Ainda existe lealdade profissional?
 

Segundo Larry Bossidy, principal executivo da AlliedSignal (empresa que fatura algo como US$ 14 bilhões por ano), em entrevista publicada na revista Fortune, não resta muito mais lealdade no mundo dos negócios, depois de tantas reduções de pessoal que ocorreram nas grandes corporações nos últimos dez anos.

De fato, houve o rompimento de um contrato não escrito e que vigorou, pelo menos, desde  os anos 30 nestas empresas: dedique-se à companhia, e eu te darei segurança e promoções, independentemente do que ocorrer com o mercado. Isto, evidente, se aplicava a indústrias em crescimento constante. A tal ponto, que na IBM, por exemplo, gerações inteiras de vendedores se acostumaram a ter seus objetivos anuais reajustados para cima, sempre, ano após ano, não importando em que território trabalhassem. No livro O Homem da Companhia, edição brasileira da Companhia das Letras, Anthony Sampson mostra que, agora, estamos como que de volta ao século XIX, mas com muito menos apoio da igreja ou das famílias extensas que proporcionavam alguma espécie de rede de segurança social nos tempos vitorianos. A competição internacional, o desequilíbrio de poder, o ressurgimento dos acionistas preocupados apenas com a geração de valor, um desprestígio da função gerencial, a substituição de processos manuais por informatização ou localização de fábricas em países com menos encargos, trouxeram o rompimento deste pacto não escrito e a perda da lealdade mútua entre a empresa e o empregado.

Agora, será possível ainda algum tipo de lealdade? Em primeiro lugar, achamos que, por parte das empresas, será preciso abandonar velhos slogans e uma certa tendência para a  manipulação.

É possível, sim, existir a lealdade dos empregados, mas de uma forma diferente. E ela passa,  em primeiro lugar, pelo esforço sincero dos gerentes e executivos, como também observa Anthony Sampson, na obra citada. Só eles podem devolver ao profissional da classe média, a este grande prejudicado das demissões em massa e aposentadorias precoces, a confiança e uma nova visão da lealdade, adaptada aos anos 90 e século XXI.

Podem começar devolvendo, por exemplo, o respeito pelo indivíduo, enfatizando e proporcionando sua especialização crescente. Podem transformar o ambiente de trabalho em algo motivador e desafiante, que permita aos indivíduos exercitarem suas melhores aptidões.

A lealdade não se dará mais pela despreocupação com o futuro. Ela dependerá de um acordo de troca, explícito, entre o empregador e o empregado. Um fornece remuneração, habilidades, conhecimento, ambiente de trabalho estimulante, e o outro fornece talento.

Claro, que existem muitas perguntas mal respondidas neste contexto, mas ele parece que veio para ficar.

Por exemplo, o que acontece com os mais velhos que ficam obsoletos? Quem protege a família da doença e do imprevisto? Que poder terá para negociar um acordo favorável aquele que precisa desesperadamente de trabalhar? Quem fará aquelas tarefas menos nobres e que precisam ser feitas? Se, como nos diz a Fortune, não se deve mais esperar por promoções, nem títulos pomposos, mas apenas aumentos de remuneração, como tornar a tarefa dos gerentes motivadora?

O segredo da nova lealdade está na palavra competência, e tanto o empregado como o empregador devem estar conscientes disso. Como diz Tom Peters para suas audiências de gerentes, parem de fazer avaliações de desempenho e planos de desenvolvimento; comecem a ajudar a seus funcionários a manterem seus currículos atualizados e relevantes.

A lealdade acontecerá também nas redes profissionais. Serão, por exemplo, aqueles que navegam na Internet (os wired), os que entendem de música, os cardiologistas, os que se interessam por natação ou basquete, os que gerenciam projetos, os gerentes de fundos mútuos, os que tem MBA.

Na era da prestação de serviços, a lealdade também se dará entre os cooperativados, entre os que se apoiam mutuamente, os que trabalharam em determinado projeto (alguém se lembra dos barrageiros na engenharia?). Pouco, ou muito pouco, existirá de lealdade ao empregador final. A não ser que este faça transferência efetiva de tecnologia, ou permita ao funcionário desenvolver as chamadas habilidades portáteis, ou pela existência de mentores, que orientem os mais novos na absorção de novas habilidades importantes.

A lealdade também corresponde a uma necessidade íntima das pessoas, uma necessidade psicológica de associação. Mas ela exige reciprocidade. Serão os grupos, ao que tudo indica, que tornarão agora possível a satisfação desta necessidade.