Tecnologia e Emprego

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Houve um tempo em que a luta de classes era marcada pelo desequilíbrio da riqueza. Agora, o que conta é o implacável acúmulo de conhecimento. Uma montanha de informação, algo tão grandioso que nem mais todos os anos que você possa viver serão suficientes para você armazená-la. Nem poderia ser diferente, pois assim que se aprende algo, lá vem alguém lhe dizer que você está ultrapassado e que, em algum lugar do planeta, um punhado de geeks já detêm tecnologia melhor. Passado o espanto, você percebe a dolorosa verdade: ou você aprende, dá um upgrade em seu conhecimento ou está fora do mercado.

Antes, um trabalhador braçal aprendia seu ofício em casa mesmo, com seus pais e levava poucos anos para se tornar um artífice em sua profissão. Tudo era feito com calma, tranqüilidade e amor, assim, lentamente como o ritmo do córrego que desliza suavemente no fundo do quintal, embalado pelo ritmo dos dias e das noites. Hoje, um profissional de alta tecnologia leva, no mínimo, 25 anos para conseguir uma formação razoável, além de ter que se manter permanentemente atualizado sobre todos os novos conhecimentos de sua área, sob pena de ver todo o seu saber going down the drain. Em português bem claro, ir direto para o ralo.

Você não sabe inglês? E, por acaso, já fez um mestrado? A principal virtude de um mestrado não é tanto o conhecimento que se adquire durante o curso, mas sim o aprendizado de como adquirir conhecimento de forma organizada, metódica, científica. É fascinante ver como você exercita o pensamento lógico, torna-se um pesquisador com alta capacidade de aprender por si próprio e desenvolve tato refinado para trabalhar em grupos. This is gold!(*34). A estratégia de um vencedor, de um profissional de sucesso, atualmente, envolve muito mais que somente inteligência e conhecimento. Some-se a isso grande inteligência emocional, extrema capacidade de trabalhar em grupos, verdadeiro amor por aprender, iniciativa e, last but not the least (*35), criatividade. Você não precisa definitivamente fazer um mestrado para ter sucesso na sua vida profissional, mas é importante verificar como age essa turma, saber o que lêem, os periódicos que assinam, os seminários que freqüentam e falar a linguagem deles. E, definitivamente, se você quer desbancar esse pessoal e assumir o próximo cargo disponível, só tem um jeito: usar a criatividade. Fazer antes deles, criar antes deles e levar os louros pelos lucros que você vai trazer para alguém.

O brutal acúmulo de conhecimento derrama-se sobre nós, como uma tempestade de areia fina no deserto. Rápido e caótico. Poucos têm acesso a essa esfera rarefeita de conhecimento, dando origem a uma nova classe: a dos profissionais high-tech , indivíduos que trabalham com tecnologia de ponta, tais como tecnologia da informação, robótica, engenharia genética, telecomunicações, mecatrônica.

Todo esse pessoal tem um mimo especial: acesso a salários realmente altos, mordomias, estágios no exterior, cursos de extensão pagos pela empresa e - créme-de-la–creme - bônus em ações (que é o filé da coisa toda, ainda mais se sua empresa estiver fazendo uma IPO (*36).

Os desafios e complexidades inerentes a essas profissões, somados aos longos anos de preparo e investimentos necessários para sua conclusão, tornam os poucos que conseguem alcançar esse Olimpo, seres privilegiados. O que os torna assim, tão especiais? O produto que eles vendem: domínio de, pelo menos, duas línguas estrangeiras e conhecimento, toneladas de conhecimento refinado e lapidado, pronto para exibição e consumo. O chato disso tudo são os requisitos para se enxergar um horizonte de sucesso em nossas vidas. Antes, um simples curso superior já lhe garantia um lugar ao sol. Agora, não mais. Atualmente, você deve saber que, dependendo da carreira escolhida, terá que passar o resto de sua vida debruçado sobre livros, pilhas deles, ou pesquisando na internet, atrás de centenas de tutoriais, teses, grupos de discussão, além de assinar ou comprar toda semana uma dúzia de publicações especializadas estrangeiras. E isso tem feito a diferença.

Muita gente que se formou em engenharia está aí, agora mesmo, dirigindo táxi ou vendendo cachorro quente. Aquela multidão de engenheiros, médicos, advogados e economistas formados, na maior parte das vezes, muito mais pela insistência dos pais, que viam nessas profissões a jóia da coroa, criou uma super oferta desses profissionais, que se reflete na desvalorização de seus salários hoje.

Somente aqueles que se especializaram tiveram chance. Os outros, estão fazendo tudo, menos clinicando nos hospitais ou construindo pontes.

A vida na sociedade, que deveria nos proporcionar vantagens claras sobre a vida nas selvas é, hoje, a negação disso tudo, pelo menos para boa parte da população. O indivíduo que nascia livre é, hoje, prisioneiro de uma sociedade que lhe cobra uma postura tão desafiante, tão competitiva que, para certos indivíduos, se torna uma aposta elevada demais, um verdadeiro fardo.

A cobrança da sociedade tecnológica e seus requisitos, estão alijando pessoas da vida moderna. Muitos, simplesmente, desistem e vivem na miséria endêmica ou transformam suas vidas no simples exercício de subsistência, vivendo de forma apática e conformada.

Aqui, em nosso país, contribui ainda, para esse processo, a disparidade da valorização entre o trabalho manual e o intelectual, que chega a ser uma aberração. Todos os países ricos mantêm uma relação muito mais equilibrada, mas a lembrança da saga exploratória do colonialismo português ainda mancha nossas relações trabalhistas. Identifica-se, nesse processo de desigualdade, uma postura corporativista que tem sido sistematicamente incentivada por certas classes profissionais para obterem, com isso, privilégios. O que disso resultou?

Estagnação, desencorajamento, desengajamento, grupos inteiros de excluídos, setores imensos da sociedade resignados a viverem na pobreza, pela própria dimensão do desafio e repartimento de renda, via criminalidade ostensiva.

O homem sempre teve um fascínio pela tecnologia, sempre adorou usar coisas que subtraíssem esforço do seu trabalho. E não é para menos. Acontece que a tecnologia tem sua face cruel dentro do contexto atual. Subtrai tanto esforço que acaba retirando do jogo seus participantes. Uma verdade nisso tudo ficou clara: ela é para ser utilizada e não para ser paparicada por um exército de empregados formados em faculdades por ai.

A tecnologia é ótima para os negócios, não para aqueles que cuidam dela, já que precisa de muito poucos para isso, e o dia chegará que não precisará de mais ninguém. 

Não está longe o amanhecer de uma era em que os computadores vão, por exemplo, se auto-instalar, auto-diagnosticar e você não vai mais ficar lá, que nem um louco, reinstalando sua cópia de software que perdeu umas DLL's ou seu sistema operacional detonado por um vírus.

Use e abuse da tecnologia, but be extremelly carefull (*37). Saiba que ela está caminhando para ser auto-suficiente e que você será mais útil criando coisas totalmente novas. O que valerá, definitivamente, será sua capacidade criativa e não toda essa decoreba atual. 

Veja o exemplo das fábricas de automóveis, que têm reduzido sistematicamente seus operários. A super especialização em tarefas exóticas pode ser uma saída. Entretanto, não é a única. Em um mundo globalizado, clientes para você é que não faltarão. O que vale, agora, é criatividade. Senão, veja os exemplos da Yahoo, da israelense Mirabilis e seu fabuloso ICQ, que já trocou de dono, é da AOL, da Real Networks e os seus Real Player e Real Video e da criativa Microsoft, que soube como disponibilizar ferramentas fantásticas a um custo muito menor que seus concorrentes. Isso só para citar alguns.

A tecnologia é boa para as empresas, traz lucros e isso já é um bom argumento. Para os usuários a conta não é tão vantajosa assim: traz comodidade, mas muita despesa também. Veja o exemplo dos telefones celulares. Hoje, até mendigo tem celular e o que isso acrescentou de benefício na nossa vida? Para falar a verdade, muito pouco. Nada que não pudéssemos fazer antes. Em compensação, nosso custo mensal com conta telefônica aumentou vários dólares.

Fala-se muito da velocidade das comunicações, da era da informação, essas coisas, mas isso parece mais aquele papo de vendedor de automóvel: empurram um monte de acessórios que só servem para encarecer absurdamente o carro e que só contribuem para aumentar a tua despesa, quando aquele monte de porcaria começa a quebrar.

As empresas gastaram uma fábula de dinheiro fazendo downsizing de seus mainframes e investindo pesadamente em microcomputadores, só para descobrirem, mais tarde, a dor de cabeça que é gerenciar centenas de softwares piratas que os usuários instalam mesmo e sobre os quais as empresas têm pouco ou nenhum controle. Gastaram outra fortuna com a sôfrega atualização que a indústria de software impõe aos seus usuários, gerando custos astronômicos, sobre a desatualização de seus hardwares que, em pouco tempo, não conseguem executar com performance adequada esses mesmos softwares atualizados. Isso impõe aquisição de novos microcomputadores ou atualizações de hardware. É uma bagunça. Agora elas já falam no netcomputer . Este, na verdade, é uma volta ao passado centralizador dos mainframes, que agora eles chamam de superservidores, plataforma alta, etc., só que com as benesses da largura e velocidade das tecnologias de topologia lógica das redes atuais, como Fast Ethernet, Giga Ethernet, além da fibra ótica. Ou seja, vendem velhas idéias com nomes novos e fazem todos de bobos. E tudo isso é vendido aos empresários em nome da redução de custo, incremento de competitividade, produtividade. E estão certíssimos, a coisa funciona mesmo. Só não dizem, para esses mesmos empresários, o inferno astral que vai acontecer depois. Principalmente, custos infernais com atualizações.

A indústria é muito cretina nesse aspecto. Inventa uma coisa e depois fica lá, maquinando um jeito de obrigar o infeliz que comprou o cacareco eletrônico, a ficar gastando um rio de dinheiro com sucessivas atualizações. E essas atualizações, na maioria das vezes, são completamente desnecessárias, sob o ponto de vista da produtividade do cliente, mas realmente eficazes para o demonstrativo trimestral, que é disponibilizado para os acionistas do fabricante. É uma competição desleal, até mesmo entre os empresários. Na maioria das vezes, eles têm uma plataforma tecnológica perfeitamente adequada às suas necessidades.

Porém, a aquisição de uma plataforma mais moderna pelo seu concorrente mais abonado (e que, conseqüentemente, vai trazer maior recurso tecnológico e produtividade), o obriga a investir dinheiro de pesquisa em atualizações de hardware e software e ficam nesse círculo vicioso. Quem paga a conta? Eu? Você?

Não. Quem paga a conta é o trabalhador dessas empresas mesmo. Porque chega uma hora em que o empresário não agüenta a competição e faz uso do mesmo remédio antigo que você usa quando sua conta está baixa. Você não manda a empregada embora?

Cada unidade industrial emprega cada vez menos. Cada unidade de serviço, idem. Veja as razões desse comportamento, compare com o que está acontecendo nos países do primeiro mundo e veja para onde o futuro caminha. O futuro caminha para os extremos: empresários poderosos e ricos ou funcionários extremamente bem preparados. Respire fundo, prepare-se com antecedência e escolha uma das pontas. Não queira, nem em sonhos, ficar no meio disso. Não fazer nada é péssimo, mas fazer mal feito é horrível, pois além de você não atingir seu objetivo, ainda fica aquela sensação que era então melhor ter ido para a praia e ter pego umas ondas. Pelo menos, você teria curtido a vida.

Atualmente escolher uma profissão deixou de ser um exercício da fantasia, para tornar-se seu passaporte para o futuro. Faça uma análise criteriosa da relação custo-benefício. Saiba que muitas profissões atuais desaparecerão nos próximos 30 anos. Pense com toda sinceridade e seja extremamente realista. Escolher uma profissão que você sabe tratar-se de algo que tem uma taxa de remuneração baixíssima, mas que você adora, só é valido se você tiver total consciência disso e bancar, no futuro, todo o sacrifício advindo de sua decisão no passado, sem se arrepender. Nesse caso, imaginar-se vivendo no limite daqui a 20 anos é mister e veja o que você sente. Saiba com toda a certeza que, o que hoje está ruim, amanhã vai estar muito pior. Tente, também, levantar o perfil dessa profissão e a taxa de remuneração ao longo dos últimos 20 anos, a demanda por esses profissionais, etc...

Se você fizer uma análise criteriosa e estratégica, as chances de você ter sucesso serão muito maiores. No caso das profissões novíssimas, particularmente surgidas de instâncias de novas tecnologias, o cuidado deve ser redobrado. Podem durar 20 anos ou 5, a gente nunca sabe. Nesse caso, opte por um currículo tradicional e use essa nova tecnologia apenas como especialização, nunca como uma profissão em si mesma. Nada de aventuras, se você não nasceu em berço esplêndido. Também todo cuidado com os ditos MBA's (*38). Tem muito curso no mercado que não passa de um amálgama de novos conhecimentos jogados sobre o aluno, sem critério nenhum. Aliás, com um único critério: o preço altíssimo. MBA bom mesmo ensina você, principalmente, a pensar e tomar decisões. Estes, por serem realmente excelentes, custam caríssimo, não ficam somente entupindo você de informações.

Quer um exemplo? O MBA de Wharton, da Pennsylvania University em San Francisco, considerado um dos melhores do mundo, custa aproximadamente $115,000 e dura, em média, entre um e dois anos. Em compensação, você sai de lá direto para a presidência de uma multinacional. Mas, na média, um bom MBA em uma universidade americana, custa algo em torno de uns $45,000. Algo que, realmente, faz uma diferença incrível nos MBA's das universidades, tanto americanas quanto européias - principalmente na França, Alemanha e Suíça - é que as classes são multinacionais. Isso que lhe dá uma experiência cultural e oportunidade de investigação do tipo de pensamento deles , que é fora de série, até por que todos os trabalhos de um curso MBA são feitos em grupo. Viver e aprender em um ambiente assim é o paraíso aqui na terra que, infelizmente, só alguns privilegiados têm acesso. Sem falar que, depois do curso, você vai se sentir um verdadeiro Deus, numa terra de ignorantes. Assim, na próxima vez, ao invés de pedir um BMW para o seu pai, pense duas vezes. Vá para Wharton e descubra o que é realmente viver a vida e ser feliz.

Para suprir aqueles que não podem ausentar-se tanto tempo assim de seus afazeres, surgiram os MBA online. Tomam dois anos, em média, do seu tempo e custam algo em torno de $32,000. Pessoalmente, acho caríssimo para um curso online . Um deles é a Kelley School of Business, da Indiana University, lançado em 1999. Sem contar com a incrível experiência de um MBA multinacional, como descrito acima, resta o consolo de boas indicações de livros e metodologias modernas de investigação e a certeza de estar na crista da onda. Se você quiser saber mais sobre cursos MBA e sobre e-learning e MBA online, veja no site da BusinessWeek. Há mais de 250 referência lá.

Se você não pode sumir do mapa e aparecer em São Francisco, eu pessoalmente recomendo, como leitura obrigatória, certas bíblias da globalização.

Certamente, as mais tradicionais têm a minha preferência. Outras, mais novas são ótimas, mas podem nem mais existir quando esse livro for lançado, como certas coisas que acontecem nesse mundo globalizado, que surge como modismo e desaparece sem deixar vestígios, apesar de serem admiráveis. Tenha sempre à mão, ou pelo menos tente, dar uma olhada com certa freqüência, na Businness Week, PC Magazine, eCompany, Time Magazine, Neewsweek, Forbes, Wired, nas nacionais Veja, Exame e Isto É. Além disso, sempre cadastre-se em todos os newsletters relativos à sua profissão, de sites nacionais e estrangeiros. Quanto mais, melhor, porque trazem informações resumidas e são excelentes informativos do que está acontecendo no mundo. E não se esqueça: procure ler as obras de todos os gurus de administração modernos.

Indústria e Comércio desperdiçam uma quantidade astronômica de esforço numa competição que eles forjam entre si e que prejudica a todos. Principalmente o consumidor final porque, freqüentemente - e isso é notório na indústria de software - na ânsia de lançar novos produtos, o fazem cheios de bugs. Depois, toma patch, service pack para tapar a buraqueira que eles deixaram lá, para nosso desespero. Mas, como a competição não é o bálsamo milagroso que reduz preços e traz benefícios a todos? Não é bem assim. A competição colaborativa, participativa, reúne esforços de todos para o bem comum e todos saem lucrando no final, pelo esforço de cada um em fazer de si o melhor. Mas, a competição predatória em que se engalfinharam as grandalhonas, só traz benefícios a curtíssimo prazo. A longo prazo, o que se vê é que a competição está tão desenfreada que o adversário, no final, acaba comendo o seu opositor. Algo assim, bem parecido com uma selva inóspita. E é isso que as Top 100 estão fazendo atualmente. Na ânsia de dominar os mercados de seus rivais, estão comprando tudo que aparece pela frente, inclusive seus rivais. Isso leva, inevitavelmente, a cercear o consumidor de variedade. Isso lembra o supra-sumo da pirataria inglesa.

Para eles, nenhum navio era grande demais para ser abordado e tomado, como pode ser lido em “A Riqueza e a Pobreza das Nações”, de David S. Landes, aliás uma obra prima de história. Da mesma natureza é a estratégia das Multis - se não podemos ganhar dinheiro nos negócios, o jeito é arrebatá-lo de quem o ganha.

Piratas modernos.

Uma coisa realmente incrível foi a disseminação da internet, e sabe porquê?

Por que a internet teve sua gestação nos meios acadêmicos. Não foi infectada pelo vírus moribundo dos interesses econômicos, nasceu livre e, a despeito de esforças contrários de toda natureza daqueles cretinos que insistem em nos empurrar pela goela abaixo seus produtos, permanece soberanamente livre. E assim vai continuar, para desespero de muitos. E ai reside toda a força de sua expressão, toda a dignidade de sua conquista, feita pela sedução de um instrumento que tem uma utilidade extraordinária a um custo mínimo e acessível por todos com um mínimo de investimento. Isso é que eu chamo de competição colaborativa, onde todos ganham. Até a indústria, que tanto lutou para impor restrições, hoje se beneficia dessa tecnologia maravilhosa que é a internet, através do comércio eletrônico, o chamado e-business.

A internet é fascinante e grandiosa, até na hora que eles erram, como erraram os investidores das dot.com (*39). Bilhões de dólares foram jogados no lixo. Parte do problema foi que a grande maioria dos investimentos fluíram para áreas nas quais ela é incremental, em lugar de revolucionária. 

A verdade é que, a importância da informação e comunicação no varejo é muito menor que a logística. Ligar redes de suprimentos usando a net corta custos e melhora o tempo de resposta mas, em última instância, o que faz um fabricante prosperar é se ele consegue produzir bons produtos a baixo custo e com boa qualidade. 

Quer ver outro exemplo? Os serviços de reserva online das companhias aéreas podem contribuir para o conforto do cliente e aumentar as margens de lucro por passageiro. Mas, esse serviço nada pode fazer quando surgem grandes atrasos, causados por crescentes congestionamentos de tráfego aéreo, poucos portões de embarque, aviões antiquados e problemas mecânicos nas aeronaves. 

Construir um website profissional custa muito. Construir a infra-estrutura para suportar esse portal custa muito mais ainda. As pessoas pensavam que o vendedor de carros perderia o emprego, que as pessoas correriam em massa para comprar online, mas não foi bem isso que aconteceu. Na verdade, o que as pessoas ainda gostam é de tocar no carro novo, sentir o cheiro, sentar-se e fantasiar. 

Na América, eles chamam varejo de retailing, e o web commerce de e-tailing. Pois saiba que o e-tailing representa, hoje, 1% de das vendas de varejo. Isso lá. Imagine aqui. Ainda mais, seria ótimo se a realidade fosse o espelho de nossas fantasias. Os empresários adorariam se todos se lançassem num frenesi de compras online, o shopping virtual pela web, pelos WAPs. Seria, realmente, ótimo, para eles mas, gostem eles ou não, sexo , jogos e apostas são, disparadas, as aplicações que reúnem o maior número de fanáticos em volta de um computador. E, para piorar, querem que façamos compras online usando os celulares, como se fosse assim, simples, colocar a foto de uma geladeira duplex naquele quadradinho verde. Mas, só o que conseguem é reunir um monte de garotos japoneses mandando recados para suas namoradas, num frenesi de torpedinhos.

A vida é tão simples. E tão fácil encontrar nichos para se ganhar dinheiro. Por que insistem em complicar nossos desejos?

Aliás eu custo a entender o comportamento de certos empresários. Na ânsia de se considerarem moderninhos tratam de adotar toda e qualquer prática administrativa que surge lá fora. Quer exemplos? O downsizing. Foi a ruína de muitas empresas. O outsourcing. Idem. Só funciona para empresas que trabalham com demandas variáveis de serviço. Algumas estatais recorreram a isso e se danaram devido a custos elevadíssimos. Os ditos callcenters. Deus me livre! Isso é um retrocesso. Para as empresas é ótimo. Para os clientes é uma tragédia. Atendimentos impessoais (na maioria das vezes feitas por funcionários terceirizados) , funcionários de baixo nível, despreparados, tempo de atendimento elevadíssimos e desconhecimento dos produtos e serviços. Um caos. Quando o mundo caminha para a customização eles aparecem com essa. Um contracenso.

Também é verdade que a noção de uma empresa só de internet não é mais viável. Assim, os vencedores serão aqueles que vêem a internet como um complemento e não com um canibal de seus meio tradicionais de competir.

Onde a internet é revolucionária? Nos serviços financeiros, como o home banking - que é realmente sensacional. Você nunca acessou um? Não sabe o que está perdendo. É revolucionária, também, em entretenimento, saúde, serviços federais e educação. Nesse último caso, as maiores barreiras são institucionais.

Vivem dizendo que estudar online não é produtivo, que você perde a integração e a sociabilidade. Dizem tudo o que você vai perder, só não deixam que esse julgamento seja exercido por nós, e o que é muito suspeito, nunca falam da perda deles. Onde ela é incremental? Por exemplo, no varejo pelas vendas online, na manufatura pela integração da cadeia de suprimentos com a produção, se bem que o que acaba mesmo com uma indústria não é a qualidade de sua rede de informação, mas a qualidade de seu produto. 

Onde a internet se destaca com grande utilidade é no serviço de agenciamento de viagens. Essa é outra coisa fantástica. Eu tentei acessar uns hotéis em Cancun e tem de tudo: mapas da cidade, localização de seu hotel, fotos dos quartos que você escolheu, os móveis, a decoração e até a vista do mar em frente a sua varanda. Você pode efetuar a sua reserva e viajar tranqüilo. Em Nova Iorque, tem até um serviço integrado que, uma vez que você tenha escolhido a data, a faixa de preço, o número de pessoas e o tempo de estadia, lhe mostra uma lista de hotéis e localização disponíveis.

Além da internet, outro movimento revolucionário é o Open Source. O Linux, do finlandês Linus Torvalds, é outro rebento dessa nova mentalidade que está surgindo, uma nova mentalidade de um novo século. Trata-se de um sistema operacional de arquitetura aberta (Open Source) que, ao ser aprimorado pela colaboração de milhares de estudantes em todo o planeta, tornou-se uma plataforma completa e estável a custo zero. A indústria de software estava lutando para não suportar o Linux, dar suporte a drives, e adaptar grandes softwares ao seu código nativo. Agora não. Outros grupos mais inteligentes já perceberam que o Linux é apenas um pequeno representante de um iceberg gigantesco, que atropela tudo que está em seu caminho, o caminho dos códigos abertos e plataformas estáveis, sem os bugs dessa competição destrutiva que aí está. O Linux foi a primeira reação da comunidade a essa palhaçada que eles estão fazendo com a gente e com o nosso dinheiro. Eles ficam nessa de ”comprem tudo que nós produzimos que depois nós garantimos que vamos fazer a coisa toda funcionar”.

Que feio! Se houvesse uma lei fixando que toda vez que seu software “desse pau” por bug você tivesse direito a uma indenização milionária, garanto a você que eles estariam calminhos, sem a menor pressa de novos lançamentos. 

Na aldeia global, o que vale é colaboração com criatividade e não competição predatória. Há pouco tempo, pipocaram no mercado um sem número de seminários sobre a execução de businness plans (*40), com custos bem salgados. Foi isso. Sobraram fórmulas mágicas para se montar um demonstrativo de negócios, tudo formalizado pela retórica acadêmica. Falavam muito de dinheiro para montar o negócio, das necessidades de capital de investimento, falaram tanto que esqueceram de dizer coisas tão antigas como o lucro para quem investiu o capital no seu negócio. Para que afinal?

Montes de investidores espreitavam, pelos cantos dos seminários, o seu plano genial. E, claro o vil metal iria sair do seu bolso mesmo. Maquiavel diz no seu livro “O Príncipe” que existem três tipos de cérebros: um, o dos que entendem as coisas por si próprios; outro, o dos que entendem o que os outros entendem; o terceiro, o dos que não entendem por si próprios e não sabem discernir o que os outros entendem. Como os últimos são maioria em países pobres como o nosso, o reflexo disso é uma minoria tentar impor, aqui, práticas que não colam mais lá fora. Mas, como a globalização agora é como um teatro ao ar livre, aquele que tenta fazer besteira aqui é logo execrado pela multidão, mesmo que seja de rotos e esfarrapados. Chato, né? Acabou a farra.

Isso me lembra, outra vez, das montadoras de automóveis. No início, tentaram vender-nos aqueles modelitos fora de linha de suas matrizes, pura sucata tecnológica e o que aconteceu? Gastaram uma fortuna depois, para recuperar a imagem da porcaria que tentaram vender aqui. Joãozinho tem razão: quem gosta de pobreza é intelectual; pobre sul-americano gosta mesmo é de luxo e tecnologia.

Trata logo de se endividar a valer, comprando tudo que era importado que desceu nas docas.

A sorte de nosso planeta é que ainda existe gente que sabe dizer não. Cidadãos que têm dentro do peito a chama que o Universo não deixa que se apague jamais e que é a essência mesmo da vida, uma expressão preciosa demais e que arrepia o nosso empresariado só de ouvir falar: liberdade de escolha. Exerça furiosamente seu direito de escolha, lute contra imposições castrantes e deprimentes, que o reduzem a um ser subserviente e espoliado. Esperneie e grite com toda força do seu ser, afinal, você é o dono do seu dinheiro. Sem o seu dinheiro eles não são nada. Lembre-se disso. O futuro de qualquer empresa está em suas mãos. Liquide, impiedosamente, os maus empresários porque o consumidor é o rei e, a ele, todos devem ser subordinados. Essa é a lei natural dos negócios.

A tecnologia tem mostrado um lado que poucos percebem. Ela forma tribos, unifica para depois separar do bolo os seus adoradores. Intimida, mas liberta. Ela diz não a essa pasteurização que anda solta por ai há muito tempo. A civilização, como nós aprendemos a conhecer, sempre foi algo profundamente castrador das liberdades do indivíduo. Sempre limitando os canais de expressão do indivíduo, através da força dos monopólios, sempre oferecendo um leque limitado de opções ao indivíduo em troca de seus falsos brilhantes, a civilização organizada no patriarcado oligárquico vê a internet, essa sereia que encanta os navegantes, atirar por terra seus sonhos de domínio e reserva de mercado. Uma profunda injustiça sempre foi cometida contra os seres humanos, pela mídia que endeusa ninfetas em prejuízo das mulheres maduras, esnoba o corpo que deu de seu trabalho por toda uma vida em favor de corpos bronzeados, nutridos e bem torneados, bombados em academias de verão. Existe uma máquina cruel que dilacera qualquer pretensão de reconhecimento de um ser humano, que não seja pelas curvas e músculos de seu corpo, pela beleza de rostos que a natureza privilegiou. Essa mania de tornar mercadoria de consumo tudo que lhes cai às mãos, criou em nossa sociedade uma multidão de excluídos, pessoas que passam pela vida com vergonha por não se ajustarem aos padrões de beleza criados pela indústria de marketing.

Uma nova forma de expressão está se formando. Pessoas unindo-se em um modo de vida diferente, onde o que vale é a capacidade do indivíduo pelo que ele representa, pelo que pensa, pela forma como se expressa, pela capacidade de valorizar o todo e não a parte, pelo que contribui para a humanidade e não pelo tamanho de sua – desculpem a expressão - bunda. Esse pessoal, mistura de geek com yuppie - os geepies – são aqueles que hoje se refugiam na tecnologia: sabem muito, adoram tecnologia, sabem valorizar a técnica para construir e não dominar, trocam informações em bandos, interagem entre si, aumentam sua sabedoria num nível absurdo, fazem o mesmo com seus salários, constroem uma nova era e estão deixando os demais em situação perigosa. 

É a geração Z, sucessora da X Generation. Essa turma se adora. Exercita o direito de se diferenciar, de fugir da mesmice, de ser tribal, de subverter os dogmas da sociedade como só a tecnologia pode fazer. Aprenderam a desaprender rapidamente, mas não costumam olhar muito para baixo não. Como a barato deles é tecnologia, estão criando um novo dialeto. E, quem quiser, que aprenda a falar a língua deles. Além disso, transformam-se rapidamente nos novos empreendedores. 

Diferente dos empreendedores do passado, marcados pelo egoísmo, pela patente, pelo copyright, pelas fórmulas secretas, essa gente, ao contrário, compartilha, troca, melhora. 

A internet é a ferramenta que possibilita essa troca de inteligência numa velocidade espantosa. É o coletivo consciente se expressando de forma global. Os geepies são, hoje, o movimento embrionário de um novo tipo de civilização, onde a competição colaborativa é o ingrediente catalisador da explosão do saber. Em um mundo de complexidade crescente, não há outra forma de sobreviver.

Competir isoladamente, querendo ser o melhor em tudo, sozinho, chega a ser uma estratégia desastrosa. Atualmente, graças ao esforço de muitos, a maioria dos trabalhos de pesquisa tem forte fonte de referência na internet. Imagine se esse pessoal fosse cobrar por tudo isso!

A era da informação está deixando seu rastilho de destruição. A próxima vítima desse processo de transformação será a classe média. Constituída, em sua maioria, por prestadores de serviços despreparados frente a uma tecnologia nova e complexa, a classe média só tem uma saída: enfiar a cara nos livros. Sem um investimento direto e rápido nesse fundamento não há caminho para a continuidade de seus pequenos privilégios. 

É como ocorreu no início do industrialismo que causou uma verdadeira devastação no emprego rural na América do século 19, obrigando massas de trabalhadores rurais a migrar para as grandes cidades, mudando completamente o perfil profissional deles, da mesma forma já esta acontecendo na era da informação principalmente na área de serviços, aliás uma área onde a classe média sobra. O indivíduo pertencente à classe média deve desenvolver uma profunda autodisciplina e o desejo de recuperar o tempo perdido, para ajustar-se a uma nova classe de profissionais que desponta: a dos analistas simbólicos, como bem definiu Jeremy Rifikin, em “Fim dos Empregos”. O indivíduo deve perceber que está entregue à sua própria sorte e deve perseguir seus objetivos usando, para isso, todos os veículos disponíveis, dentro dessa nova realidade tecnológica. Ficar sentado, esperando que o governo vá criar algum plano mirabolante para diminuir o desemprego, é suicídio prematuro.

Mercúrio olhava os homens com curiosidade. Sim, pois faz parte da vida de deuses superiores, o escárnio pelas mazelas que assombram aspirantes a deuses.

“Um dia, os homens vão perceber”, pensava com ternura no olhar, “o significado da riqueza. Mas, ainda pobres, catam pedras no meio do caminho, pois não enxergam as verdadeiras dádivas jogadas aos seus pés, no caminho que o Rei dos Reis deixou para eles. Faz parte da natureza do conhecimento refinar-se com o tempo, por isso o tempo é o senhor da razão. É isso que falta aos homens ainda: razão”.

Existe algo novo no ar, uma nova postura, um novo modo de viver. A internet veio para ficar. Ignorá-la é loucura; subjugá-la, uma insanidade. Nunca, em tempo algum, os profissionais tiveram tanto acesso à informação, numa velocidade tão surpreendente, como o têm depois do advento da web. E isso muda tudo. As regras do jogo, agora, são outras. Saem as crianças e entram os profissionais. O jogo está muito pesado, muito rápido e competente. Ou você encara ou está fora.

De que lado você quer ficar?

O espantoso de tudo isso é perceber como nós, cidadãos, somos empurrados pela história pelo advento de algo que foi levados ao estrelato somente depois que mostrou-se tremendamente útil para as empresas – leia-se lucrativo - e que nesse mesmo momento, toda a sua vida e mesmo seu modo de viver esta atrelado a massa formidável de conhecimento que essas mesmas empresa requerem de você para que elas se mantenham dentro do jogo caso você sonhe em fazer parte de alguma delas. O governo mesmo entrou mais tarde. Nesse caso, o jogo e suas regras foram alterados pelos próprios empresários. 

A tecnologia atual está requerendo dos cidadãos um tempo de resposta e conhecimento que o compara a ela própria, quase como uma máquina. Se você relaxa e fica ultrapassado, é tratado como uma velha torradeira e jogado no lixo do desemprego. Ou não é assim mesmo que está acontecendo? Então, a regra é a seguinte: estude que nem louco, para acompanhar toda essa correria; ganhe rios de dinheiro enquanto é jovem e tem disposição para trabalhar que nem doido. Quando você envelhecer, vai poder fazer como as velhinhas americanas: viver passeando pelo Caribe, numa boa. Se relaxar e deixar rolar, easy like sunday morning (*41), vai viver numa boa também, depois que se aposentar, desde que bem longe da civilização e com aquela esmola do sistema previdenciário.

Que saudade dos mild sixties (*42), aquele modo de vida dos suaves anos sessenta!

É o caso aqui de se perguntar: a que propósito serve essa correria toda? Ao lucro.

Viveria, a civilização, pior se nada disso estivesse aí agora? Não. 

Então, para que correr? 

Para se inserir num contexto. O contexto da civilização atual, do jeito que ela é. Com poluição, crime, cidades miseráveis, festinhas, embalos de sábado à noite, seu carrinho um-ponto-zero (que se esfarela na primeira porrada).

Ou seja, em troca desses pequenos mimos, sua vida é jogada no lixo e lhe entregam um contrato de sobrevivência na selva tecnológica.

Às vezes, isso me lembra dos tempos que os portugueses aqui chegaram e encheram os nossos olhos inocentes com um monte de quinquilharias inúteis, em troca de nosso ouro, de nossas mulheres e de nossa liberdade. As Multis são os conquistadores modernos e sua tecnologia, seu espelhinho. A realidade é frustrante e você já é refém desse pessoal.

 

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34 Isso é ouro puro
35 É o mais importante
36 IPO - Initial Public Offering – quando uma empresa faz seu primeiro lançamento de ações na bolsa
37 Seja extremamente cuidadoso
38 Master in Business Administration – normalmente um mestrado ou Lato Sensu, originalmente em administração mas que agora foi estendida a outras áreas
39 Como são comumente chamadas nos EUA as empresas que têm domínio registrado na internet – empresas ponto com
40 Plano de negócios – um guia detalhado para implementação de um negócio contendo o projeto, público alvo, metas, custos, recursos envolvidos, tempo para implementação e tempo projetado para retorno do investimento
41 Tranqüilo como uma manhã de domingo
42 Os tranqüilos anos sessenta