KOHELET
ECLESIASTES
O LIVRO MAIS PERIGOSO DA BÍBLIA.
Um dos livros
da Bíblia, contudo, é único, diferente dos demais. Quero lhe apresentar o
mais incomum de todos os livros da Bíblia. Se fosse mais conhecido, poderia ser
também o mais perigoso livro de toda a
Bíblia. Já houve gente que se referiu a ele como tal.
É o Livro do Eclesiastes.
É um livro pequeno, pouco mais de uma dúzia de páginas
em algumas edições, empurrado bem para o final da Bíblia Hebraica, em um
lugar até onde poucos leitores costumam chegar. Mas quem chega até ele e o lê
se espanta com o que diz. Não há nada parecido em todas as Escrituras. É obra
de um homem revoltado, cínico e cético, que duvida de Deus e questiona o valor
de se fazer o bem.
"Uma geração
passa e é sucedida por outra mas o mundo permanece para sempre o mesmo"
(Ecl. 1:4).
"O homem não é superior
aos animais, pois ambos nada significam. Como morre um, morre o outro e ambos têm
o mesmo destino"
(Ecl. 3:19). Em minha própria e curta vida aprendi
isso:
“o homem bom morre apesar de sua
bondade e o homem mau sobrevive apesar de sua maldade, portanto não se esforce
para ser particularmente bom, pois você pode ser surpreendido"
(Ecl.
7:15-16).
Alguém mais
na Bíblia fala assim? Praticamente a metade das páginas da Bíblia insiste em
dizer que cada ato nosso, por menor que seja, é importante. Lemos que Deus se
importa com o que comemos, com quem dormimos, como ganhamos e gastamos o
dinheiro. O Eclesiastes de repente nos diz que Deus não se importa realmente
com qualquer destas coisas. O rico e o pobre, o sábio e o tolo, o puro e o
pecador são todos a mesma coisa ante Seus olhos. Vivam como viverem, todos
envelhecem e morrem e são logo esquecidos. A maneira pela qual viveram não
parece fazer qualquer diferença.
O Eclesiastes
não é um mero professor de sabedoria, ainda que mais honesto e direto que a
maioria deles. Não é apenas um inimigo da afetação e da hipocrisia. É um
homem com um medo desesperado de morrer antes de aprender a viver. Nada do que já
fez, nada do que fará teria importância, pois um dia morrerá e será como
nunca tivesse vivido. E ele não consegue suportar este medo de morrer e
desaparecer sem deixar um traço de si.
"O destino do tolo é o meu destino também; de
que serviu, então, minha sabedoria? Ela foi também em vão porque tanto o sábio,
como o tolo, não serão lembrados. À medida que passam os dias, um após
outro, ambos serão esquecidos. Ai de mim já que o sábio morre da mesma forma
que o tolo". (Ecl.
2:15 - 16).
Ele nos conta
no livro, a história de sua vida. Escreve sobre seus sucessos e sua frustações
e sobre todas as maneiras pelas quais tentou ter sucesso e fazer qualquer coisa
de sua vida e ainda sobre todas as razões por que nunca conseguiu responder
realmente a pergunta: Qual o significado de tudo isso, a longo prazo? Do
Eclesiastes se tem dito que é o livro mais pessoal da Bíblia. Os profetas e
outros autores bíblicos nos contam às vezes suas vidas, suas conquistas e
experiências. Mas ninguém mais divide conosco seus mais profundos temores e
frustrações como faz o Eclesiastes.
Aparentemente
o Eclesiastes foi um homem muito talentoso. Na juventude, decidiu ganhar
dinheiro e parece que conseguiu:
"Multipliquei
minhas propriedades, construí casas e plantei vinhedos... Obtive mais riquezas
que qualquer outro antes de mim."
(Ecl. 2:4,9).
Mas ele
aprendeu que a riqueza não é a resposta. Compreendeu que seu dinheiro pode ser
perdido com a mesma facilidade com que o ganhou. Ou pode morrer e deixar tudo
para alguém que nunca trabalhou para obtê-lo. Ele vê gente rica a gastar sua
fortuna estupidamente e vê gente que adoece e passa seus últimos anos numa
infelicidade que riqueza alguma pode aliviar.
"Há um mal que observei sob o Sol e é um mal
muito grave para o homem: Deus às vezes lhe dá riqueza, propriedades e
prosperidade, de forma a que nada lhe falte, mas não lhe permite aproveitar
tudo isto. Se um homem tiver cem filhos e viver por muitos anos mas nunca chegar
à alegria completa, digo que o natimorto, que nem chega a ter um funeral, é
mais afortunado que ele." (Ecl. 6:1 - 3).
Como tantos jovens ricos, o Eclesiastes dedica-se ao prazer, bebendo e se divertindo e experimentando todas as sensações que o dinheiro pode trazer. "Disse a mim próprio: vem, que vou te dar os prazeres. Aventurei-me a tentar minha carne com vinho... Não neguei a meus olhos qualquer coisa que eles quisessem ver... Tudo isto também descobrí que era em vão. Quanto aos prazeres também perguntei: para que serve tudo isto?" (Ecl. 2: 1, 10, 2).
Quando se é jovem
não há problemas em dedicar o tempo aos prazeres. Afinal, como acontece com
todos os jovens, seu tempo é ilimitado, há anos e anos à sua frente e ele
pode se dar ao luxo de desperdiçar alguns deles. Mas, quando fica mais velho e
seu tempo se torna mais precioso, começa a perceber que a vida de prazer
ininterrupto não passa de um meio de fugir ao desafio de fazer alguma coisa
significativa em sua vida.
O prazer pode ser o tempero da vida mas não a sua
essência, porque, ao terminar, nada valioso e durável permanece.
O tempo, que fora antes a fonte de sua vantagem sobre os mais velhos, torna-se agora um inimigo. Ele começa a perceber que seu tempo está esgotando. O Eclesiastes nos deixou estas linhas memoráveis: "Tudo tem seu tempo certo; há um tempo para cada coisa sob os céus: um tempo para nascer e um tempo para morrer, um tempo para plantar e um tempo para colher, um tempo para chorar e um tempo para rir, um tempo para o luto e um tempo para dançar". (Ecl. 3:1 - 4).
Agora este autor de meia-idade está começando a suspeitar de que as boas coisas ficaram para trás, que a maioria delas já aconteceu e que o tempo à sua frente é principalmente o tempo de chorar e de se preocupar.
Há um conto de Joane Greeberg, cujo título foi tirado do Eclesiastes: Things in Their Season. (Cada Coisa a Seu Tempo). Nele, um grupo de pessoas descobre sem querer que o Governo está cobrando secretamente um imposto sobre o tempo, nos moldes do Imposto de Renda. (Afinal, tempo é dinheiro).
Quanto mais valioso o tempo de uma pessoa, maior a proporção do desconto. É por esta razão que as pessoas ocupadas nunca parecem ter tempo suficiente, por mais eficientes que sejam. O grupo então se apossa de uma carga de tempo, pertencente a um depósito do Governo, para prolongar a vida de um seu amado professor, que está morrendo.
Mas para o Eclesiastes não há maneira de roubar tempo e prolongar seus dias.
....
A Bíblia nos mostra duas faces constantes de Deus.
Às vezes Ele é o Deus que comanda, o Deus do poder, que destrói Sodoma, que envia as pragas contra os Egípios, que separa as águas do Mar Vermelho.
Outras vezes, Ele é o Deus da ajuda, o Deus da Ternura, o Deus do Amor e do Relacionamento, aquele que visita os doentes, que leva a esperança ao sofredor.
Lemos estas histórias e ficamos compreensivelmente confusos, pois o Amor e o Poder são incompatíveis. Você pode amar alguém e dar a ele o espaço e o direito de ser ele mesmo, ou então você pode tentar controlar este alguém, impor-lhe sua vontade, para seu próprio bem ou para afirmação de seu próprio ego. Mas é impossível fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Se você
aprecia uma pessoa porque ela lhe permite fazer o que quiser e faz com que você
se sinta forte e independente, isto não é amor. Isto não leva em conta a
individualidade do outro, contempla apenas a sua utilidade. Você pode substituí-lo
por qualquer outro com as mesmas características e não sentirá qualquer
diferença. Amar alguém que é como você mesmo, que é uma extensão de sua
vontade, não é amar de verdade. Não passa de uma forma disfarçada de amor
por você próprio.
Às vezes, o Poder de Deus parece interferir no Seu Amor.
Se obedecemos a Deus porque o tememos, porque não O queremos ofender ou porque estamos tão amedrontados por Sua força e não a queremos desafiar, então Ele tem nossa obediência mas não o nosso amor.
Para que possa amar e ser amado, Deus tem que nos dar espaço para escolher, para que possamos nos tornar nós mesmos. Ele não pode monopolizar o Poder, deixando-nos sem nenhum. O contrato entre Deus e humanidade não pode ser restrito a que o Todo-poderoso nos imponha a Lei.
Tem de ser um
acordo feito livremente entre duas partes livres.