz, teve
uma crise quando houve uma verba para substitução dos colchões de palha
por colchões de mola. Para Mira, era mais importante comprar uma vitrola
com a verba. Poderia continuar dormindo em colchão de palha, mas isso não
foi aprovado coletivamente. O choque indivíduo-coletividade é um dos temas
da literatura israelense.
- O diretor da Faculdade de Filosofia da Universidade de Tel Aviv, Marcelo
Dascal, também é brasileiro. Veio em 64, após ter recebido bolsa de
estudos na França. Também participante de movimentos juvenis, Dascal
trocou um futuro garantido no Brasil pelo risco israelense. Já sabia o
idioma ao chegar, mas é preciso vencer a distância que separa entre o
conhecimento de uma língua e a vivência dessa língua como realidade
escrita, pensada e falada. Para Dascal, era importante a participação no
destino israelense, uma opção para o materialismo e o imediatismo da
sociedade brasileira, o vazio da praia. Para ele, sentir que de alguma forma
estava influenciando a história era fundamental. Na universidade, estimula
o diálogo entre judeus e árabes. A troca de país compensou, afirma.
- O fervor sionista motivou o bem sucedido casal de advogados Marcos e Lúcia
Wasserman, também de Tel Aviv. Ele, que além de advogado dirige o Centro
Cultural Brasil-Israel, faz críticas duras sobretudo à "pressão
religiosa". Defende o casamento civil e outros valores que considera básicos
para uma sociedade moderna. Tanto Marcos como Lúcia (Algranti) não se
arrependem da escolha. Os vínculos com o Brasil são mantidos via família
e pelo centro, que funciona como ponto de difusão da cultura brasileira,
com a publicação de obras literárias e cursos de português. Por causa do
centro, vale avisar que brasileiros desprevenidos devem tomar cuidado com o
que dizem nas ruas israelenses. De repente, o comentário indiscreto ou o
palavrão pode ser entendido pelo rapaz ou pela moça ao lado.
- Os brasileiros não formaram partido, preferiram integrar-se aos já
existentes. A principal referência para eles é o Kibutz Bror Hail, perto
de Ashkelon e Gaza. Fundado por judeus egípcios em 1948, o kibutz logo em
seguida passaria a receber brasileiros. Os "brasileiros puros",
como o professor Aharon Thalemberg (autor de um estudo especializadíssimo
sobre a cabala dos seguidores do falso messias Shabtai Tsvi e que de vez em
quando profere conferências na USP), Tsvi Hazan, que foi cônsul em São
Paulo, e Benjamin Roisman, o Jimico, continuam a dar o tom ao kibutz, onde o
português é língua oficial. Como toda a sociedade israelense, a instituição
kibutz também passa por um processo de transformação. A privatização
está em marcha: serviços são executados por terceiros, na mudança do
"coletivismo ao máximo" para o "coletivismo necessário".
Educação e saúde ficarão sob controle do kibutz, que constrói um
"templo" para expor o rol da sessão da ONU que aprovou a partilha
da Palestina e o martelo de madeira usado por Oswaldo Aranha, presidente da
sessão. Na agropecuária serão produzidas este ano 3 toneladas de batata e
3,5 milhões de litros de leite. Ponto de honra de Bror Hail são os serviços
de informática que presta.
O kibutz é
pioneiro no uso da informática em agricultura, o que é feito pela
Anat-Keshev Lt. É a maior empresa do gênero em Israel. Aí trabalha a
pernambucana Sandra Hirsch. Casada, tem duas filhas. Está há cerca de dez
anos no kibutz e o golpe mais violento que recebeu foi o assassinato de
Rabin, que por sinal tinha Dov Tsamir, do Bror Hail, como seu assessor. Mas,
para Sandra, o futuro está em Israel e o kibutz ainda permanece como
resposta para a vida, embora esteja perdendo a aura igualitária inicial:
primeiro foram os árabes, agora são tailandeses e outros os trabalhadores
externos contratados, ao mesmo tempo em que esse símbolo do país já não
tem a força representativa inicial.
- O arquiteto David Reznik, primeiro brasileiro a receber o Prêmio Israel,
está no país há quase 50 anos. Discípulo
de Niemayer,Reznik conta, entre suas obras, o prédio da Universidade
Hebraica de Jerusalém, no Monte Scopus, uma brilhante e influente solução.
Agora, que seu escritório anda sozinho, ele dedica boa parte do tempo a uma
espécie de retorno simbólico ao Brasil: preside o Instituto Cultural
Ibero-Americano, voltado para as relações com a América do Sul: "As
relações com os povos latino-americanos estavam um pouco de lado, porque a
preocupação era mais Europa e principalmente América do Norte. Como
sul-americano e brasileiro acho muito importante a relação com a região.
Faço isso dentro do espírito de pioneirismo. Israel tem necessidade de ser
amado, como o povo judeu tem necessidade de ser amado."
-
Hebraico
trouxe a tradição para a modernidade
RIFKA BEREZIN
- O hebraico é a língua oficial do Estado de Israel, desde 1948, mas já
era falado na região pelos pioneiros sionistas desde o final do século
passado. O hebraico moderno ou israelense, como também é denominado, foi
renovado após um lapso de 1.700 anos de língua escrita e está
fundamentado na concepção da unidade da língua hebraica e continuidade
dos seus diferentes períodos literários e históricos. Ele não é
resultado de uma evolução orgânica, onde o velho é substituído pelo
novo, como é usual no desenvolvimento natural das línguas faladas. No
hebraico moderno, os diferentes estratos históricos dessa língua
encontram-se lado a lado.
- O falante israelense pode empregar numa mesma oração vocábulos
renovados, assim como os provenientes do hebraico bíblico, do talmúdico
(segunda fase depois da Bíblia) e medieval com a maior naturalidade: há
uma organização sincrônica de todo o vocabulário existente em todas as
fontes judaicas escritas. Também é pouco comum nos estudos lingüísticos
a transformação de uma língua escrita para uma língua oral, como é o
caso do hebraico.
- O hebraico é uma língua antiga e pertence ao ramo das línguas semíticas.
Desenvolveu-se na região do Oriente Médio durante a metade do segundo milênio
a.C., na Terra de Canaã. Essa língua também foi chamada na Bíblia de
Yehudit (2º Livro dos Reis 18:26,28). No período helenístico, os
escritores referiam-se a ela pelo termo grego Hebraios (Flávio Josefo) e,
sob o império romano, era conhecida como ivrit (hebraico).
- Quanto à sua estrutura, o hebraico é basicamente triconsonantal, isto é,
a maior parte de seus radicais e raízes é composta por três consoantes. O
seu alfabeto é de 22 consoantes, escritas da direita para a esquerda.
Originalmente, não tinha vogais, mas algumas letras funcionavam como
auxiliares da leitura, as matres lectionis ou, em hebraico, as amot keriá,
indicando as vogais I, O e U. As demais vogais não tinham representação e
a falta da vocalização dificultava muito a leitura dos textos hebraicos.
- Foi na segunda metade do primeiro milênio da nossa era que se deu a invenção
de vários sistemas de vocalização, sendo o Tiberiano, atribuído a Ben
Ascher, da Escola de Gramáticos de Tiberíades, o utilizado até hoje. Foi
a invenção dos signos vocálicos que tornou cada judeu apto para ler o
texto bíblico.
- O hebraico persistiu como língua escrita por mais de 3 mil anos. Como língua
falada, sobreviveu em muitas situações diferentes, seguindo o complicado
curso histórico do povo judeu. O hebraico foi falado em Israel até a
destruição do Segundo Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C. e há comprovações
(as cartas de Bar Cokhbá, no Museu de Israel), de que, mesmo após o grande
exílio, as comunidades judaicas que permaneceram em várias regiões da
Terra de Israel continuaram a utilizar o hebraico, tanto na comunicação
oral como na escrita, até o ano 200 de nossa era.
- Após a grande dispersão, o povo judeu passou a viver em diversos países
e a falar diferentes idiomas, mas o hebraico era continuamente utilizado nas
práticas religiosas e na criação literária, poética, litúrgica e
religiosa. Durante a Idade Média, essa língua servia de comunicação
entre os rabinos de diferentes países, que trocavam correspondência sobre
questões religiosas, constituindo a vasta literatura de Perguntas e
Respostas denominada de Responsa.
- Nessa literatura, comparece a primeira consulta das Américas, da
comunidade judaica de Pernambuco, no ano de 1637, sobre uma questão litúrgica.
Os brasileiros perguntavam se podiam transferir as orações pela chuva, de
outubro (Sukot), período da colheita em Pernambuco, para outra data. O
rabino de Salônica opinou pela suspensão dessas orações, já que essas
visam a trazer bênçãos e não danos, como seria o caso.
- O ideal da transformação da velha língua hebraica numa língua para uso
corrente e atual surgiu com os iniciadores do movimento iluminista judaico ?
a Haskalá, no século 18, quando teve início a pesquisa no sentido de um
aproveitamento do patrimônio vocabular de todas as épocas e adaptações
de formas arcaicas às novas necessidades. Foi o escritor satírico Mendele
Mokher Sefarim (Schalom Yaakov Abramovitch, 1853-1917) quem conseguiu chegar
a uma síntese e lançou as bases para um estilo do hebraico moderno.
- Por outro lado, o renascimento da fala popular deve-se em grande parte a
Eliezer ben Yehudá (1858-1922), que provou ser possível empregar o
hebraico em todos os setores da vida prática, desde que usado com persistência
e coerência. Mas o maior papel na divulgação e na transformação do
hebraico numa fala popular foi o dos professores que, desde o início do século,
impuseram o hebraico como língua de ensino de todas as disciplinas nas
escolas de Israel.
- Paralelamente, iniciou-se, no Comitê de Língua Hebraica, fundado em
Israel, em 1890, um trabalho de organizado de renovação e ampliação do léxico,
criando novos vocábulos, incorporados pelos falantes do hebraico daquele
tempo. Foi também esse comitê que decidiu pela adoção da pronúncia
sefardita de hebraico, porque a achavam mais bela, mais suave e que
lembraria melhor a fala oriental e, talvez, a fala dos antigos hebreus.
- Concluindo, o hebraico antigo transformou-se numa língua moderna,
corrente e natural, mantendo, entretanto, as características da linguagem bíblica
e de língua semítica. O hebraico, língua clássica, altamente poética, e
que serviu durante 17 séculos somente à comunicação escrita e às práticas
religiosas, expressa plenamente as necessidades de uma sociedade moderna.
Foi concluído o processo de "renascimento" da língua e está em
curso o processo de "desenvolvimento" natural do hebraico
israelense, tanto na fala popular como na criação da nova literatura
hebraica no Estado de Israel.
- Rifka Berezin é professora titular de Língua e Literatura Hebraica da
USP, autora do Dicionário Hebraico-Português, Edusp, 1995.
-
Palestinos
consideram 50 anos uma "catástrofe"
ISSA GORAYEB
- É com uma mescla de revolta indignada e de resignação impotente que os
palestinos comemoraram o 50.º aniversário da "Nakba", palavra árabe
que significa "catástrofe" e que nos manuais de história de
todos os países árabes designa precisamente o nascimento, em 1948, do
Estado de Israel em 1948 numa larga porção da Palestina. Meio século mais
tarde, os palestinos, em sua esmagadora maioria, têm sempre o sentimento de
serem, década após década, as vítimas de uma obscura conspiração
colonial que tem por objetivo privá-los de suas possessões e cujos episódios
continuam se desenrolando. Foram necessárias várias guerras (todas elas
vencidas por Israel), com seus cortejos de morte, destruições e êxodos,
para levá-los a admitir, há alguns anos, a existência do Estado judeu,
muito embora relutem ainda freqüentemente em lhe reconhecer a legitimidade.
Mas, por uma cruel ironia da Hist ória, este realismo novo, que se seguiu a
uma longa era de intransigência e de política do "tudo ou nada",
não resultou inteiramente satisfatório: as esperanças suscitadas pelo
acordo de Oslo se desvanecem dia após dia, enquanto a intransigência muda
de campo com a chegada ao poder de Binyamin Netanyahu em Israel.
- Esse complexo de perseguição que atormenta o povo palestino encontra sua
explicação em alguns dados muitos impressionantes - principalmente geográficos
e demográficos - do antigo conflito da Palestina, embora,
incontestavelmente, esse povo tenha sofrido também por causa da imprevidência,
da miopia e do espírito demagógico de seus chefes e da maioria dos
governos árabes: mais de uma oportunidade de paz fracassou desta forma e
com freqüência os árabes acabaram exigindo insistentemente o que ainda na
véspera haviam rejeitado com horror. Foi, por exemplo, o caso do plano de
partilha da Palestina, votado em novembro de 1947 pela ONU e que foi
rejeitado em massa pelos árabes. Com certeza, hoje é fácil decretar o que
foi então um erro imperdoável. Mas uma breve evocação de dados da época
ajuda a compreender melhor as motivações desse "não", que os
palestinos ainda não terminaram de expiar.
- Há um século, isto é, no momento em que nasceu o sionismo, apenas 24
mil judeus viviam em meio a cerca de meio milhão de árabes na província
otomana (turca) da Palestina. Em 1914, eles era 60 mil e seu número iria
aumentar regularmente daí por diante sob o controle da Grã-Bretanha que,
pouco depois do fim da Primeira Guerra Mundial e da dissolução do Império
Otomano, recebera um mandato para administrar a Palestina. Em 1921 explodem
entre árabes e judeus os primeiros conflitos, que não cessarão de se
ampliar nos anos 30. A imigração de judeus provenientes da Europa
acelera-se depois da 2.ª Guerra Mundial, muito embora os árabes
continuassem majoritários. Com a divisão em dois Estados, votada pela ONU,
os árabes palestinos conhecem a primeira etapa de uma dramática reversão
de sua situação quanto à propriedade da terra e dos meios de existência
que dela extraem: em 1947, os árabes possuíam -- sob forma privada ou pública
- não menos do que 93% do país, ficando os 7% restantes para a comunidade
judaica. Apesar disso, 55% do território é atribuído aos judeus, uma porção
em que eles próprios ainda continuam ligeiramente minoritários e onde não
possuem senão 14% das terras.
- No ano seguinte, é proclamado o Estado de Israel, apesar da rejeição
palestina ao plano de partilha e a guerra irá permitir aos judeus a
conquista de 22% de superfície complementar, provocando ao mesmo tempo o
deslocamento de dois terços da população palestina - ou seja, de 900 mil
pessoas - para fora de seus lares: um êxodo encorajado principalmetne pelo
massacre de Deir Yassin, do qual foram vítimas 250 habitantes dessa pequena
cidade, inclusive muitas mulheres e crianças. Mas o Estado árabe, previsto
pela ONU, não veio à luz: por ocasião do armistício de 1949, apenas a
Cisjordânia e a Faixa de Gaza escaparam ao controle israelense: a primeira
foi anexada pelo Emirato da Transjordânia, então rebatizado como Reino da
Jordânia, e a administração de Gaza foi confiada ao Egito.
- Menos de 20 anos mais tarde e graças à guerra relâmpago (dos seis dias)
de junho de 1967, Israel se apossa desses territórios e aí começa a
segunda etapa histórica da expoliação palestina. De fato, não contente
em catalogar como "terras de Estado" as zonas não cultivadas
(onde sistematicamente são assentadas colônias judaicas), Israel confiscou
uma proporção considerável de terras privadas árabes, principalmente no
setor Leste de Jerusalem e no Vale do Jordão. O acordo de Oslo, assinado em
1993 com os trabalhistas, reavivou por um momento as esperanças dos
palestinos de recuperar pelo menos uma modesta porção de sua antiga pátria,
mas o governo liderado pelo bloco Likud imediatamente se propôs aniquilar
as esperanças relançando a colonização judaica e procurando impor uma
espécie de partição destes 23% da Palestina que até agora haviam
escapado à anexação israelense. A cada dia que passa, parece efetivamente
mais claro que o projeto de Netanyahu consiste em deixar aos palestinos as
cidades e vilas da Cisjordânia que abrigam a grande maioria da população
árabe, mas manter o controle do restante desse território por razões de
segurança: aliás Israel já começou a construir uma rede de rodovias que
permite contornar as aglomerações palestinas.
-
Economia
está em fase de liberalização
MICHAEL MICHAELY
- O desempenho e o progresso econômicos de Israel são, é claro,
multifacetados, e só poderiam ser adequadamente descritos e analisados numa
série de livros. Nesta breve apresentação terei de ser, é óbvio,
extremamente conciso. Dessa forma, vou abster-me de tratar dos aspectos históricos
da economia israelense e concentrar-me em alguns de seus principais
atributos, a saber: o papel da imigração, o crescimento econômico, a
importância da importação de capital, o desempenho do comércio exterior,
os gastos com defesa, a inflação e a estabilização da moeda e,
finalmente, a mudança do papel do Estado.
- Imigração - Israel tem sido, e ainda é, um país de imigrantes,
predominantemente de judeus reunidos da Diáspora. Principalmente por conta
da imigração, a população de Israel multiplicou-se por sete durante seus
50 anos de existência, passando de menos de 800 mil pessoas, em maio de
1948, para os 5,8 milhões de hoje.
- O fluxo imigratório tem sido constante, mas na maioria dos anos não
assumiu grandes proporções. A imigração, porém, teve dois momentos de
destaque. Primeiro, assumiu contornos dramáticos no período imediatamente
posterior ao estabelecimento do Estado de Israel em 1948: de meados de 1948
até o fim de 1951, portanto num período inferior a quatro anos, a imigração
fez com que a população dobrasse. Foi durante essa fase que a maioria dos
judeus dispersos pela Europa após os trágicos episódios da 2.ª Guerra
Mundial, bem como os residentes nos países árabes, chegou a Israel.
- A outra onda migratória teve importância menor, mas significativa em
termos comparativos internacionais. Ocorreu em 1990 e 1991, assumindo um
ritmo mais lento nos anos seguintes, que perdura até hoje, quando o
desmantelamento da União Soviética levou para Israel cerca de meio milhão
de judeus.
- Essas duas ondas migratórias diferiram não apenas em suas dimensões,
mas também numa série de características. A primeira, e mais importante,
consistia de pessoas que chegavam ao país com pouco capital, em termos físicos,
financeiros e humanos, por causa das circunstâncias do período e de seus
países de origem. Assim, por exemplo, a despeito da existência de um
sistema educacional universal e de alto nível desde o início, foi necessária
mais de uma década para elevar o nível médio educacional da população
aos existentes na época da criação de Israel. Por outro lado, os
imigrantes de 1990, embora não dotados de capital físico, dispunham de
enorme valor em termos de capital humano. Na média, sua educação formal
estava no mesmo patamar do da população pré-existente. Por causa dessas
diferenças, a absorção dos imigrantes foi um processo mais demorado e
doloroso no início dos anos 50 do que na recente onda de 1990.
- Expansão econômica - Dado o enorme crescimento da população, um
aumento substancial da produção e renda do país era de se esperar. Mas a
expansão econômica foi bem mais longe. Um grande fluxo de investimento,
parcialmente financiado, como veremos mais tarde, pelo aporte de capital do
exterior, produziu um enorme aumento do capital humano e físico, não
apenas no geral, mas também per capita. Além disso, houve um crescimento
de produtividade contínuo. Como resultado, a renda per capita aumentou
extraordinariamente.
- Em 1997, o Produto Interno Bruto per capita estava em torno dos US$ 18
mil, cerca de 40 vezes maior que seus níveis na época da criação do
Estado de Israel. Obviamente, parte desse crescimento é apenas nominal,
mas, mesmo em termos reais, a renda per capita praticamente decuplicou
durante os 50 anos da existência do país. Nesse período, Israel deixou de
ser um país de renda média para ingressar no clube fechado dos mais ricos
do mundo.
- Capital - Um aporte significativo de capital sempre caracterizou a
economia israelense, bem como a da Palestina antes do estabelecimento do
Estado de Israel. Nos anos que antecederam a criação do país, a entrada
de capital era resultado da chegada de imigrantes, que geralmente levavam
consigo alguns recursos, mas essa fonte desapareceu quando, mais tarde, os
que chegavam a Israel não dispunham de capital físico ou financeiro. A
entrada de capital foi, basicamente, resultado de contribuições e empréstimos
de judeus da Diáspora, em graus que variaram ao longo dos anos; empréstimos
e ajuda dos Estados Unidos e pagamentos feitos pelo governo alemão a título
de indenização e restituições pessoais. Nos anos mais recentes, os
investimentos externos também assumiram proporções consideráveis,
assumindo a liderança na entrada de capital.
- A importância do capital externo foi particularmente grande nos primeiros
anos da existência do país e reduziu-se substancialmente mais tarde. No
período entre 1950 e 1953, esse capital externo totalizou um terço do
total de recursos movimentados pela economia, isto é, do valor do Produto
Interno Bruto da economia mais o capital externo. Essa proporção caiu para
20% entre 1954 e 1958. Nas últimas quatro décadas, de 1959 em diante, essa
relação, ainda mais baixa que antes, flutuou sem respeitar tendências; em
média, ficou em torno dos 12%, ainda alta em termos comparativos
internacionais, mas dramaticamente inferior aos altos níveis registrados
durante os primeiros dez anos de existência do Estado.
- O capital externo sempre foi importante para financiar o alto nível de
investimento na economia. Nos primeiros anos, seu nível era tão alto
quanto o do investimento, o que significa que, em termos líquidos, o
investimento era financiado do exterior e não pela poupança israelense. Os
recursos externos foram essenciais para possibilitar o crescimento econômico
a despeito dos consideráveis gastos em defesa.
- Comércio Externo - A grande dependência do capital externo nos primeiros
anos de existência do Estado de Israel implicava também que as importações
superavam em muito as exportações - na época as importações eram dez
vezes maiores que as exportações. O valor das importações sempre foi
alto, como seria de se esperar num país pequeno e praticamente desprovido
de recursos naturais, quase o oposto do Brasil. Mas o fenômeno realmente
interessante foi o enorme crescimento das exportações (no que, temo, também
seja bem diferente do que ocorre no Brasil). Em termos nominais, as exportações
israelenses cresceram de US$ 50 milhões anuais nos anos 50 para mais de US$
22 bilhões em 1997, 450 vezes maior! Parte disso é resultado do aumento
dos preços internacionais; mas, mesmo abstraindo-se esse fator, o aumento
ainda seria um múltiplo de 100. Em relação ao PIB (que também cresceu
outro tanto), as exportações multiplicaram-se por cinco no período que
vai do início da década de 50 até meados dos anos 90, atingindo os 30%.
E, em relação às importações, passaram de 15% para 70%. Em termos de
longo prazo, Israel encabeça a lista de países exportadores, comparando-se
aos mais destacados tigres asiáticos. Além do crescimento agregado, a
estrutura das exportações israelenses mudou tanto que hoje não guarda
nenhuma semelhança com o perfil de seus primeiros anos. De início, as
exportações de frutas cítricas constituíam mais da metade do total, com
o restante cabendo à lapidação de diamantes. Hoje, as exportações de
produtos industrializados, e altamente diversificados, constituem a maioria
das exportações. As de produtos de alta tecnologia assumiram posição de
destaque nos últimos anos.
- Gastos com a defesa - O nascimento de Israel como país independente foi
conseqüência de uma guerra cara, que durou do fim de 1947 até o início
de 1949, em termos de vidas e gastos. Desde então, o país vive em
permanente estado de guerra com seus vizinhos, primeiro com todos eles e,
mais tarde, depois do acordo de paz com o Egito, de 1977, e com a Jordânia,
em 1996, com apenas alguns deles. Em alguns períodos essa situação
evoluiu para conflitos reais. Assim, os gastos com a defesa sempre foram
altos, disparando ainda mais com a deflagração de conflitos. Em média, os
gastos com a defesa consomem 15% do PIB israelense, uma proporção três
vezes maior do que na maioria dos países. Essa média, porém, mascara
grandes flutuações. Os primeiros 15 anos de existência de Israel foram,
em termos relativos, os mais pacíficos, quando os gastos militares somavam
apenas 6% do PIB. Um aumento considerável com o setor militar ocorreu após
a Guerra dos Seis Dias, de junho de 1967, e entre 1967 e 1972 os gastos com
defesa triplicaram em relação ao PIB, totalizando 18%. Então, com a
Guerra do Yom Kippur, de outubro de 1973, houve outro aumento significativo,
com essa proporção subindo para 30% no período de 1973 a 1984. A partir
de 1985, registrou-se uma redução, com os gastos militares representando
17% do PIB entre 1985 e 1990 e apenas 10% entre 1991 e 1996. Não é por
acaso que o período de 1973 a 1984, com gastos militares extremamente
elevados, coincide com uma época de crescimento econômico praticamente
zero, constituindo uma clara exceção à normalmente robusta expansão econômica
israelense. O período também foi marcado pela rápida aceleração da
inflação.
- Inflação e estabilização - A inflação foi um atributo constante da
economia de Israel, com índices toleráveis, à exceção de períodos em
que foi notável. A inflação foi alta, pelo menos para os padrões da época,
logo no começo: de 1951 a 1953, os preços subiram em média 33% ao ano.
Seguiu-se um período de estabilidade: de 1954 a 1972, a inflação anual
ficou em torno dos 6%. Entre 1973 e 1978, ficou por volta de 36% ao ano e,
entre 1979 e 1985, chegou a 180% anuais. Seguiu-se uma queda acentuada para
ficar em 24% no período de 1986 a 1991 e 10% desde então.
- O papel do governo - Finalmente, é necessário ressaltar o que talvez
seja o mais importante, a mudança do papel do Estado na condução da
economia. Os fundadores de Israel eram em sua maioria socialistas. A
economia, mesmo nos primeiros anos da criação do Estado de Israel, jamais
foi socialista ou de planejamento centralizado, mas a intervenção
governamental era universal e penetrante. Nos primeiros anos, era um princípio
largamente aceito que nada poderia ser feito corretamente sem a ação
direta do governo ou sua regulamentação. A inflação alta do início dos
anos 50 foi um choque brutal para essa crença: em 1952, o governo (e o
Partido Trabalhista, que estava no poder) percebeu que a inflação não
pode ser reduzida por decretos e as forças de mercado finalmente passaram a
determinar o desempenho econômico. A política de estabilização citada
anteriormente constituiu um passo decisivo para a liberalização, que
prosseguiu com apenas uns poucos recuos. Ela foi marcada pela liberalização
do comércio, pela remoção dos controles e regulamentações internos,
pela passagem do mercado de capitais para o setor privado, pela redução
dos subsídios, pela privatização e pela contração da máquina
governamental em relação à economia como um todo. Mas é preciso
ressaltar uma diferença fundamental entre Israel e a maioria dos outros países.
Na maior parte da América Latina, por exemplo, a liberalização e a redução
da presença do Estado na economia foram resultados de medidas drásticas,
com uma diminuição radical da participação estatal na economia. Em
Israel, porém, este foi um processo lento e contínuo, que ainda está em
andamento. Depois de 45 anos de reforma e liberalização, ainda hoje, o
envolvimento do governo na vida econômica do país é, provavelmente, mais
significativo em Israel do que na maioria dos países com economia de
mercado.
- Michael Michaeli é ex-diretor do Departamento de Economia da
Universidade de Haifa e ex-economista-chefe do Bird para o Brasil
-
O
anti-semitismo e a má consciência européia
GILLES LAPOUGE
Raros são os Estados cuja história foi
tão agitada quanto Israel. Disperso, negado, massacrado durante 2 mil anos,
Israel renasce em 1948. Depois, de guerra em guerra, a história contemporânea
de Israel é apenas uma longa tragédia, à semelhança, embora também
diferente, do que foi outrora a história dos judeus, desde o exílio de
Babilônia, as destruições do Templo, a ocupação romana ou a morte do
Cristo. Uma das singularidades da "diáspora" judaica, como do
Estado de Israel depois de 1948, é que seu destino está entrelaçado com o
destino e as vicissitudes de outros países, embora se mantendo autônomo.
Todo judeu de ontem, todo israelense de hoje, possui duas histórias, dois
calendários: por uma parte, a cronologia própria e exclusiva do povo
judaico - embora essa cronologia "judaica" varie de uma comunidade
para outra: o "tempo" dos judeus franceses é medido pelo chamado
"Affaire Dreyfus" (o Caso Dreyfus), o escândalo do Panamá ou as
leis antijudaicas do Marechal Pétain em 1940, enquanto o "tempo"
dos judeus poloneses é o dos "pogroms", das expulsões, das
sinagogas hassídicas da Europa Central.
- Se analisarmos o período contemporâneo (a partir de 1948), encontramos a
mesma mistura do tempo de Israel e do tempo universal: país criado sob a
pressão da Diáspora, mas com o consentimento das nações, o Estado de
Israel foi um façanha arriscada na época da Guerra Fria e depois nas relações
entre o Ocidente e os árabes.
- É preciso acrescentar que a demografia de Israel (antes ou depois de
1948) é controlada desde o exterior: depende ao mesmo tempo do ventre das
mulheres israelenses e dos grandes fluxos mundiais: os primeiros
"sionistas", a começar pelo húngaro Theodor Herzl, depois pelos
pioneiros, (os David Ben Gurion, os Menahen Beguin...) vêm da esfera russa
e da Mitteleuropa (Europa Central) e também da Alemanha, portanto, "ashkenazim"
(asquenazitas) e "sepharadim" (sefarditas).
- Finalmente, com a dissolução da União Soviética, chegou uma segunda
onda de emigrantes russos - não mais antigos súditos do Czar, mas ex-súditos
de Stálin. Ora, cada um desses fragmentos da Diáspora tinha suas tradições,
sua cultura, seus cantos, sua cozinha, sua língua. Podemos portanto
calcular como a história de Israel é singular, sem precedentes.
- Um relance sobre a formação do Sionismo confirmará isso (a idéia
sionista foi lançada por Herzl, então correspondente do jornal austríaco
Die Neue Freie Presse em Paris. Herzl publicou em 1896 o livro Der
Judenstaat (O Estado Judeu), antes de reunir, no ano seguinte, o Congresso
de Basiléia). A idéia sionista impressionou muitos judeus da Europa, mas
os judeus franceses continuaram céticos.
- Entretanto, o "caso Dreyfus" - esse oficial judeu acusado em
1894 de ter traído a França em favor da Alemanha - mostrou a virulência
do anti-semitismo francês. Contudo, esse mesmo "caso Dreyfus"
dilacerou a França, dividindo-a em duas e fez surgir, diante do campo dos
anti-semitas, o campo da tolerância.
- E, além disso, os judeus franceses davam grande valor à "memória a
longo prazo". Certamente, ali como em outras partes, houve "pogroms"
e infâmias na Idade Média, mas a época moderna tinha a infâmia da
"integração". Os judeus da França, como os Rothschild, os
Camondo, os Perreire... sentiam-se herdeiros do Iluminismo do século 18 ,
dos "direitos do homem", de Racine e de Voltaire...
- "Feliz como um judeu na França", rezava o provérbio. Por isso,
quando Herzl imaginou o "lar judeu" lá embaixo, perto do deserto
e sonhou em misturar os burgueses parisienses com os hassidim sujos e místicos
da Polônia, o Sionismo sofreu na França um fracasso total.
- Trata-se de um fato pouco conhecido: na própria França, houve judeus
tradicionais que tentaram limitar a vinda de imigrantes judeus oriundos do
Leste, temerosos de que a distinta comunidade francesa ficasse emporcalhada
com camponeses lituanos.
- Houve a mesma reação diante de Herzl: ninguém tinha o desejo de ir para
Sião. Na realidade - e aqui está o paradoxo - o sionismo não foi aprovado
na França a não ser pelos anti-semitas, que acolheram a idéia com
entusiasmo: o jornal de Drummont, La libre parole, propagador de ignomínias
contra os judeus, aprovou Herzl. Eis a solução: amontoar todos os judeus
em navios cargueiros e despachá-los para a Palestina. Assim nos livramos
deles!
- O desprezo dos judeus franceses em relação ao sionismo se reproduziu nas
altas esferas: o Quai d'Orsay (Ministério das Relações Exteriores francês)
não entendeu nada do sonho sionista. Somente a Guerra de 1939 irá mover os
diplomatas parisienses em favor do sionismo. Os sionistas por sua vez
devolvem à França a sua frieza: Herzl dá preferência à Alemanha e mais
ainda à Inglaterra.
- Na Inglaterra, o caminho é diferente. A partir de 1918, os ingleses
inclinam-se com amor sobre a Palestina. Era lógico. O Império Otomano
desaparecera e vastas províncias otomanas ficaram deserdadas. É uma coisa
boa, pensaram os ingleses. E começaram a infiltrar-se em toda a parte: o
coronel Lawrence da Arábia apóia então os árabes contra seus senhores
turcos. Londres lança também olhares ternos sobre a Palestina.
- No dia 2 de novembro de 1917 foi publicada a "Declaração de
Balfour": "O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o
estabelecimento na Palestina de uma pátria nacional para o povo judeu e
envidará todos os esforços para facilitar este objetivo, contanto que não
se faça nada que possa prejudicar os direitos das comunidades não-judaicas
na Palestina, bem como os direitos de que gozam os judeus em todos os outros
países".
- Três anos depois, a Sociedade das Nações assume a Declaração e
concede à Grã-Bretanha um mandato sobre a Palestina. Por isso, as
simpatias de Herzl pela Grã-Bretanha parecem justificadas.
- Entretanto, o que depois acontece irá frustrar suas esperanças. Não
vamos entrar no labirinto dos anos que se seguiram. A potência britânica,
detentora do mandato, é mal aceita pela sociedade judaica da Palestina. A
princípio, a Inglaterra quer manter o equilíbrio entre os judeus e os árabes.
Depois, Londres endurece o tom em relação aos judeus. E publica, em 1939,
um "documento oficial", proibindo a compra de terras pelos judeus
e limitando a imigração.
- Explode a guerra de 1939. A declaração do futuro primeiro-ministro
israelense, David Ben Gurion, é um testemunho da lucidez e da audácia dos
judeus. Para Ben Gurion, duas palavras de ordem: os judeus farão guerra
contra a Alemanha. Os judeus também farão guerra contra o
"documento" de Londres.
- A partir de 1942, desenvolve-se o terrorismo na Palestina, sob o impulso
de grupos como o Etzel (dirigido por Menahem Begin, futuro
primeiro-ministro) ou o terrível "grupo Stern". E esse terrorismo
judaico tem dois alvos: os árabes e os ingleses.
- Explode então a guerra no Oriente Médio - um acontecimento decisivo para
o nascimento do jovem Estado. O nazismo já tinha redistribuído as cartas.
Foi depois da Noite das Longas Facas, em 1938, quando se desencadeou a infâmia
nazista, que os refugiados começaram a chegar aos países livres, Pouco
depois da vitória das divisões de tanques nazistas - as Panzerdivisionnen
- instala-se na França o governo do marechal Pétain: libera-se então o
antisemitismo contido da França "bien pensante": finalmente, um
governo-honestidade, que manda embora os judeus, que os prende em
acampamentos, os interna. Milagre!
- O fim do nazismo faz com que o fiel da balança se incline uma vez mais
para o outro lado: a partir de 1944, o mundo descobre o horror dos
"Campos da Morte", os seis milhões de judeus queimados nas câmaras
de gás, essa ignomínia conhecida por poucos até 1944. Desenvolve-se um
sentimento de simpatia pelos judeus e, ao mesmo tempo, uma
"culpabilidade" formidável e inteiramente legítima. Envergonhada
de seu passado recente, a Europa sente seu coração comover-se em relação
aos judeus e portanto a Israel.
- O Holocauso, a maior abjeção da história, é um grande ator do pós-Guerra.
Os fundadores do Estado judeu não se enganaram: a declaração de independência,
preparada por Ben Gurion no dia 14 de maio de 1948, faz referência aos dois
pilares do novo Estado: o vínculo histórico do povo judeu com o povo de
Israel e o Holocausto.
- A culpabilidade irá durar muitos anos e acompanhará os primeiros passos
do jovem Estado. Se os Estados Unidos apóiam Jerusalém, em contrapartida,
os ingleses, preocupados em não desagradar aos árabes, continuam inflexíveis.
A história de Israel será marcada, por um lado, por guerras fulminantes
contra os árabes e, por outro, pelas "mudanças de posição" das
grandes potências, segundo seus interesses. Os soviéticos, que haviam sido
favoráveis à criação de Israel, tornam-se cada vez mais hostis.
- Os americanos continuam ao lado de Israel. A França é um dos países que
tomaram parte na perversidade antijudaica. Mas, à medida que nós vamos nos
afastando da "vergonha", do ano de 1944, vemos renascer o
anti-semitismo e o antijudaísmo. O partido fascista de Jean-Marie le Pen,
que recolhe 15% dos votos nas eleições, é racista e os judeus ocupam, na
demência racista, lugar especial.
- É na França (e também na Áustria e um pouco nos Estados Unidos) que
prospera o "negacionismo" - esta doutrina segundo a qual os campos
da morte nazistas jamais teriam existido. Quanto ao resto, há 50 anos a
França navega com dificuldade entre dois desejos: agradar aos árabes por
um lado, reparar por outro os sofrimentos inauditos suportados pelo povo
judeu na época do Holocausto.
-
Uma síntese
da identidade judaica e brasileira
JOSÉ MINDLIN
- O 50º aniversário do Estado de Israel dá margem a muitas e variadas
reflexões. Sua criação, seguindo-se à tragédia do Holocausto, deu novo
alento aos sobreviventes das perseguições, que destruíram milhões de
vidas de judeus. Com o apoio de judeus e não judeus do resto do mundo, o país
se consolidou, e, através de uma imigração de alta qualificação
intelectual e científica (embora paralela a outra, do norte da África, que
ainda não tinha atingido qualificação alguma de ordem prática),
transformou-se em anos numa extraordinária concentração de cérebros. Foi
pois, sob esses aspectos, um fato histórico altamente positivo.
- As coisas não são tão simples, no entanto, e a decisão das Nações
Unidas criou problemas que até hoje persistem, e de solução problemática.
As populações árabes que não se integraram ao Estado de Israel perderam
seu domicílio e seus bens, passando a viver, durante décadas, em condições
lamentáveis, o que originou conflitos sangrentos, um ambiente de
hostilidade recíproca, e um estado de guerra permanente. A busca de uma
solução para o conflito tem sido objeto de negociações intermináveis, e
de intensos esforços diplomáticos internos e externos, sem que se tenha
chegado até agora a resolver a situação dos palestinos, e a conseguir uma
aproximação duradoura entre árabes e judeus. Para isso, no entanto, teria
sido necessáro, e continua a ser, que houvesse um real propósito de um
procurar compreender o ponto de vista do outro, em vez de cada um se colocar
intransigentemente em sua própria posição. Diálogo e tolerância em vez
de confronto e hostilidade são pressupostos indispensáveis de qualquer
acordo, pois a pressão militar pode resolver temporariamente um problema,
mas dificilmente será uma solução duradoura. Goethe já dizia, e eu vivo
repetindo isso, que o conflito mais difícil de resolver não é entre o
certo e o errado, e sim entre o certo e o certo.
- Trata-se, no entanto, como adiante veremos, de um fenômeno local, pois o
resto do mundo, e certamente no Brasil, árabes e judeus vivem em grande
harmonia.
- Não é, no entanto, o Estado de Israel que pretendo analisar, pois
certamente existirão outros colaboradores desta edição que melhor do que
eu, e com mais conhecimento de causa, provavelmente abordarão o assunto.
- As reflexões que me ocorrem visam ao problema da identidade judaica, e a
posição dos judeus no Brasil nestes últimos cem anos.
- Marranos e cristãos-novos são também um tema que deixo a comentadores
especialistas.
- Historicamente, sempre se falou dos judeus como o povo de Israel - e essa
é uma história já algumas vezes milenar - mas quando se busca definir o
que significa essa expressão de "povo de Israel", e com que
atributos se caracterizam os judeus e o judaísmo, aí é que começam os
problemas. O mesmo se pode dizer quando se fala de "povo eleito",
tradicionalmente significando eleito por Deus. Terá sido mesmo? E se for,
eleito para quê? A história dos judeus não é uma história de
favorecimento...
- Israel foi a pátria dos judeus antes de Cristo, mas depois disso, com a
Diáspora, que os dispersou pelo mundo, passaram a ser, na realidade, um
povo sem pátria, se se admitir que os judeus continuaram a ser, através
dos séculos da Diáspora, um povo só. O que eu diria é que o judaísmo
continuou, mas os judeus se dividiram, e passaram a adotar, como Pátria, os
países onde se refugiaram.
- Na Península Ibérica, por exemplo, desde a Ídade Média até a expulsão,
tornaram-se espanhóis e portugueses, e o mesmo aconteceu nos outros países
onde passaram a viver. De uma só nacionalidade, se se pode assim qualificar
(apesar da dominação romana) o status político dos judeus na Palestina até
a Diáspora, passaram os judeus a ter diversas nacionalidades, conforme os
países em que se tivessem radicado.
- O judaísmo, no entanto, se manteve uno, e defini-lo é uma das grandes
dificuldades com que se defrontam os judeus. A idéia mais generalizada é
que o judaísmo é uma religião, mas as coisas não são tão claras. Seria
muito simples, se essa definição tivesse abrangência plena, mas como
explicar, já que essa abrangência plena não existe, que muitos judeus
como tais se consideram, mesmo sem ter nenhuma religião, ou mesmo sem
acreditar na existência de Deus? Seria o judaísmo, como definição
alternativa, um patrimônio cultural, e um conjunto de valores morais,
independentemente de religião? Poderia ser uma definição aceitável, se a
religião judaica não existisse. Mas ela existe, e para muitos representa a
essência de sua identidade. Como explicar, então, que um judeu, de
qualquer nacionalidade, e sem qualquer prática ou sentimento religioso, se
considere judeu? E que assim se considere, mesmo sem falar o hebraico, o íiddisch,
ou o ladino, e às vezes sem conhecer sequer a história dos judeus?
- Não creio que exista uma definição que explique cabalmente o judaísmo
de forma a incluir o que hoje é um fenômeno de numerosas vertentes. Isso não
quer dizer, no entanto, que judaísmo seja uma ficção, pois ele é
positivamente uma realidade.
- Um caminho possível, na falta de outro melhor, seria pensar em judaísmo
como uma tradição milenar, formando uma corrente indefinível, mas que
poucos judeus se disporiam a romper. Essa tradição, para passar de uma
geração a outra, através de séculos precisaria, é claro, de um fio
condutor, sem o qual a corrente fatalmente se romperia. Pois bem, esse fio
condutor creio que existe, ou pelo menos existiu até agora: é a família.
- Durante quase 2 mil anos de Diáspora, o judaísmo subsistiu sem território,
e sem nenhum organismo ou autoridade central que o mantivesse unido, ao
contrário de outras religiões, que mantiveram a centralização de mando.
O laço fundamental que manteve a união, foi a família, e com ela a tradição
familiar.
- Dir-se-ia que a família é, no mundo de hoje, uma instituição
periclitante, e assim, seja pelo enfraquecimento da união familiar, seja
pelo ecumenismo que passou a admitir de forma mais ampla os casamentos
mistos (com que outras religiões inevitavelmente se introduzem nas famílias
judias), o fio condutor também estaria correndo o risco de se romper. Pode
até ser verdade, mas ainda não chegamos lá, pois esse fio se conservou sólido
até os nossos dias não só através da família. Existe um outro elemento
de aglutinação: a solidariedade aos perseguidos, que é para os judeus
livres de perseguição uma questão de dignidade pessoal. Essa
solidariedade manteve e vem mantendo unidos tanto os judeus vítimas do
anti-semitismo, como os que tiveram a felicidade de viver imunes a qualquer
perseguição.
- Não há como, a meu ver, prever com segurança o futuro. Visto o problema
"sub specie eternitatis", tudo pode acontecer: assim como no
passado povos e civilizações desapareceram, pode o judaísmo perecer em
algum nebuloso futuro. Mas não parece provável, pois continuam a existir
em nosso tempo, e tudo indica que continuarão a existir por muito tempo,
forças contrárias e poderosas, sempre prontas a se digladiar, e a cultivar
o anti-semitismo, o que continuará a manter vivo o sentimento e a obrigação
moral de se manter judeu por solidariedade.
- Vejamos agora o que aconteceu no Brasil. Em fins do século 19, começaram
a chegar judeus da Europa Central e da Rússia, mas também da Alsácia e da
França, onde, provavelmente por efeito do caso Dreyfus, o anti-semitismo
lavrava em terreno fértil. De um modo geral, com exceção da maioria dos
alsacianos e franceses, eram pessoas modestas, sem qualificação
profissional, provindas, em boa parte, de pequenas cidades, onde a religião
imperava. Alguns procuraram o Norte e o Nordeste, principalmente a Amazônia,
onde se radicaram, mas a maioria veio para São Paulo e o Rio de Janeiro. Não
eram muito numerosos, e o mesmo aconteceu com sírios e libaneses, também
de origem modesta. Muitos deles começaram a vida no Brasil percorrendo o
interior como mascates, até amealharem economias que lhes permitissem
estabelecer-se como comerciantes. E foi como comerciantes que cresceram e
prosperaram.
- Já os alsacianos e franceses, vindos com recursos, se estabeleceram em São
Paulo e se tornaram conhecidos como grandes comerciantes, de tecidos, jóias
e outras atividades comerciais.
- Nas primeiras décadas deste século, no entanto, com a intensificação
do anti-semitismo no caso dos judeus, começaram a chegar levas bem maiores,
geralmente com parcos recursos. Aqui em São Paulo muitos judeus se
concentraram no bairro do Bom Retiro, predominantemente em atividades
comerciais, e o bairro passou a ser visto como "bairro judeu".
Hoje é coreano... Da Rússia vieram imigrantes em número menor, mas muitos
profissionais liberais, artistas e intelectuais. Estes também dispunham de
poucos recursos, mas rapidamente se integraram ao meio brasileiro. Foi o
caso, por exemplo, de meus pais, que se conheciam na Rússia, deixaram
Odessa em 1905, tomando caminhos diferentes, e se perdendo de vista, mas se
encontraram em Nova York em 1910, ali se casando e vindo para o Brasil.
- Pois bem, meu pai, que nos Estados Unidos trabalhava como dentista prático
(não havia lá a exigência de diploma), aqui teve de cursar a Faculdade de
Farmácia e Odontologia de São Paulo. Fez o vestibular poucos meses depois
de chegar ao Brasil, e tornou-se um dos dentistas mais conceituados em nosso
meio. Mas só foi dentista por necessidade de trabalho, pois, na realidade,
do que ele gostava era de arte, e com isso rapidamente passou a fazer parte
do meio artístico e intelectual de São Paulo - basta dizer que foi um dos
primeiros sócios da Sociedade de Cultura Artística, quando foi fundada, em
1912. Pelas voltas que o mundo dá, hoje estou eu na Presidência da
Sociedade! Pois bem, meus pais tiveram a sabedoria de que o português fosse
a língua usada em casa, o que fez com que meus três irmãos e eu crescêssemos
absolutamente como brasileiros, sem nenhum laço com a Rússia. Depois
aprendem o francês, que ficou sendo nossa segunda língua, e só quando eu
tinha 8 anos, pelo acaso de virem da Rússia para São Paulo primos nossos,
foi que aprendemos o russo. Não tivemos também nenhuma educação
religiosa, vagamente ouvíamos que éramos judeus, mas não freqüentávamos
nenhum culto. Minto: na Escola Americana, tínhamos de assistir ao culto
protestante... O judaísmo só entrou mesmo em casa nos anos 30, quando começou
a perseguição nazista - foi a solidariedade de que falei, e quelevou meus
pais, e a nós, os filhos, a participar mais ativamente das atividades
judaicas, especialmente na parte assistencial e de ajuda aos refugiados.
- Falo do caso pessoal porque ele é um bom exemplo do que aconteceu com
numerosas outras famílias, que formavam uma coletividade, mas não um
gueto, pois a maioria de nossos amigos era brasileira e católica.
- A coletividade israelita cresceu e diversificou-se. A partir dos anos 30,
começaram a chegar refugiados da Alemanha e da Itália, alguns com fortuna,
outros com poucos recursos, mas quase todos empresários, técnicos,
profissionais liberais, ou professores universitários nos seus países de
origem. Foi logo após a crise de 29, começava a industrialização, e foi
fundada a Universidade de São Paulo. Os refugiados da Alemanha e da Itália
integraram-se rapidamente ao processo de modernização e desenvolvimento
econômico e cultural então em marcha em São Paulo.
- Fenômeno parecido ocorreu com a imigração sírio-libanesa, que seguiu
um processo paralelo de integração ao país, e o relacionamento entre as
duas comunidades sempre foi amistoso e cordial, assim se mantendo até
agora, sem que as dissensões do Oriente Médio perturbassem essa relação.
É verdade que essa imigração foi predominantemente cristã, e não muçulmana.
Não houve influência fundamentalista, o que permitiu o bom entendimento.
- Não se pode dizer, no entanto, que nunca existiu anti-semitismo no
Brasil. A década de 30 marcou o início do integralismo, que seguia os
ditames do nazi-fascismo, e que conquistou adeptos em altas posições no
governo e na sociedade brasileira. Não foi uma posição generalizada, pois
a maior parte dos brasileiros ignorava o que fossem os judeus, mas essa
ignorância favoreceu o surgimento do anti-semitismo. Como também na mesma
época já haviam surgido mais movimentos de esquerda, a década de 30
marcou o que eu consideraria o início de uma radicalização política, até
então inexistente. Com a 2.ª Guerra Mundial, embora a opinião pública
fosse favorável aos aliados, houve setores do governo onde se infiltrou o
nazismo, e, como conseqüência, surgiram posições anti-semitas. Lembro-me
que quando procurei, como advogado (mas sem cobrar honorários) obter vistos
de entrada para refugiados ju deus alemães, tive meu pedido recusado, por
escrito, pelo Itamaraty, "por estar vedada a entrada em território
nacional de indivíduos de origem étnica israelita". Ainda tenho essa
carta. Felizmente tudo isso passou.
- As perseguições na Europa continuaram, no entanto, e a imigração
continuou a crescer. Na década de 50 intensificou-se o anti-semitismo no
Egito e o contingente de judeus egípcios que buscou o Brasil foi apreciável,
em sua grande parte de classe média, com bom preparo profissional técnico,
industrial e comercial. Mais tarde houve o acordo de Camp David, que marcou
o fim das hostilidades entre Egito e Israel, o que demonstra que um acordo
é possível quando ambas as partes verdadeiramente o desejam.
- A imigração de judeus da Síria e do Líbano, iniciada nos anos 40, não
se interrompeu, e formou a comunidade Sefardita (originária dos judeus
expulsos da Espanha e Portugal nos séculos 15 e 16), que exerce um papel
importante no campo financeiro, empresarial, cultural e assistencial.
- O mesmo ocorre com os judeus asquenazitas, originários da Europa, e que têm
tido uma atuação semelhante aos seus correliginários
- Sefardita - Os ritos têm diferenças, mas a fidelidade às origens é a
mesma. Com a mesma origem asquenazita pode ser lembrada ainda uma imigração
de certo porte dirigida para o Rio Grande do Sul. 6Hoje, os brasileiros de
origem judaica formam um setor importante do grande melting pot que é São
Paulo. Não saberia dizer quantos são, mas certamente um número próximo a
75 mil.
- É uma população muito ativa, integrada, com muita criatividade e
realizações significativas nos mais variados campos - arte, cultura, indústria,
comércio, finanças, esporte, ação social ou profissões liberais. A
partir dos anos 30, mas principalmente depois da Guerra, começaram os
judeus brasileiros e ingressar na política, e aí, deve ser destacado, também
não houve qualquer discriminação. Mais recentemente, vem ganhando corpo
um movimento de integração ecumênica, entre cristãos e judeus, que vem
progredindo através de um esforço de esclarecimento dos adeptos de uma e
outra religião, o que certamente representa um importante fator de eliminação
de preconceitos.
- Pequenos grupos, como a TFP, ou os neo-nazistas, tentam reproduzir as
ideologias que levaram à 2.ª Guerra Mundial e ao Holocausto. Não creio
que tenham grande significação, mas a História nos ensina que é um erro
subestimar a nocividade desses movimentos, pois o fanatismo é sempre
perigoso. E eu me lembro que, em 1932, Hitler era alvo de chacota, mas em 33
assumiu o poder.
- E agora, para terminar, gostaria de voltar ao problema de identidade, de
que falei de início. Antes de existir o Estado de Israel, os judeus não
tinham qualquer problema em relação ao seu status político - os
brasileiros natos ou naturalizados eram pura e simplesmente brasileiros; e
os estrangeiros deviam lealdade aos países de que eram nacionais. Quando
Israel foi fundado como nação, houve quem pensasse em filiação de judeus
brasileiros ao Estado de Israel, ou pelo menos na criação de uma dupla
nacionalidade. A reação aqui foi categórica - nada podia mudar. Podemos
ser favoráveis à existência do Estado de Israel, contribuindo moral e
materialmente para o seu desenvolvimento (e eu também sou favorável), mas
isso apenas como simpatizantes, em caráter estritamente voluntário, sem
nenhuma imposição ou vínculo de lealdade política. O contrário seria
impensável, pois todos nos orgulhamos de ser brasileiros.
- José Mindlin é empresário e escritor
-
Como foi
o 14 de maio de 1948 em Tel-Aviv
JACQUES SCHOP
Cinqüenta anos separam Fiszel Czeresnia
1948, quando David Ben Gurion leu, no salão do Museu de Tel-Aviv, a declaração
de independência do Estado de Israel. Esse senhor de 75 anos, nascido polonês
de Stopnica e naturalizado brasileiro de São Paulo, inicia uma viagem de
volta pelo tempo. Precisamente para o dia 31 de janeiro de 1948, quando a
aventura do grupo de dez jovens brasileiros, do qual ele fazia parte, a
caminho do Oriente Médio começara. Por alguns instantes, ele parece
retornar ao cais do Porto de Santos de onde o navio Santa Cruz zarpou, fez
uma escala no Rio de Janeiro e seguiu viagem com destino a Gênova.
"Muitas pessoas vieram de São Paulo para se despedir do grupo." O
objetivo era participar de um curso para líderes de comunidades judaicas
fora da Palestina, promovido pela Organização Sionista Mundial (OSM). Do
programa, participariam jovens ativistas judeus de todo o hemisfério sul.
No entanto, pela situação tensa no Oriente Médio, os participantes dos
outros países haviam cancelado sua viagem, provocando o adiamento do curso.
Sem saber das desistências, os brasileiros embarcaram. Em sua jornada pelo
tempo, Fizsel avança mais algumas semanas. Agora já está na Itália. A
chegada à Palestina ocorreu em 13 de março de 1948. "Foi num sábado"
diz Fizsel. A disposição dos brasileiros de atravessar o oceano para ir a
uma região prestes a entrar em conflito impressionou os dirigentes judeus.
Tanto assim que uma delegação liderada por Yossef Almog, chefe da
todo-poderosa Federação Geral dos Trabalhadores (Histadrut), foi receber o
grupo.
- O percurso até o lugarejo próximo a Haifa onde se hospedariam
inicialmente foi feito em um ônibus blindado. No primeiro passeio,
perceberam o clima: que tomava conta da região. "Perto da parte árabe,
as pessoas comprimiam-se todas de um lado da calçada, enquanto o outro
permanecia vazio", conta Fiszel. "Depois ficamos sabendo que as
pessoas preferiam se apertar a ser alvo de franco-atiradores." Outra
surpresa, ainda em Haifa, aconteceu na primeira noite, quando os brasileiros
foram a um salão de baile. "Estávamos dançando, quando a orquestra
começou a tocar Tico-Tico no Fubá", conta. "Foi maravilhoso,
porque nunca pensamos que pudéssemos ouvir uma música tão familiar em um
lugar tão distante." De Haifa, o grupo foi transferido para Tel-Aviv,
de novo, em ônibus blindados. A rota do norte para a região central da
Palestina, era entremeada por dezenas de vilarejos árabes e as emboscadas a
comboios judeus eram freqüentes desde novembro de 1947. Perto de Tel-Aviv o
comboio foi desmantelado e os estudantes brasileiros seguiram para a cidade
em transportes comuns. A programação inicial era ficar por lá por mais três
dias e, então, ir para Jerusalém, onde fariam o curso.
- Uma pequena pausa e Fiszel começa a contar como os brasileiros foram
envolvidos pelo conflito entre árabes e judeus na Palestina sem sequer ter
disparado um único tiro. Um dia antes do embarque para Jerusalém, as
bagagens do grupo foram despachadas junto com um comboio que levava
suprimentos para a parte judaica daquela cidade. Horas mais tarde, os
brasileiros souberam que a caravana de carros blindados da Haganá (a força
paramilitar precursora do Exército israelense) fora atacada próxima ao
acesso de Jerusalém. Esse fora o último comboio que conseguiria
ultrapassar o bloqueio imposto pelo Exército Voluntário Árabe, que, se
utilizando das aldeias que controlavam a única rota para Jerusalém,
interrompera a estrada. "Se eles decidissem atrasar algumas horas o início
do bloqueio, provavelmente teríamos sido envolvidos nos combates."
Mesmo tendo sido poupados de um ataque direto, os brasileiros sofreram prejuízos.
Dois baús de roupas pertencentes a membros do grupo foram queimados durante
o ataque. "E os que não foram atingidos não nos serviram para muita
coisa, pois Jerusalém estava isolada e eles não tinham como mandar de
volta nossas coisas." Resultado: os estudantes tiveram de montar um
guarda-roupa provisório. Fizeram uma "vaquinha" e compraram
algumas peças de roupas. As bagagens só voltariam três meses depois,
quando tropas israelenses liberaram o acesso.
- Com Jerusalém debaixo de cerco, a OSM improvisou o curso no campo de
estudos de Guivat HaShloshá, próximo a Tel-Aviv. Lá já eram
centralizados os cursos para professoras que ensinariam nos ginásios judeus
espalhados pelo país. "Enquanto estivemos no seminário víamos um
grupo de garotas", recorda. "O mais curioso é que recentemente
vim a saber que nessa turma de professoras de 1948, que dividiam o seminário
conosco, estava Léa, que seria Rabin." O curso de liderança começou
no fim de março e foi até agosto.
- Mas é o mês de maio que está bem guardado na memória de Fiszel. A tensão
entre colonizadores ingleses, árabes e judeus chegava ao auge, com o fim do
mandato britânico estipulado para o dia 15. Por um lado havia a insinuação
de algumas potências na ONU, entre elas os EUA, de que a partilha da
Palestina deveria ser postergada por causa da iminência de um conflito na
região. De outro, os países árabes, que não aceitavam a resolução das
Nações Unidas, e prometiam invadir a Palestina assim que os britânicos saíssem.
- Entre a população judaica, os rumores nas ruas eram de que a proclamação
do Estado seria adiada. A liderança sionista resolveu agir. Fizsel lembra
da excitação com que a informação de que a independência seria
proclamada no dia 14, 24 horas antes de expirar o prazo da retirada britânica,
fora recebida em Guivat HaShloshá. "Era um clima de agora ou nunca;
uma espera que já durava quase 2 mil anos." No dia marcado, o monitor
responsável pelo grupo decidira levá-los a Tel-Aviv na esperança de
encontrar o local onde a cerimônia seria realizada. "Temendo uma onda
de violência, os ingleses haviam declarado toque de recolher e proibiram
aglomerações em todas as cidades da Palestina", diz. "Mesmo
assim decidimos ir em grupo. Por volta das 16 horas, estávamos caminhando
pela Rua Rotschild quando escutamos, pelo rádio de uma das casas, a voz de
David Ben Gurion. Pedimos para entrar e escutamos toda a cerimônia."
No fim da transmissão o grupo estremeceu. "Quando ele disse estar
falando direto do Museu de Tel-Aviv, percebemos que estávamos na mesma rua,
a menos de um quilômetro do local." As poucas pessoas que estavam na
rua naquela hora devem ter estranhado a correria de um bando de jovens pela
rua Rotschild. Chegaram ao museu na hora em que os principais líderes saíam,
aplaudidos por uma pequena multidão. "David Ben Gurion passou a alguns
metros de mim. Lembro-me de um judeu de barba branca que se aproximou dele e
disse: "Davizinho, fique firme." À noite, não dormiu, lembra
lacrimejando: "Tive a oportunidade de presenciar o renascimento de todo
um povo, o momento mais importante da vida judaica contemporânea. Você
sabe o que é isso?"
-
Telefones
para Ben Gurion e Golda
RENAN ANTUNES
NOVA YORK - Akiva Kohane é um dos
fundadores do Estado de Israel - não importa que seu nome não esteja
registrado com destaque nos livros de história. Sua participação consegue
ser banal e essencial: ele instalava telefones, usados depois por notáveis
como David Ben Gurion e Golda Meir.
- "Trabalhar com eletrônica era o sonho da minha vida, fazê-lo num
momento decisivo de Israel é mais do que eu podia esperar, estou
realizado", diz Kohane, de 69 anos, engenheiro eletrônico aposentado.
- Hoje, nosso homem leva uma vida confortável em Manhattan, onde mora com a
mulher, Paulette, e dois filhos adultos. Para que ninguém pense que foi fácil,
ele e a mulher, judia francesa, têm gravados a fogo, nos braços, os números
infames dos campos de concentração.
- Menino judeu na Polônia ocupada pelos nazistas, Kohane gostava muito de
estudar - só que judeus não podiam ir à escola. Ele foi educado em casa
pelos pais. Devorava qualquer coisa que lhe caísse nas mãos, manuais de
eletrônica, revistas velhas, bulas de remédio.
- Kohane "interrompeu" os estudos à força na adolescência - foi
internado em Auschwitz, onde perdeu a família. Libertado pelos americanos,
Kohane foi mandado para um campo de refugiados na Itália: "No meu
primeiro prato de espaguete e uma ópera depois, voltei a dar valor à raça
humana", diz.
- Em 1946, o jovem Kohane queria mais, queria tudo que lhe tinha sido
negado. Ele embarcou num navio cargueiro, com lugar para apenas 300 pessoas,
onde estavam socados outros 2 mil judeus, para a viagem de uma geração:
construir o Estado de Israel na Palestina.
- Logo, mais guerra, agora contra os árabes, pelo território. Kohane vira
soldado. Apesar da figura frágil, carregava um radio-transmissor de 18
quilos, nas mãos uma pistola, na cabeça uma determinação: "Sair
vivo da luta, construir Israel, era tudo o que a gente queria".
- Os judeus começaram a acumular vitórias militares e uma diplomática: o
reconhecimento de Israel pela ONU. "Ouvimos cada voto pelo rádio, sim,
não, aquela agonia, até a vitória. Aí, comemoramos feito loucos, pela
madrugada."
- Foram anos e anos de trabalho duro, jornadas de 12, 16 horas, na companhia
telefônica. "Eu não era mais soldado, era um engenheiro, mas pegava
no pesado como qualquer operário, naquele tempo era necessário."
- É desse tempo de paz que Kohane mais se orgulha: "Levantar do nada
uma telefônica, com todas as suas linhas, permitindo que as pessoas
pudessem comunicar-se, foi minha contribuição", conta, exibindo
fotos, onde aparece pendurado numa escada. "Que sorte a minha poder ter
ajudado Israel", comenta, acariciando a foto.
- Aos 27 anos, Kohane descobre que um parente escapou ao Holocausto. Um tio
estava vivo, na América. Ele desembarca em Nova York, com US$ 128, para uma
reunião emocionante. "Vivos, eu e ele vivos, nos abraçando."
- Logo, Kohane arruma emprego. Poucos anos depois, funda um estúdio de som
em Hollywood, a fábrica de sonhos. Mas o homem continua com os pés no chão:
ajuda associações de refugiados, ajuda sobreviventes do Holocausto.
- Kohane vendeu a firma. Hoje, mora sem ostentação num dos lugares mais
caros do mundo. Paredes são forradas de livros. A maioria é sobre eletrônica.
Singelamente, diz: "São algumas coisinhas que eu ainda tenho de
estudar."

Em Nova York, sonhando com Haifa
-
NOVA YORK - As janelas do apartamento de dona Efrat Abrams, na Quinta
Avenida, abrem-se generosamente para o Central Park. Mas essa mulher rica e
elegante não escolheu o lugar por causa do parque. Às vezes, ela nem olha
para baixo, só para o céu: "Vejo as nuvens, as formações de cúmulus,
cirrus, nimbus, é tudo como em Israel", diz, com uma pontinha de
nostalgia da juventude. Dona Efrat adora sua vida de grande dama da parte
que conta da sociedade nova-iorquina - a elite judia -, mas fala com mais
orgulho dos tempos na Força Aérea de Israel.
- Seus avós participaram dos movimentos europeus pela criação de Israel,
no século passado. O pai, um construtor polonês, e a mãe, artista e
professora ucraniana, foram para a Palestina em busca do sonho, nos anos 30.
A menina nasceu em Jerusalém, tendo o sagrado Muro das Lamentações como
quintal de casa.
- A coisa mais difícil de se arrancar de dona Efrat são memórias ruins,
mesmo ela tendo nascido numa das regiões mais duras do século. "Ela
teve uma infância feliz, uma adolescência feliz e vive feliz até
hoje", conta o marido, Floyd Abrams, judeu americano.
- Sem dúvida, dona Efrat é do time dos felizes e sortudos. Seus momentos
de maior ansiedade eram quando o pai saía de casa, para atuar nas milícias
judias clandestinas. Houve ocasiões em que ela até ouviu tiros "lá
pelo setor árabe da cidade". Dona Efrat atravessou incólume todas as
confusões, sempre com um sorriso no rosto, bonita até em uniforme militar.
"As ruas de Haifa (onde cresceu) eram calmas, os vizinhos ajudavam-se
uns aos outros, a fraternidade estava no ar", conta.
- Em Haifa, a menina de 13 anos passou a ajudar seu povo numa missão nobre:
lecionar hebreu para os recém-chegados. Aos 18, nos anos 50, Efrat foi para
a Força Aérea. Nada de grandes aventuras. "Era abrir a janela e
reportar tempo bom, temperatura estável, foi onde acabei pegando minha paixão
pelas nuvens."
- Mister Floyd interrompe: "Ela é toda romântica, poética,
apaixonada pelas nuvens." Dona Efrat corta o marido, com graça, e
desce das nuvens: "Não havia nada engraçado no nosso posto",
conta, notando que estava no Deserto do Sinai. "Pensa que era fácil?
Eu e uma amiga éramos as únicas meninas."
- "Conta aquela do shortinho", estimula o marido. "Fazia mais
de 40 graus, fomos tomar banho no mar, mas uma patrulha nos encontrou e nos
obrigou a voltar", desconversa. No quartel, tomou um pito do comandante
- ninguém menos do que Itzhak Rabin, mais tarde primeiro-ministro.
- Um dia, quis mudar de ares. Escolheu Nova York. "Eu só moraria aqui,
ou em Israel." Logo, entrou com tudo no circuito de festas dos ricos e
elegantes - numa dessas, em Connecticut, conheceu o futuro marido. "Ela
era uma mulher de difícil manutenção", brinca mister Abrams,
"além de usar shorts muito curtos para a época" (nos EUA).
- "Meu jeito de ser era o de uma garota de Israel, emancipada, muito
mais culta do que vocês americanos", rebate, sempre com charme.
"Aquilo que eu vivi naqueles anos são as coisas que eu mais valorizo.
Mesmo em guerra, a gente dançava, cantava, era feliz."
- Dona Efrat tira do álbum uma fotografia e entrega ao repórter. É ela,
em uniforme, olhando para o lado, com ar sonhador e desafiante. Ajeita o
elegante terno de lã e se despede: ela e o marido vão a uma festa. (R.A.)
-
O cinqüentenário
do Estado de Israel
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
- Uma série de circunstâncias históricas faz com que o Brasil se sinta
ligado de forma muito especial às comemorações dos cinqüenta anos do
Estado de Israel: a excelência das relações bilaterais ao longo desses
anos, a extensão e papel positivo da comunidade judaica no Brasil e, ainda,
a importância que atribuímos ao êxito do processo de paz no Oriente Médio.
Recorde-se que coube ao brasileiro Osvaldo Aranha dirigir a histórica sessão
da Assembléia Geral das Nações Unidas que determinou o estabelecimento de
Estado judeu na Palestina e que seria seguida, após alguns meses, da
proclamação da criação do Estado de Israel.
- Para nós brasileiros, a contribuição inicial para que se tornasse
realidade a aspiração de retorno do povo judeu a seu lar nacional deve ser
motivo de orgulho. Mas celebrar o Estado de Israel é, também, uma forma de
demonstrar nosso apreço à comunidade judaica brasileira. Com sua dedicação
ao trabalho, seu profundo sentido de solidariedade e suas notáveis
contribuições à cultura e ao pensamento, essa comunidade traz um aporte
significativo aos esforços de construção de um País melhor.
- Esse insubstituível elemento humano - a integração à sociedade
brasileira de importante comunidade de origem judaica - é fator essencial
da relação histórica e mutuamente benéfica de amizade e cooperação que
o Brasil mantém com Israel. Nestas cinco décadas, nossas relações se
ampliaram e intensificaram, atingindo hoje diversas áreas e um excepcional
estágio de amadurecimento.
- Apesar de todos os esforços mundiais, a paz no Oriente Médio é um
objetivo que se tem provado esquivo. O Brasil, que mantém relações
amistosas com todos os países da área, sempre acompanhou de perto a situação,
procurando contribuir na medida de suas possibilidades para uma solução
justa, duradoura e abrangente. O atual processo de paz é possivelmente a
melhor chance que tem a região, e é por isso que vemos com preocupação
os obstáculos que têm impedido que chegue a bom termo.
- A história do Estado de Israel, embora ainda breve, apresenta uma
intensidade e uma sucessão de eventos dramáticos que encontra poucos
parelelos em nossa era. Apesar das dificuldades, há muitas realizações
nestes cinqüenta anos das quais o povo israelense se pode orgulhar. Israel
se desenvolveu, conta com a maior economia da região e atingiu níveis de
excelência em setores de alta tecnologia e na formação de recursos
humanos. Em especial, soube manter-se fiel aos princípios da democracia e
perseverar no caminho do desenvolvimento com progresso social.
- Na celebração deste cinqüentenário, nossos votos são de que o futuro
do Estado de Israel seja marcado pela crescente prosperidade de seu povo e
pela tão ansiada paz, que sabemos só é possível e duradoura com tolerância,
pluralismo e respeito mútuo.
-
Governo
de Israel propõe mais negócios aos países do Mercosul
MONICA YANAKIEW
-
- BRASÍLIA - Foi a martelada, dada pelo brasileiro Osvaldo Aranha há meio
século, que anunciou o nascimento de Israel. Na época, ele presidia a II
Sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas, que aprovou a resolução
181, determinando a partilha da Palestina em dois estados: um para judeus e
outro para árabes. Mas, apesar dessa participação num evento, que até
hoje está moldando a história do Oriente Médio, nenhum presidente do
Brasil jamais visitou o país, criado há exatos 50 anos.
- Fernando Henrique Cardoso teria sido o primeiro, se não tivesse
cancelado, de última hora, a visita programada para fevereiro passado. A
viagem - além de marcar a aproximação do Brasil a um país com dinheiro e
planos para investir em projetos de alta tecnologia - tinha um significado
político. Demonstraria que o governo brasileiro, já menos dependente do
petróleo árabe, mudaria os rumos de sua política externa no Oriente Médio.
- "Ainda não foi descartada uma visita de Fernando Henrique em
1998", assegurou uma fonte do Palácio do Planalto. O problema será
conciliar datas num ano de campanha eleitoral no Brasil, de comemorações
do cinqüentenário de Israel e de delicadas negociações para a paz, entre
árabes e judeus.
- Para evitar qualquer deslize diplomático, o presidente só poderá viajar
para Israel se for também aos territórios palestinos ocupados, cuja
autonomia vem sendo discutida desde 1991. Na visita de fevereiro passado,
estavam previstos encontros de Fernando Henrique com o primeiro-ministro
isralense, Binyamin Netanyahu, e o Presidente da Autoridade Palestina,
Yasser Arafat ? ambos eleitos em 1995. Mas os compromissos tiveram de
ser adiados.
- A explicação oficial é que FHC precisava ficar em Brasília, para
acompanhar de perto a votação de importantes reformas no Congresso.
Coincidência ou não, sua visita ao Oriente Médio foi desmarcada no
momento em que o futuro do processo de paz estava em jogo.
- "Além de estarmos diante de uma situação delicada, em termos de
política externa, é preciso levar em consideração também os problemas
de política interna", disse a fonte do Planalto. O Brasil abriga
algumas das maiores colônias de judeus e de árabes do mundo, cujos votos não
podem ser desprezados em ano eleitoral. "As duas colônias são pouco
atuantes e não se organizaram como os judeus dos Estados Unidos, mas ambas
mantêm laços com parentes no Oriente Médio", disse a fonte.
- Petróleo - Apesar de o governo brasileiro ter sido um dos primeiros a
reconhecer Israel, suas relações com o país, neste seu meio século de
existência, foram marcadas pela distância. Primeiro, havia um problema de
ordem prática. O conflito armado entre israelenses e árabes estourou em
1948, transformando o Oriente Médio numa região instável, mas de importância
estratégica para os principais atores da Guerra Fria.
- Depois, apareceu o problema econômico: em 1973, os árabes embargaram o
fornecimento de petróleo aos EUA e à Europa Ocidental. A medida - tomada
em represália ao apoio dos americanos e europeus a Israel, na Guerra doYom
Kippur - desencadeou uma crise mundial. O preço do petróleo quadruplicou,
desequilibrando as contas externas de todos os países industrializados e em
desenvolvimento, que dependiam das importações desse produto.
- No Brasil, a crise estourou no ano em que os militares anunciavam os
resultados de seu "milagre econômico": um crescimento de 14% do
Produto Interno Bruto (PIB) e de 15,8% do setor industrial. Como o governo
dependia de petróleo e de investimentos em petrodólares, para continuar
seus projetos de modernização, optou por uma política de aproximação
dos países árabes, que ofereciam outra vantagem: eram um mercado maior
para os manufaturados brasileiros, do que o pequeno Israel.
- A partir de 1973, o governo brasileiro dedicou-se a abrir uma embaixada na
Arábia Saudita; designar encarregados de negócios na Líbia e no Kuwait; e
estabelecer relações diplomáticas com Catar, Omã e os Emirados Árabes
Unidos. Em 1975, o Brasil autorizou a instalação, em Brasília, da
representação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP),
liderada por Yasser Arafat. A decisão foi tomada mesmo que, na época,
israeleses e americanos considerassem a OLP um grupo terrorista, com o qual
jamais se poderia negociar a paz no Oriente Médio.
- As relações com os países árabes - especialmente os do Golfo -
ficariam mais intensas depois do segundo choque de petróleo, de 1979.O
Iraque transformou-se no maior fornecedor de petróleo ao Brasil e no maior
importador de bens e serviços brasileiros do Oriente Médio. Em 1980, o
fluxo comercial entre os dois países chegou a US$ 4,1 bilhões. Uma década
depois a situação mudou.
- Em 1991, uma coalizão de 29 países derrota o Iraque - cuja invasão do
Kuwait, no ano anterior, poderia ter provocado um terceiro choque de petróleo.
No mesmo ano, a revolução que derrubou, um por um, os regimes comunistas
do Leste Europeu, culmina na dissolução da União Soviética e no fim da
Guerra Fria. Simultaneamente, israelenses e árabes iniciam negociações
para a paz.
- Esse contexto internacional e o fato de a Argentina e a Venezuela terem
substituído os países do Golfo Pérsico como principais fornecedores de
petróleo ao Brasil ? levou o governo brasileiro a rever suas relações
com o Oriente Médio. Em 1995, o recém-empossado presidente FHC enviou três
ministros a Israel: Luiz Felipe Lampreia, das Relações Exteriores; general
Zenildo Lucena, do Exército; e Dorothea Werneck, da Indústria, do Comércio
e do Turismo.
- Quando retribuiu a visita de Dorothea, em setembro passado, o ministro da
Indústria e do Comércio de Israel, Natan Sharansky, desembarcou em Brasília
disposto a recuperar o tempo perdido: propôs criar uma zona de livre comércio
entre seu país e o Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai).
- "Para o Mercosul, uma cooperação conosco pode ser mais vantajosa do
que com os Estados Unidos ou a Europa, porque não representamos uma ameaça",
disse Sharansky, na época. Ele estava referindo-se à proposta dos EUA de
inaugurar uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca), abrangendo 34
países do continente americano, em 2005, e às negociações entre os 15
membros da União Européia (UE) e o Mercosul, para criar algo parecido.
- Sharansky explicou que, depois de décadas de isolamento, Israel quer
rapidamente integrar-se aos blocos econômicos, que estão surgindo no mundo
inteiro. E, segundo ele, os isralenses têm muito a oferecer ?
especialmente depois que desistiram de ser um "oásis" no deserto.
- Ciência - Ao receber enormes quantidades de judeus da ex-União Soviética,
nesta década, Israel duplicou o número de seus cientistas e engenheiros.
Calcula-se que 5 mil cientistas e 50 mil engenheiros se incorporaram à sua
força de trabalho. Os investimentos na indústria de alta tecnologia também
fizeram com que o país aumentasse suas exportações de US$ 12 bilhões
para US$ 20 bilhões, nos últimos anos.
- "Agora queremos nos associar ao Mercosul, para fazer joint ventures e
produzir tecnologia para exportar ao resto da América Latina", disse
Sharansky, na época em que acertou a visita de Fernando Henrique a seu país.
Em números absolutos, Israel é o segundo maior produtor mundial de inovações
tecnológicas, depois dos EUA. "Mas em números relativos, estamos em
primeiro lugar", disse Sharansky.
- Israel investe hoje 2,9% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e
desenvolvimento. Como o número de médicos chega a 1,1% da população, o
país acabou se tornando um dos líderes mundiais na produção de
equipamentos de diagnóstico modernos. A indústria isralense, neste setor,
tem crescido em média 25% ao ano.
- Alguns dos equipamentos, desenvolvidos pelos israelenses, permitem
diagnosticar osteoporose através de ultrasom e câncer de mama por meio de
um exame de sangue. Ambos os sistemas são mais baratos e menos agressivos
que o raio X e a mamografia.
- Os israelenses também desenvolveram técnicas modernas de irrigação,
para aproveitar ao máximo as escassas reservas hídricas da região: o país
reaproveita 30% da água usada, o que é considerado recorde. Outras
empresas se especializaram na limpeza das águas, sem uso de químicos caros
e nocivos.
- A Mag Noy, por exemplo, desenvolveu um método para procriar quatro
peixes, originários dos grandes rios da China. As espécies servem de
"filtros naturais", eliminando micro-organismos e algas, e são
exportadas para a Alemanha, a Holanda e a Bélgica.
- Na sua visita ao Brasil, Sharansky e o então Ministro da Indústria, do
Comércio e do Turismo, Francisco Dornelles, decidiram organizar grupos de
trabalho para estimular a parceria de empresas especializadas na fabricação
de equipamentos médicos e de comunicação, em agroindústria, e no
aproveitamento dos recursos hídricos.
- "Apesar de Israel ser um país pequeno, somos um grande mercado
consumidor, que importa US$ 30 bilhões", disse Sharansky. Do Brasil,
os israelenses importaram em 1996 US$ 52,8 milhões ? menos que os
US$ 58,6 milhões de produtos brasileiros, comprados em 1981, quando as relações
entre os dois países eram mais distantes.
- Se o processo de paz tiver êxito, a esperança dos israelenses é gastar
menos em armas e mais em outros produtos. Eles também querem participar das
privatizações no Brasil. Apesar de exportarem pouco para o mercado
brasileiro, suas vendas aumentaram mais de oito vezes, de 1981 a 1996,
passando de US$ 22,4 milhões para US$ 187 milhões.
- O problema é que o processo de paz avança pouco. E os países árabes
ainda detêm dois terços das reservas mundiais de petróleo - algo que o
Brasil tem presente, na definição de suas novas relações na região. Por
isso mesmo enviou, há pouco, uma missão comercial ao Golfo.