Que futuro nos espera, nesta virada do século.
 

O ano de 1999 começou, no Brasil, com o medo do desemprego. Esta talvez seja uma ameaça maior do que a insegurança das cidades, ou da crise asiática. E nos atinge de forma mais dura, em decorrência das transformações, porque temos um nível de escolaridade ainda muito precário. Enquanto na Alemanha um trabalhador passa 12 anos na escola, em média, o nosso passa cinco, seis.  Podemos fazer alguma coisa? Olhando apenas para profissionais do conhecimento, segundo a definição original do consultor Peter Drucker, fazemos as seguintes sugestões:

Não deixar sua carreira nas mãos do empregador ou do acaso.
Cada um deve chamar a si o controle da sua vida profissional, a busca de oportunidades pessoais de crescimento e de satisfação no trabalho.

Não parar no meio do caminho.
Muitos profissionais aceitam passivamente as tarefas mais fáceis, o trabalho menos relevante, a lei do menor esforço. Isto pode se refletir na empregabilidade mais cedo do que se pode pensar.

Aprender ou morrer.
Ninguém mais, em cargos gerenciais ou não-gerenciais, em atividades técnicas ou burocráticas, pode aceitar não estar aprendendo. A renovação permanente tem que ser um esforço pessoal, duramente perseguida, com sacrifício de horas de lazer, sob pena de sofrer pesada concorrência de outros profissionais. Se ainda não sabe como aprender, então será necessário adquirir esta habilidade rapidamente. Mesmo se for um recém formado, não acredite que está atualizado. Tem o outro lado da moeda, a prática, e novas visões a serem incorporadas.

Descobrir um mentor.
Abordamos este assunto aqui nesta newsletter várias vezes. Um mentor é absolutamente necessário para nos encurtar caminho. Não é tarefa trivial encontrar um mentor. Ele deve ter a experiência, a senioridade e a disposição para tal. Mas aqueles que encontram, e sabem usar, adquirem uma perspectiva mais ampla do trabalho e das organizações. É muito comum ouvir-se dizer que se aprendeu muito com esta ou aquela pessoa. Este seria o objetivo maior: aprender. E de, também, preservar o emprego. Mas existem dois problemas. Um, como dissemos, é encontrar um mentor. Outro é termos abertura para recebermos orientação de alguém. Os auto-suficientes, os cheios de empáfia, os arrogantes, dificilmente aceitam ouvir feedback, e raramente conseguem seguir conselhos.

Ficar de olho nas competências.
Cada um deve manter atualizado o seu rol de competências, e checar periodicamente se elas continuam relevantes. Estas são, de verdade, as responsáveis pela empregabilidade. Uma empresa não contrata pessoas por sua potencialidade apenas, ou por sua aparência, ou pelo desejo de contratar. Ela precisa de habilidades, e por elas irá remunerar. Então, mesmo quando o emprego formal é reduzido, existirá trabalho para ser realizado por pessoas competentes. Se não existir um processo de avaliar suas habilidades implementado na sua organização, tente um auxílio on line. Existem ferramentas disponíveis em vários sites da internet.

Manter a flexibilidade.
Significa, na realidade, ter as habilidades necessárias para realizar diversas tarefas e papéis. Mas, também, aceitar passar por funções diferentes dentro de uma mesma empresa. Não ficar subordinado a paradigmas, como por exemplo, só trabalhar em marketing ou em produção.

Estas sugestões refletem alguns dos temas que temos tratado em números anteriores, e um certo consenso por parte de consultores no ramo.
 
 

O futuro das profissões

Um coisa parece certa: o capital intelectual vai assumindo um lugar de preponderância, se comparado com outros tipos de ativos. Assim, as profissões baseadas em conhecimento parecem ter mais futuro do que aquelas baseadas na força física, ou com baixo conteúdo intelectual. O homem vai sendo conduzido para exercer aquelas profissões mais de acordo com sua condição de ser pensante. O interessante desta história é que muitas das profissões que estarão em voga daqui a quatro ou cinco anos ainda não são percebidas por nós. Por exemplo, nós mencionamos no ano passado o surgimento da figura do webmaster, até então desconhecida. Este novo papel, desempenhado pelo profissional encarregado da presença da empresa na Internet, hoje é identificável, e pessoas são recrutadas e se oferecem para trabalhar como tal.

Se isso ocorreu em pouco mais de um ano, o que esperar para os próximos cinco anos? Como pode alguém se preparar para profissões que não existem ou estão apenas na incubadeira? Acompanhando as tendências e as notícias, frequentando cursos e seminários, lendo. Já dissemos no ano passado que cada um deve se tornar um gerente de oportunidades de si próprio. Não há desculpa para a ignorância. Em geral, dizemos a nós mesmos (e aos outros) que não temos tempo. Não temos tempo para ler jornais, para navegar na internet, para ser treinado. Os tempos atuais estão tornando crítica a administração do tempo. Cada um que trate de liberar porções de tempo, para manter-se em dia.
 
 

O futuro gerencial

Os gerentes não estão com muito prestígio, neste início de ano. O poder de posição, hierárquico, cede lugar ao conhecimento, ao talento de fazer alguma coisa, à liderança. Os organogramas que por tantas décadas foram a grande preocupação da teoria da organização perderam o sentido. As equipes reais substituem os grupos funcionais amorfos e fazem surgir figuras de líderes totalmente inesperadas. São os líderes de processo, os líderes de qualidade, os líderes de equipes multidisciplinares, são os líderes de projeto, são os líderes certificados. Há muitos anos, em artigo publicado na revista Exame, o Prof. João Bosco Lodi previa que o fim da adminstração estava próximo. A administração tal como ela era conhecida e praticada, desde os tempos de Alfred Sloan, da General Motors. Este fim veio pela transformação do gerente. A organização por redes, com computadores e estações de trabalho interligados, coloca em cheque a figura do gerente antigo, onisciente e autoritário. A globalização, a rapidez das mudanças, a redução de pessoal, acaba de vez com ele. O que dizer de funcionários móveis, trabalhando em casa ou eternamente na estrada? O desafio do futuro, para os gerentes, é o desafio da liderança. Como liderar este novo tipo de profissional, independente, muitas vezes terceirizado, com outras prioridades além do trabalho? Os gerentes estão assistindo à redução progressiva de suas possibilidades de ascensão, e correm mais riscos. Devem procurar sua vocação maior, e entender o seu novo papel.
 
 

O futuro com tecnologia

Não há saída possível, nem um futuro, para o profissional do conhecimento sem o domínio de uso da tecnologia da informação. Ela está presente em todos os lugares e deixou de ser, há muito tempo, um privilégio de engenheiros e técnicos. A questão fundamental é que tipo de conhecimento as pessoas devem ter? Nós temos dito aqui que deve ser a do uso imediato. Isto quer dizer que não adianta adquirir conhecimento em redes neurais, por exemplo, se elas não são utilizadas. Ou, de forma mais simples, em database Oracle, se nunca o usuário se preocupa com a organização interna do banco de dados. Portanto, que experiências e que proficiência a pessoa deve adquirir, em quais tecnologias, parece ser um ponto fundamental a ser definido. Existem coisas que já vão ficando como básicas. Por exemplo, saber usar um navegador para pesquisar na Internet. Saber usar um processador de texto. De qualquer maneira, o futuro nos reserva uma forte dose de uso de recursos tecnológicos e estes mudam rapidamente. O efeito da convergência, que é a junção de computadores e telecomunicações, será o de fazer com que a tela do computador pessoal se transforme numa verdadeira central de multimídia, com acesso a transmissões in line de TV a cabo, Internet e videoconferência. Como podemos medir o impacto desta mudança toda na cabeça dos profissionais? E como fazer com que todos, independente de idade ou escolaridade, participem desta transformação? Treinando. Desenvolvendo sistemas que integrem a multimídia no cotidiano. Barateando a tecnologia de maneira a incorporá-la, o mais rápido possível, à vida doméstica. Não apenas de uns poucos iniciados, mas da maioria da população.
 
 

O futuro do consumidor

E, finalmente, um pouco sobre a grande mudança no comércio: o primado do consumidor. Todos nós, profissionais e empresas, teremos que entender que a nova economia transfere, definitivamente, para o consumidor a liberdade de escolha. Isto será principalmente sentido pelos prestadores de serviços, sejam bancos ou donos de salão de beleza. A liberdade de escolha será muito grande. Quem não se preocupar com isso, profissional liberal ou loja da esquina, pode perder o bonde da história. O consumidor será o rei, e deve ser respeitado em suas preferências e sua capacidade de compra. Com inteligência.